sexta-feira, 13 de março de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Seguro (para memória futura)
[...] em termos de poder de compra, os trabalhadores da empresa receberam em 2024 cerca de 17% menos por hora do que recebiam há cinco anos, apesar de a empresa ter aumentado a facturação e registado lucros significativos ao longo desse período. Em linguagem simples: os salários por hora não só não acompanharam a inflação como ficaram claramente para trás, o que significa uma perda real de rendimento para os trabalhadores.
E é aqui que a contabilidade deixa de ser mera enumeração e passa a ter significado político e social. A empresa M. Freitas não apresenta um quadro de miséria laboral, mas também não revela qualquer modelo de redistribuição particularmente generoso. Pelo contrário: mostra um padrão de contenção salarial bastante nítido.
Ao longo dos cinco anos analisados pelo PÁGINA UM, a remuneração da gerente oscilou sempre perto dos 95 mil a 100 mil euros anuais, num patamar estável. Já os salários médios dos trabalhadores não só permaneceram modestos como, em 2024, sofreram um recuo assinalável apesar do aumento da facturação, da expansão do quadro de pessoal e de um lucro superior a meio milhão de euros. Em termos simples: a empresa cresceu, lucrou bem, manteve a gerência muito confortavelmente instalada e não deixou nos salários médios um sinal proporcional dessa prosperidade.
segunda-feira, 9 de março de 2026
segunda-feira, 2 de março de 2026
Passos Coelho, a maioria sem cimento e a Presidência sem “grilo falante”
Uma Leitura “académica” de uma entrevista ao ECO: responsabilidade parlamentar, reforma do Estado, Segurança Social e a nova geometria do poder em Belém.
A entrevista de Pedro Passos Coelho ao ECO não é um anúncio, é um diagnóstico. Não é um “regresso”, é uma anatomia do regime: a aritmética parlamentar, a incapacidade de construir estabilidade, a reforma do Estado transformada em slogan, a Segurança Social presa entre a demografia e o Direito, e uma Presidência que, se quiser ser eficaz, terá de reaprender a virtude rara da parcimónia simbólica.
Começa, aliás, por uma defesa de método. Passos Coelho recusa a entrevista como “declaração do que não vai fazer”, chamando-lhe “egocentrismo e parvoíce”. Esta entrada não é folclore: fixa um princípio. Quem se apresenta a negar rumores vive dos rumores; quem fala do país tenta, pelo menos, deslocar o foco. E é exactamente isso que a entrevista faz: desloca o “teatro” para a “estrutura”.
I. A maioria à direita: aritmética sem arquitectura
A tese nuclear é simples e, por isso mesmo, explosiva: “o país virou à direita” e existe “uma grande maioria no Parlamento à direita”, mas falta saber se essa maioria tem “o mínimo de cimento”. A palavra “cimento” é, aqui, o conceito decisivo. Não se trata de simpatia; trata-se de governabilidade. Sem cimento, a maioria é um número; com cimento, a maioria é um instrumento.
Daí a afirmação — politicamente tóxica, institucionalmente elementar — de que o Governo deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal. Não porque fosse fácil, nem porque fosse bonito, mas porque só a tentativa permite distinguir impossibilidade de recusa voluntária. O regime tem um vício de origem: prefere a pose moral ao teste do real. O resultado é a crónica instabilidade disfarçada de prudência.
Neste ponto, Passos Coelho introduz a segunda dimensão do mesmo argumento: a responsabilização. Quando discute a hipótese de privatização parcial, pergunta por que razão se deve “isentar” PS e Chega de assumirem o peso da decisão no Parlamento. Se chumbassem, ficariam responsabilizados; se não chumbassem, o Governo ganharia margem para negociar uma solução possível. O ponto não é a privatização em si (que pode ser debatida por méritos e riscos); o ponto é o jogo de sombras: todos condicionam, poucos assumem, ninguém paga.
II. Reforma do Estado: ambição declarada, sinais tímidos
Quando entra na reforma do Estado, Passos Coelho distingue intenção de execução e, mais importante, comunicação de poder. “Faz todo o sentido ter um ministro para a reforma do Estado”, mas “a maneira errada de comunicar essa intenção é criar um ministério”. A crítica é institucional: um ministério pode parecer “poder”, mas pode ser apenas vitrina; a autoridade real exige instrumentos transversais, capacidade de coordenação, acesso ao centro decisório.
E o julgamento final é cruel pela sobriedade: estamos a completar quase um ano e os sinais públicos são “tímidos”. Timidez, em política, é a forma educada de chamar falha ao que se prometeu como ambição. Reformar o Estado não é dizer “reforma do Estado”. É mexer em incentivos, estruturas, carreiras, procedimentos, compras, contratação, avaliação e responsabilidade. É, sobretudo, enfrentar resistências instaladas — e isso não se faz com conferências, faz-se com actos.
III. Segurança Social: demografia, expectativas e o nó constitucional
A parte mais “pró-académica” da entrevista é a da Segurança Social, porque nela se condensa a tragédia portuguesa do curto prazo.
O diagnóstico é directo: “temos um modelo que não tem demografia que o sustente”. E o argumento progride em três passos:
(1) quanto mais se adia, mais difícil é dizer a quem está a 10–15 anos da aposentação que o sistema mudará;
(2) podem existir interpretações constitucionais que protejam expectativas de quem está perto de se aposentar;
3) o problema concentra-se exactamente nesse grupo próximo do limite.
A conclusão é inevitável e politicamente impopular:
“já perdemos 10 anos”;
não se muda de sistema sem reduzir benefícios e aumentar responsabilidades do presente — “um mix das duas coisas”.
Isto desmonta a fantasia dominante: a de que a reforma pode ser “técnica” e invisível. Não pode. A reforma será sempre uma decisão distributiva. A única escolha real é entre fazê-la cedo (com margem) ou tarde (com violência).
IV. Belém e o capital simbólico: contra o Presidente “grilo falante”
O parágrafo sobre o novo Presidente da República é uma pequena aula de teoria do poder simbólico. Para Passos Coelho, o Presidente “não pode gastá-la de qualquer maneira”, não pode ser “um grilo falante”, não pode falar de “tudo e de nada”; quando fala “tem de fazer alguma diferença”. Isto é, a eficácia presidencial mede-se pela raridade com propósito, não pela omnipresença com ruído.
E surge a dúvida sobre o perfil de António José Seguro: terá ele essa capacidade de preservar capital simbólico e usá-lo com efeito? “O tempo dirá.” A prudência formal não apaga o recado: num regime em que o comentariado exige reacção imediata a qualquer notícia, a Presidência ou se torna moderadora (pela contenção), ou se torna parte do ruído (pela tentação do comentário). No primeiro caso, pode estabilizar; no segundo, fragiliza.
V. Partidos, poder e a nova geometria com o Presidente
Lida em conjunto, a entrevista propõe uma tese sobre as relações de poder no sistema partidário português: a instabilidade não nasce apenas da fragmentação; nasce da recusa de assumir custos. Os partidos preferem conservar liberdade táctica a construir compromisso estratégico. E, nesse cenário, a Presidência pode tornar-se o centro informal de arbitragem — não por mandato, mas por vazio.
Se há, como diz Passos, uma maioria à direita, a questão passa a ser: quem a organiza? Quem a torna governável? Se ninguém o fizer, o Presidente será empurrado (por pressão mediática e por fragilidade parlamentar) para um papel de “gestor de crises” permanente. Mas esse papel consome rapidamente o capital simbólico que deveria ser guardado para momentos decisivos.
Concluindo-me
A entrevista não é um programa; é um mapa conceptual. Diz-nos que:
- existe uma maioria potencial à direita, mas falta cimento e falta arquitectura;
- a reforma do Estado, sem poder real e sem execução, fica no registo do anúncio;
- a Segurança Social não se resolve com coragem retórica, mas com decisões distributivas inevitáveis;
- a Presidência, para ser eficaz, tem de falar menos e pesar mais e
- a política portuguesa continua a preferir a diluição de responsabilidades à clareza do custo.
No fundo, a pergunta que sobra é esta: se o país virou à direita, como afirma Passos Coelho, existe coragem para usar a maioria — ou vamos continuar a fingir estabilidade enquanto compramos tempo com o dinheiro do futuro?
Agulhadas finais
O regime adora “linhas vermelhas” porque elas substituem o trabalho de governar pelo conforto de condenar.
O Presidente que fala de tudo acaba por não fazer diferença em nada — e depois chama “crise” ao resultado do seu próprio ruído.
E a reforma que se anuncia todos os meses é apenas a prova de que ninguém quer ser o primeiro a pagar a conta.
Notas
Entrevista a Pedro Passos Coelho, “Governo deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a IL”, ECO (1 de Março de 2026).
Sobre a noção de “capital simbólico” e a sua conversão em autoridade política, ver a literatura clássica sobre poder simbólico e legitimação (aplicável, com adaptações, ao papel presidencial em regimes semi-presidenciais).
A tensão entre expectativas protegidas e reforma de sistemas contributivos em contexto de envelhecimento demográfico é um problema recorrente em Estados sociais europeus; em Portugal, o seu adiamento tem agravado a rigidez política e jurídica das soluções disponíveis. ```
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Seguro e a politica que lhe acontece
António José Seguro nunca se destacou pelo excesso de firmeza. Quando foi secretário-geral do PS, hesitou até perder a autoridade e o lugar para António Costa após um famoso debate televisivo. Deixemos de lado o argumento morno de quem pede um socialista em Belém para “equilibrar” a direita no governo e no Parlamento. Seguro não resistiu às pressões internas do PS. Agora, perante a notória transformação política e do sistema partidário, dizem-nos que vai resistir a pressões mais brutais na Presidência da República. Em que mundo isto é plausível?
O núcleo desta insegurança está na dúvida que ocupa o debate público sobre a probabilidade de António José Seguro se ver obrigado por resultados eleitorais a dar posse a um governo de André Ventura. Como conseguirá o regime evitar semelhante catástrofe? Esperemos que não consiga. Preparemo-nos para o pior.
Se as coisas seguirem o curso prosaico, há probabilidade séria do Chega ficar em primeiro lugar nas próximas legislativas. Nesta eleição presidencial, André Ventura já conquistou votos suficientes para tirar a vitória à AD – com certeza não foi buscá-los à esquerda. Mas daí não segue que o deixem governar. Seguro pode até convidá-lo a formar governo e dar-lhe posse como primeiro-ministro. Mas PSD e PS farão uma geringonça como fez António Costa e vão derrubá-lo na Assembleia da República assim que apresentar o Programa.
O guião está escrito. Em primeiro lugar, porque o PS já derrubou um governo eleito: abriu o precedente, perdeu as inibições e vai voltar a derrubar uma segunda vez, perante o aplauso do regime por livrar a Pátria de um governo que o regime vê como “anti-democrático”. Em segundo lugar, porque o PSD resmungou quando isso lhe aconteceu em 2015, mas dessa data em diante perdeu uma liderança forte e acumulou erros em cima de fraquezas, escândalos e sarilhos com a justiça. Este PSD que restou depois de Pedro Passos Coelho vai negociar um entendimento com o PS impondo uma única condição: submeter-se à liderança do PS.
Os “consensos” nacionais mudam no pormenor e à superfície, mas os termos do “consenso” são da esquerda e quem manda é o PS. Como, de resto, se repetiu agora nas eleições presidenciais: os actuais líderes da direita tradicional preferem aliar-se à esquerda, para manter o status quo, em vez de arriscar a mudança. Como um bicho da conta, o regime protege-se dobrando as costas sobre si mesmo.
Qual será o papel de Seguro neste processo? Nenhum. Quando o regime, em nome da democracia, lançar novo ataque, Seguro não o viu formar-se nem o protagonizou: o ataque foi mais um episódio que lhe aconteceu.”
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José Costa-Deitado
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
domingo, 8 de fevereiro de 2026
para ver se era verdade!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
The Real Threat to Democracy Isn’t Partisan Voters — It’s Partisan Medi
Americans are constantly warned that polarization is tearing the country apart. We’re told the problem is angry voters, radical activists, or social media echo chambers. But that diagnosis misses the disease. The most corrosive force in modern politics isn’t the public — it’s a media ecosystem that has traded skepticism for allegiance and clarity for clicks.
Media bias is no longer a subtle tilt. It’s a business model.
Across the political spectrum, major outlets increasingly treat politics not as a civic responsibility but as an entertainment product. Stories are framed not to inform, but to confirm. Facts are filtered through ideological lenses before they ever reach the audience. Context becomes optional; outrage is mandatory.
This isn’t about a single network or ideology. Conservative media often acts as a defense attorney, reflexively dismissing scandals as “hoaxes” while amplifying culture-war distractions. Liberal media, meanwhile, frequently plays prosecutor, framing every political disagreement as a moral emergency and every opponent as an existential threat. Each side insists it alone speaks truth — and both accuse the other of brainwashing the public.
The result is a country consuming entirely different realities.
Consider how the same event is covered by different outlets. One side leads with motives, the other with outcomes. One highlights systemic injustice, the other individual responsibility. One uses loaded language to signal virtue; the other to signal defiance. Facts may overlap, but meaning does not. Journalism becomes narrative maintenance.
This matters because trust is the currency of democracy. When people believe the media is manipulating rather than informing them, they stop listening — or worse, they retreat into sources that tell them only what they want to hear. Skepticism turns into cynicism. Cynicism turns into disengagement. And disengagement creates fertile ground for demagogues who promise “truth” while offering only loyalty.
Defenders of partisan media argue that “objectivity is a myth.” They’re half right — no human being is perfectly neutral. But that insight has been weaponized to excuse intellectual laziness. Rejecting objectivity does not require rejecting fairness, proportionality, or good faith. Yet too often, those principles are the first casualties of the daily news cycle.
What’s lost is not just balance, but humility. A healthy press questions its own assumptions. Today’s media rewards certainty, speed, and moral theater. Corrections are buried. Nuance is treated as weakness. Journalists who break from the dominant narrative on their side risk professional exile, not praise.
And so the feedback loop tightens: audiences reward outrage, outlets deliver more of it, and politicians learn to perform for the cameras rather than govern. Politics becomes a content strategy.
The tragedy is that the public is more perceptive than the media gives it credit for. People notice selective coverage. They see stories quietly dropped when they complicate a preferred narrative. They feel talked down to, not informed. Every act of spin chips away at credibility — and credibility, once lost, is almost impossible to recover.
A free press is essential to democracy. A partisan press that mistakes activism for accountability is not.
The solution isn’t some fantasy of perfectly neutral media. It’s a recommitment to intellectual honesty: separating reporting from opinion, treating opponents as citizens rather than villains, and remembering that journalism’s role is not to win arguments, but to illuminate reality — even when it’s inconvenient.
Until that happens, we’ll keep blaming voters for a polarization the media itself helps manufacture. And we’ll keep wondering why trust in institutions keeps collapsing, even as the headlines grow louder.
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José Costa-Deitado
sábado, 31 de janeiro de 2026
O “rato que ruge” e a cegueira confortável do regime
o CHEGA não é um acidente táctico, mas um sintoma político durável
A tese de que o CHEGA poderá acabar na lista dos partidos que rugiram alto e morreram cedo, desde que o PSD descubra talento e capacidade de resistência — tem uma virtude: tranquiliza o sistema. Tem também um defeito fatal: parte de um diagnóstico errado.
O CHEGA não nasceu de um défice de talento social-democrata, nem de um azar conjuntural. Nasceu da falência política prolongada de um regime gerido alternadamente por PS e PSD, incapaz de responder a problemas reais e viciado numa cultura de bloqueio, moralismo e auto-preservação.
Tratá-lo como um “rato que ruge” é discutir o barulho do alarme e ignorar o incêndio.
Há que desmontar a narrativa histérica do “perigo democrático”. A democracia portuguesa não está em risco, o sistema constitucional europeu funciona e as eleições continuam a ser o centro da legitimidade política. Dizer o contrário é falso, desonesto e intelectualmente indigente.
Se a democracia não está ameaçada, então o voto no CHEGA não é uma patologia nem um desvio moral. É uma escolha política consciente, feita dentro das regras, contra quem governou e falhou.
Agora apareceu um novo truque do sistema: substituir o confronto político pela selecção do candidato “mais presidenciável”, “mais educado”, “mais aceitável”. Não é política. É exclusão.
Ao reduzir a escolha democrática a um concurso de boas-maneiras, o regime confirma exactamente a acusação central do "venturismo": existe uma elite que decide à partida quem pode ser escolhido e quem deve ser interditado.
O CHEGA não é um partido fora do sistema, nem um sobressalto passageiro. Joga dentro das regras, usa eleições e parlamento, e representa uma fractura eleitoral real. Não é um corpo estranho: é um espelho incómodo.
Agulhadas finais
O CHEGA não é o “rato que ruge”; é o resultado lógico de décadas de governação incompetente mascarada de virtude.
Quem chama “perigo democrático” a votos legítimos revela medo do eleitor e desprezo pela democracia.
O regime não falha por falta de talento: falha por excesso de auto-complacência.
Esperar que o CHEGA desapareça por cansaço não é análise — é auto-consolo.
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José Costa-Deitado
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Entre o TOC e o Paranoide...
Quando o jornalismo finge ensinar a Constituição para esconder a política
Há textos que não são erros de análise; são opções conscientes. O artigo paranoide de Paulo Ferreira (https://observador.pt/opiniao/os-poderes-limitados-e-o-candidato-4-em-1/) sobre a campanha presidencial pertence claramente à segunda categoria. Não procura esclarecer os limites do cargo de Presidente da República — procura condicionar o voto, deslegitimando um candidato e absolvendo outro, sob a capa de um constitucionalismo selectivo e paternalista.
O ponto de partida é conhecido e repetido até à exaustão: o Presidente “não governa”, não define políticas públicas, não executa, não manda prender, não legisla. Tudo isto é formalmente verdadeiro — e politicamente enganador. Porque a Constituição não é apenas um catálogo de proibições funcionais; é também um sistema de tensões, influências, bloqueios, enquadramentos e confrontos institucionais. Fingir o contrário é ou ignorância grave ou má-fé deliberada.
O mesmo jornalismo que agora se mostra subitamente cioso da separação de poderes passou anos a celebrar um Presidente hiper-activo, omnipresente, interventivo e moralizador. Marcelo Rebelo de Sousa foi elevado a comentador-mor da nação, a gestor de afectos e a regulador simbólico de políticas públicas — sem que isso incomodasse minimamente os guardiões ocasionais da ortodoxia constitucional. Quando Marcelo prometeu “erradicar” problemas sociais sem meios próprios para o fazer, isso não foi denunciado como demagogia estrutural; foi tratado como virtude empática.
O critério muda apenas quando muda o candidato?
Perante isso, António José Seguro surge como o aluno aplicado do regime: pouco diz, pouco
promete, pouco incomoda. A sua modéstia programática é apresentada como virtude democrática; o seu vazio político, como maturidade institucional. O veto político é tratado como gesto audaz — embora imediatamente neutralizado pelo próprio articulista, que faz questão de lembrar que o Parlamento o pode reverter. Um Presidente reduzido à irrelevância é vendido como ideal republicano.
promete, pouco incomoda. A sua modéstia programática é apresentada como virtude democrática; o seu vazio político, como maturidade institucional. O veto político é tratado como gesto audaz — embora imediatamente neutralizado pelo próprio articulista, que faz questão de lembrar que o Parlamento o pode reverter. Um Presidente reduzido à irrelevância é vendido como ideal republicano.
Já André Ventura é descrito como um impostor constitucional: alguém que ousa falar de reformas, de bloqueios, de impasses estruturais, de conflitos reais entre poderes. Não interessa saber se as propostas são viáveis, desejáveis ou exequíveis. Basta declará-las “fora do perímetro” para as desqualificar moralmente — e, por arrasto, desqualificar os eleitores que nelas reconhecem um protesto legítimo contra um sistema fechado.
É aqui que o texto do Paulo Ferreira deixa definitivamente o campo da análise e entra no da propaganda. Ao insistir que só candidatos que se auto-limitam ao silêncio funcional são democráticos, o articulista transforma a eleição presidencial num exercício de resignação cívica. Votar passa a ser um acto decorativo, desde que obediente. A democracia reduz-se a um ritual sem escolha real.
Não admira que os debates se tenham perdido em discussões estéreis sobre “poderes que o Presidente não tem”. Isso não é culpa dos eleitores — é culpa de jornalistas que confundem explicação com catequese, e informação com correcção ideológica. Fica mais uma certeza destas eleições: temos os piores jornalistas do mundo, e a grande derrotada é a Comunicação Social.
O mais irónico é que, ao tentar infantilizar o eleitorado, este tipo de texto acaba por produzir o efeito contrário. Expõe o desespero de um regime de centrão caduco, obriga os acomodados a sair das suas tocas, e torna explícita a natureza profundamente política de um jornalismo que se apresenta como neutro.
Não, o Presidente da República não governa sozinho. Mas também não é a “rainha de Inglaterra” que certos jornalistas gostariam de eleger. Entre a farsa pedagógica e o moralismo selectivo, há uma coisa que este texto revela com clareza: o medo não é da violação da Constituição — é da escolha livre dos eleitores.
Agulhadas finais
Quando um jornalista se arma em professor de Constituição para decidir, por nós, o que é “democrático”, já não está a informar: está a treinar o eleitorado.
O problema não é um candidato “exceder poderes”: o problema é haver redacções inteiras a fazer campanha de batas brancas, com a superioridade moral de quem nunca foi a votos.
Se isto fosse apenas “pedagogia cívica”, aplicava-se a todos. Como só se aplica a um, chama-se pelo nome: propaganda.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
A Inês interpretou a Consulmark2
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