Mostrar mensagens com a etiqueta chega. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta chega. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

Análise técnica da crítica da ONU ao projecto do Chega

A intervenção do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos não se dirige ao Chega enquanto actor partidário, mas ao conteúdo jurídico do projecto e ao seu potencial impacto nas obrigações internacionais assumidas por Portugal. A ONU actua dentro do seu mandato: monitorizar o cumprimento dos tratados de direitos humanos ratificados pelos Estados e formular recomendações quando detecta risco de incompatibilidade. Não se trata de ingerência política, mas de supervisão jurídica enquadrada nos próprios pactos internacionais.

Do ponto de vista técnico, a crítica da ONU concentra-se em três dimensões principais. Em primeiro lugar, a patologização da identidade de género, decorrente da utilização da expressão “transtorno de identidade de género”1. Após a revisão da classificação internacional de doenças, a transexualidade deixou de ser considerada perturbação mental, e a reintrodução de terminologia patologizante é entendida como potencial violação do princípio da não-discriminação consagrado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Em segundo lugar, a proposta de proibição absoluta de tratamentos médicos relacionados com disforia de género para menores de 18 anos é vista como problemática. Uma proibição total, indiferente à avaliação clínica individual, pode colidir com o direito à saúde e com a Convenção sobre os Direitos da Criança, que exige que o superior interesse da criança seja ponderado caso a caso e que esta participe nas decisões que lhe dizem respeito, em função da sua maturidade.

Em terceiro lugar, o modelo de reconhecimento legal da identidade de género. Os mecanismos internacionais têm vindo a afirmar a autodeterminação como critério adequado, privilegiando procedimentos administrativos simples. A imposição de validação médica obrigatória pode ser qualificada como restrição desproporcionada, potencialmente incompatível com as obrigações assumidas por Portugal em matéria de direitos civis e políticos.

Neste quadro, a ONU não declara que o Chega violou tratados internacionais; sustenta, antes, que a aprovação do projecto, tal como formulado, pode colocar o Estado português em situação de incumprimento das suas responsabilidades internacionais em matéria de direitos humanos.

  1. “transtorno de identidade de género”

domingo, 26 de julho de 2026

uma tensão ideológica que o jornalistado e o comentariado raramente explicitam com rigor...

A presença do CHEGA no sistema partidário português tem vindo a revelar uma tensão ideológica que o jornalismo e o comentariado raramente explicitam com rigor: a coexistência, no mesmo partido, de um discurso de direita nacional‑securitária com um conjunto de posições que, em termos clássicos, pertencem ao repertório da esquerda social e laboral. Esta ambiguidade não é um acidente; é um dispositivo político.

Quando o CHEGA vota contra reformas laborais que prolongam a vida activa, defendendo a reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, aproxima‑se objectivamente de bandeiras históricas do PCP e do BE. A retórica de defesa do trabalhador, contra um Estado e uma elite que “roubam” anos de vida e de descanso, inscreve‑se na gramática da luta de classes, mesmo quando o partido recusa essa etiqueta. O mesmo sucede com a crítica às subvenções vitalícias e aos privilégios da classe política: trata‑se de um ataque à “casta” que, embora envolto em linguagem moralista e nacionalista, coincide com a denúncia da desigualdade e da injustiça que a esquerda tradicional sempre reivindicou.

A questão da energia torna esta convergência ainda mais nítida. A defesa da redução drástica, ou mesmo da isenção, do IVA na electricidade parte da ideia de que a energia é um bem essencial e que o seu custo é um factor de opressão económica sobre as famílias. Esta leitura é indistinguível, no plano material, das propostas de PCP e BE, que há décadas denunciam a pobreza energética e reclamam intervenção pública nos sectores estratégicos. O CHEGA apropria‑se deste terreno, mas reconfigura‑o: em vez de o inscrever numa crítica sistémica ao capitalismo, insere‑o numa narrativa de traição nacional e de corrupção das elites.
O proteccionismo económico e a crítica à globalização reforçam esta ambivalência. Ao denunciar a globalização, as “elites tecnocráticas” e a desindustrialização, o CHEGA fala para um eleitorado que, durante décadas, foi socializado politicamente pela esquerda comunista e socialista. O operariado das periferias urbanas, os sectores precarizados e os territórios que se sentiram abandonados pela modernização liberal encontram, neste discurso, uma continuidade afectiva: a ideia de que alguém, finalmente, os defende contra um sistema que os sacrifica. A diferença está no enquadramento: onde PCP e BE veem capitalismo e luta de classes, o CHEGA vê decadência nacional, insegurança e perda de identidade.

É precisamente aqui que se torna visível o ponto cego do comentariado. Ao insistir em classificar o CHEGA como “extrema‑direita” em bloco, muitos analistas ignoram que uma parte significativa da sua base programática é construída sobre temas e reflexos da esquerda social. O partido funciona como um vector de deslocação simbólica: retira à esquerda o monopólio da linguagem da injustiça e da desigualdade, e reinscreve essa linguagem num horizonte nacional‑punitivo. O resultado é um híbrido ideológico que confunde as categorias tradicionais de análise.

Esta hibridez tem consequências estratégicas. Ao ocupar simultaneamente o espaço da direita securitária e o da esquerda social, o CHEGA apresenta‑se como partido de protesto total: contra o crime, contra a corrupção, contra a globalização, contra a precariedade, contra a “casta”. PCP e BE, por seu lado, mantêm uma coerência ideológica clássica, mas vêem o seu terreno social ser erodido por um concorrente que fala a língua da revolta com uma gramática emocional mais agressiva e mediaticamente eficaz.

Para compreender o fenómeno, é necessário abandonar a comodidade das etiquetas rígidas. O CHEGA não é apenas um partido de direita radical; é um partido que recicla motivos da esquerda social e os reorienta para um projecto de ordem, punição e identidade nacional. A sua força reside precisamente nessa capacidade de combinar, num mesmo discurso, a promessa de protecção social e a promessa de endurecimento punitivo. É neste cruzamento que se joga uma parte decisiva da recomposição do campo político português.

Um olhar intelectual sério sobre o CHEGA exige, portanto, reconhecer que muitas das suas posições “impróprias para um partido de direita” não são lapsos, mas instrumentos deliberados de captura de eleitorado e de deslocação simbólica. A esquerda que ignora este processo, reduzindo o partido a uma caricatura de extrema‑direita, arrisca‑se a perder não apenas votos, mas o próprio monopólio histórico sobre a linguagem da justiça social.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Exemplo simulado de entrevista provocatória a um porta-voz do CHEGA

Exemplo simulado de entrevista provocatória a um porta-voz do CHEGA, pex., com perguntas típicas de jornalista hostil e respostas estrategicamente preparadas, combinando assertividade, factos e inteligência retórica 
que cumprem quatro funções:
-Neutralizar o ataque sem fugir da pergunta  
- Reformular o tema com  vantagem estratégica
-Comunicar com o eleitorado, não com o entrevistador
-Deixar uma frase-mensagem clara e replicável nas redes sociais

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

sábado, 23 de abril de 2022

Ventura "eleito" líder da Oposição

Parlamento renovado, a mesma conclusão de sempre: nota negativa para a Oposição. Mas há uma novidade: André Ventura é, nesta altura, quem tem mais "votos" como líder da Oposição ao Governo. 
O vazio de Poder no PSD ajuda a explicar a situação. Rui Rio está de saída, mas ainda não tem substituto nos sociais-democratas. E ainda falta mais de um mês para que os militantes sejam chamados a fazer a sua escolha. Ventura vence em quase todos os segmentos geográficos, de género, de idade e de classe social. A única excepção é a Região Norte, onde o mais apontado é Rio. No caso dos segmentos por voto partidário, a situação é diferente. Sendo que os eleitores do PSD apontam, também eles, Ventura como líder da Oposição, enquanto os do PS ainda percepcionam Rui Rio como o principal rival. Cotrim de Figueiredo (liberais), Catarina Martins (BE) e Jerónimo de Sousa (PCP) vencem entre os seus eleitores (os dois primeiros por escassa margem).

FICHA TÉCNICA DA SONDAGEM
A sondagem foi realizada pela Aximage para o DN, JN e TSF, com o objetivo de avaliar a opinião dos portugueses sobre temas relacionados com a atualidade política.
O trabalho de campo decorreu entre os dias 12 e 18 de abril de 2022 e foram recolhidas 807 entrevistas entre maiores de 18 anos residentes em Portugal.
Foi feita uma amostragem por quotas, obtida através de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII), a partir do universo conhecido, reequilibrada por género, grupo etário e escolaridade. Para uma amostra probabilística com 807 entrevistas, o desvio padrão máximo de uma proporção é 0,017 (ou seja, uma "margem de erro" - a 95% - de 3,45%).