domingo, 24 de maio de 2026

O activismo de bordo e a diplomacia de palanque

Ou como certa política externa portuguesa descobriu que Espanha é longe, mas Sánchez fica perto

Há uma forma muito portuguesa de discutir política externa que consiste em substituir a geografia pela pose, a história pela palavra de ordem e a diplomacia pelo assomo moral. Nesses momentos, Portugal deixa de ser um país atlântico, europeu, membro da NATO, com compromissos estratégicos antigos, uma posição geopolítica específica e uma memória diplomática própria, para passar a ser uma espécie de plateia sentimental onde alguns actores políticos ensaiam frases para consumo interno.
É neste quadro que o artigo de Helena Matos, O activismo de bordo, merece concordância. Não apenas pela crítica circunstancial à flotilha, nem apenas pelo modo como denuncia a tentação de transformar gestos militantes em doutrina de Estado, mas sobretudo porque toca num ponto mais fundo: a crescente infantilização da política externa portuguesa por parte de sectores que confundem soberania com berraria, independência com anti-americanismo e prudência diplomática com cobardia.

A propósito da chamada flotilha e do conflito no Médio Oriente, voltou à superfície uma velha cantilena: Portugal devia seguir Espanha. Espanha, dizem-nos, tem coragem; Espanha enfrenta Israel; Espanha diz não aos Estados Unidos; Espanha faz política externa com “coração”; Espanha, enfim, seria o modelo que Portugal, envergonhadamente, deveria imitar. O problema é que esta admiração súbita por Madrid diz menos sobre Espanha do que sobre a indigência estratégica de quem a invoca.
Pedro Sánchez transformou a posição espanhola numa linha de confronto aberta com os Estados Unidos e Israel, recusando a utilização das bases de Rota e Morón para operações ligadas ao conflito com o Irão, ao mesmo tempo que qualificou a intervenção militar norte-americana e israelita como injustificável e perigosa. A posição espanhola provocou tensão directa com Washington, incluindo declarações críticas vindas da Administração norte-americana e ameaças de retaliação económica.1
Nada disto é irrelevante. E nada disto deve ser tratado como se fosse uma bonita legenda para fotografia de congresso progressista. Espanha pode escolher essa via; tem a sua dimensão, a sua história, os seus cálculos internos, as suas necessidades partidárias e a sua tradição particular de oscilação entre atlanticismo pragmático e soberanismo mediterrânico. Portugal não é Espanha. Nem tem de ser. Nem ganha nada em fingir que é.

O que Helena Matos denuncia, e bem, é esta tentação provinciana de achar que a política externa portuguesa deve ser feita “a reboque” da política espanhola, sobretudo quando esta serve para alimentar o imaginário sentimental da esquerda ibérica. É curioso: durante décadas, a esquerda portuguesa gostou de exibir a sua singularidade histórica, a sua revolução, o seu antifascismo certificado, a sua Constituição saída do PREC, a sua vocação moral. Mas, quando chega a hora de pensar a relação atlântica, a NATO, os Açores, as Lajes, os Estados Unidos, Israel, o terrorismo islamista e a segurança europeia, descobrem subitamente que afinal devemos copiar Madrid.
Esta imitação selectiva é reveladora. Não se propõe imitar Espanha na firmeza com que defende os seus interesses económicos. Não se propõe imitar Espanha na ambição estratégica com que se projecta na América Latina, no Mediterrâneo ou no Norte de África. Não se propõe imitar Espanha na capacidade de usar a sua dimensão territorial, populacional e diplomática para aumentar influência. Propõe-se imitar Sánchez no gesto teatral que convém à esquerda portuguesa: o gesto anti-israelita, anti-americano, sentimental, moralista e, naturalmente, televisivo.
O caso das Lajes mostra bem o contraste. Portugal autorizou, segundo declarações públicas do Governo, utilizações da Base das Lajes por aeronaves norte-americanas, colocando condições relacionadas com a não utilização contra infra-estruturas civis e enquadrando a matéria na cooperação leal no âmbito da NATO.2 É legítimo discutir esse enquadramento. É legítimo exigir transparência. É legítimo perguntar ao Governo o que sabia, quando sabia e em que termos autorizou. Mas uma coisa é escrutínio democrático; outra, muito diferente, é transformar os Açores numa peça de teatro parlamentar onde se finge que Portugal pode rasgar, conforme a disposição do dia, compromissos geoestratégicos que vêm de longe.
A Base das Lajes não é um ornamento turístico. É um activo estratégico português, atlântico e ocidental. Pode e deve ser discutida, mas não pode ser tratada como se fosse uma sala emprestada para reuniões de condomínio. Quando dirigentes socialistas sugerem que a questão deve ser lida apenas pela lente da denúncia moral, ou quando insinuam que Portugal deveria comportar-se como se os seus compromissos atlânticos fossem uma inconveniência herdada, entram num terreno perigoso: o da política externa como prolongamento da agitação estudantil.
E aqui chegamos ao ponto central: o activismo de bordo não é apenas o activismo dos que embarcam numa flotilha. É também o activismo dos que, em terra firme, fazem política como se estivessem sempre a bordo de qualquer causa, de qualquer pose, de qualquer cartaz. O barco é quase secundário. O essencial é a liturgia: a indignação, a palavra “genocídio”, a acusação contra Israel, o embaraço perante os Estados Unidos, o silêncio selectivo sobre o Hamas, a incapacidade de distinguir vítimas civis de organizações terroristas, e a cómoda ilusão de que o mundo se resolve por comunicados.

Ora, Helena Matos tem razão quando recorda que nenhum Estado democrático vence o terrorismo se os países vizinhos funcionarem como santuários, corredores, refúgios ou bases políticas dos terroristas. Esta é uma evidência estratégica, mas tornou-se quase proibida no debate público europeu. Israel pode ser criticado, e deve sê-lo quando há razões jurídicas, militares ou humanitárias para tal. Mas a crítica legítima a Israel não autoriza a infantilização do problema. O Hamas não é uma ONG armada por acidente. O Hezbollah não é uma associação cultural de bairro. O Irão não é apenas uma opinião alternativa na paisagem internacional. E o terrorismo não desaparece porque os comentadores ocidentais o baptizam com palavras mais simpáticas.
A esquerda europeia, e em particular a socialista, vive aqui uma contradição que se torna cada vez mais difícil de disfarçar. Quer apresentar-se como guardiã dos direitos humanos, mas hesita sempre que esses direitos são esmagados por forças anti-ocidentais. Quer invocar o direito internacional, mas frequentemente apenas contra democracias ocidentais. Quer falar de paz, mas raramente explica o que fazer quando a paz é usada pelos terroristas como intervalo táctico entre dois ataques. Quer condenar a violência, mas muitas vezes parece mais perturbada com a resposta militar de Israel do que com a arquitectura terrorista que a precedeu.

É neste ambiente que as declarações de responsáveis socialistas portugueses se tornam preocupantes. Eurico Brilhante Dias, ao colocar a questão das Lajes em termos politicamente inflamados, e José Luís Carneiro, ao apresentar Pedro Sánchez como exemplo de política com “coração e visão de futuro”, dão sinais que não devem ser desvalorizados. A admiração socialista por Sánchez não é nova; mas quando essa admiração passa do domínio partidário para a orientação externa, começa a ter consequências.
José Luís Carneiro participou, em Abril de 2026, num encontro progressista em Barcelona destinado a coordenar respostas políticas globais contra a chamada extrema-direita; a proximidade discursiva com o socialismo espanhol integra, portanto, uma moldura política mais vasta.3 Nada há de ilegítimo em partidos portugueses dialogarem com partidos estrangeiros. O problema surge quando um partido com vocação governativa começa a importar, não apenas alianças ou afinidades, mas tiques estratégicos alheios. E mais grave ainda quando esses tiques parecem servir sobretudo para compensar fragilidades internas.
Sánchez pode ser útil ao PS como fotografia, como mito progressista, como antítese de Ventura, como amuleto contra a direita, como prova de que ainda existe uma esquerda europeia capaz de ganhar eleições. Mas Sánchez não deve ser transformado em bússola da política externa portuguesa.

Portugal tem interesses próprios. Tem uma relação atlântica própria. Tem uma posição geográfica que não é a espanhola. Tem uma relação histórica com os Estados Unidos através dos Açores. Tem compromissos no quadro da NATO. Tem uma diplomacia que, nos seus melhores momentos, sempre soube ser discreta, prudente e eficaz. A ideia de que tudo isso deve ser sacrificado para parecer “corajoso” num debate televisivo é uma forma de irresponsabilidade com verniz moral.
O mais irónico é que os mesmos que acusam a direita de populismo são frequentemente os primeiros a praticar populismo diplomático. Populismo não é apenas prometer dinheiro que não existe ou soluções simples para problemas complexos. Populismo também é fingir que a política externa se resume a escolher o lado mais aplaudido nas redes sociais. Populismo é transformar a guerra em slogan, a segurança em emoção, a aliança atlântica em embaraço e a diplomacia em virtude exibicionista.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre política externa e activismo. A política externa calcula consequências; o activismo procura aplausos. A política externa protege interesses permanentes; o activismo vive de causas sucessivas. A política externa exige memória; o activismo basta-se com indignação. A política externa sabe que os Estados não vivem de gestos puros; o activismo acredita que basta estar do lado certo da fotografia.

Helena Matos entendeu bem o essencial: a flotilha é menos importante como evento náutico do que como um sinal político. Ela mostra uma parte da elite portuguesa que quer que o Estado atue como uma extensão de uma causa militante. Mostra uma esquerda que já não consegue distinguir entre solidariedade humanitária e cumplicidade retórica com movimentos hostis ao Ocidente. Mostra um socialismo que, após perder espaço interno, busca no moralismo internacional um jeito de recuperar autoridade. E revela, sobretudo, uma antiga patologia portuguesa: a dificuldade de pensar Portugal a partir de si mesmo.
A Espanha de Sánchez pode tomar suas decisões. Pagará ou cobrará por elas dependendo do desenrolar dos acontecimentos, da relação com Washington, da evolução da NATO e dos equilíbrios internos da política espanhola. Portugal não precisa aplaudir ou hostilizar automaticamente. Precisa apenas refletir. O que, convenhamos, já seria uma novidade bem-vinda em certos setores da nossa política desorganizada.
Porque o problema não é a presença de sentimentos na política. O problema surge quando os sentimentos substituem o julgamento.
Não é a compaixão pelas vítimas civis que está em causa; essa é elementar. O problema é usar essa compaixão como biombo para uma política externa sem cabeça, sem memória e sem espinha estratégica. E quando um partido que já governou Portugal, e pode voltar a governar, começa a confundir o “coração” de Sánchez com a razão de Estado portuguesa, então o caso deixa de ser apenas embaraçoso.
Passa a ser perigoso.

No fundo, o activismo de bordo tem uma vantagem: ao menos sabe-se que vai num barco. O activismo de gabinete é pior. Está em terra, ocupa partidos, influencia governos, fala em nome da moral universal e, quando o temporal chega, costuma descobrir que o leme afinal estava nas mãos de quem nunca percebeu a diferença entre navegar e fazer figura de proa.

Notas
1 Sobre a tensão entre Espanha e os Estados Unidos a propósito da utilização das bases de Rota e Morón no contexto das operações norte-americanas e israelitas no Médio Oriente, ver Associated Press, “Iran, Trump, Spain, war, Sánchez, bases”, 2026.
2 Sobre a posição portuguesa relativamente à utilização da Base das Lajes por aeronaves norte-americanas e às condições indicadas pelo Governo português, ver Reuters, “Portugal says US uses Azores base condition no civilian infrastructure targeted”, 7 de Abril de 2026.
3 Sobre a participação de José Luís Carneiro no encontro progressista em Barcelona e a articulação internacional socialista contra a chamada extrema-direita, ver Partido Socialista, “José Luís Carneiro leva voz socialista a Barcelona para reforçar resposta global à extrema-direita e agenda política ao serviço dos cidadãos”, Abril de 2026.

sábado, 2 de maio de 2026

Ventura: Esse culpado universal

Há uma curiosa lei da gravidade no nosso comentário político: quando alguma coisa corre mal à direita, a culpa desce sempre para o mesmo sítio:  André Ventura.
.
A propósito da Lei Laboral de iniciativa do Governo, começa a desenhar-se a habitual operação de limpeza: se a reforma emperrar, se for vetada, se não passar no Parlamento, se a concertação social falhar, se o Governo hesitar ou se a direita instalada não souber negociar, o culpado já está escolhido.
Não será o Governo, que apresentou a proposta. Não serão os sindicatos, que a contestam ou condicionam. Não será o Presidente da República, a quem se pede, ou se admite, o exercício do veto. 
Não será a chamada direita responsável, que preferiu construir equilíbrios presidenciais contra Ventura e agora se espanta com as consequências políticas desses equilíbrios.
Será, evidentemente, André Ventura.
A lógica é deliciosa.
.
Primeiro, disseram-nos que era preciso travar Ventura. Depois, apoiaram Seguro para travar Ventura. E, se Ventura não tivesse concorrido, Seguro dificilmente teria sido eleito nos termos em que foi. A sua vitória presidencial nasceu, em boa medida, dessa frente de contenção, desse reflexo de medo, dessa coligação informal entre sectores da esquerda, do centro e da direita instalada, todos unidos por uma prioridade: impedir que o CHEGA convertesse a sua força eleitoral numa força institucional ainda maior.1
.
Segundo, a própria direita dita responsável, com medo das propostas de Ventura, preferiu apoiar Seguro, tolerar Seguro ou aceitar tacitamente Seguro. Fê-lo em nome da moderação, da estabilidade, da respeitabilidade e desse velho instinto de sobrevivência do sistema que, em Portugal, costuma chamar-se “sentido de Estado” quando convém e “cordão sanitário” quando se diz em voz baixa.
Ora, se essa direita ajudou a pôr Seguro em Belém, não pode agora fingir surpresa se o Presidente exercer poderes presidenciais sobre uma lei laboral politicamente explosiva. Belém não é uma sala de visitas. É um órgão constitucional. E quem lá colocou um Presidente para travar uns, não deve admirar-se se ele também trava outros.
.
Terceiro, quando o CHEGA diz que não está no Parlamento para carimbar diplomas da AD, e que o Governo não pode despejar sobre ele o ónus de uma negociação mal conduzida, o comentariado descobre logo o “bloqueio”. Ventura não tem, pelos vistos, direito a negociar, condicionar, exigir ou discordar. Tem apenas o dever de aprovar o que os outros escrevem — e, se não aprovar, passa imediatamente de líder da oposição a sabotador da pátria.2
.
Recapitulemos.
A direita ajuda a eleger Seguro para travar Ventura. Seguro pode travar a Lei Laboral. O Governo não consegue garantir a aprovação da sua própria reforma. Os sindicatos pressionam. Belém pondera. O Parlamento hesita. Os comentadores dramatizam.
Mas a culpa, claro, tem de ser de Ventura.
É uma geometria política notável: todos escolhem o caminho, todos empurram o país para esse resultado, todos lavam as mãos quando o resultado chega — e depois apontam para o único que não comandou o Governo, não presidiu à concertação social, não se sentou em Belém e não escreveu a proposta inicial.
No fundo, André Ventura tornou-se a versão política do mordomo nos maus romances policiais: não interessa quem escreveu a intriga, quem abriu a porta, quem apagou a luz ou quem segurou a faca. No fim, o culpado já vinha marcado na capa.
É cómodo. É simples. E, sobretudo, dispensa pensar.
Porque pensar obrigaria a reconhecer que a direita instalada quis domesticar o sistema político usando Seguro contra Ventura. Obrigaria a admitir que o Governo apresentou uma reforma laboral sem garantir, previamente, a sua sustentação parlamentar e social. Obrigaria a aceitar que o Presidente da República, uma vez eleito, não é um bibelot decorativo ao serviço de quem o ajudou a subir a escadaria de Belém.
Mas isso seria demasiado incómodo.

Muito mais fácil é repetir a fórmula sacramental: a culpa é de Ventura.
Se Ventura concorre, polariza. Se não concorresse, talvez Seguro não tivesse sido eleito assim. Se a direita apoia Seguro por medo de Ventura, a culpa continua a ser de Ventura. Se Seguro veta, a culpa é de Ventura. Se o Governo não consegue aprovar a Lei Laboral, a culpa é de Ventura. Se o Parlamento faz Parlamento, a culpa é de Ventura.
Estamos, pois, perante uma nova doutrina política portuguesa: a doutrina da culpa portátil. Anda sempre no bolso dos mesmos. Serve para tudo. Abre em qualquer ocasião. E tem a vantagem de nunca responsabilizar quem decide.

Assim se faz política em Portugal: quando a direita instalada tem medo, chama-lhe responsabilidade; quando Belém hesita, chamar-lhe-ão prudência; quando o Governo falha, chamar-lhe-ão complexidade negocial.
Quando Ventura não assina por baixo, chamar-lhe-ão sabotagem.
A culpa, como se sabe, é sempre do mesmo. Mesmo quando foram os outros que o puseram no centro da sala.
.
Notas
1. A eleição presidencial de António José Seguro, no quadro político descrito, deve ser lida como resultado de uma convergência táctica de sectores que, embora divergentes entre si, encontraram no anti-venturismo uma plataforma comum. A questão não é apenas eleitoral; é estrutural: sempre que o sistema se reorganiza contra uma força emergente, acaba por lhe atribuir centralidade política.
2. A iniciativa da Lei Laboral pertence ao Governo. A sua negociação parlamentar, a sua aceitação social e a sua eventual promulgação ou veto pertencem a vários actores institucionais. Atribuir ao CHEGA, ou a André Ventura, a responsabilidade total por um eventual bloqueio é transformar a oposição parlamentar em bode expiatório de uma dificuldade que começa no próprio desenho político da proposta.

Nota final. O ponto essencial não está em absolver André Ventura de responsabilidade política, mas em recusar a caricatura conveniente segundo a qual todos os erros da governação, todas as hesitações de Belém e todas as cobardias da direita instalada se explicam por uma só palavra: Ventura.