domingo, 26 de julho de 2026

uma tensão ideológica que o jornalistado e o comentariado raramente explicitam com rigor...

A presença do CHEGA no sistema partidário português tem vindo a revelar uma tensão ideológica que o jornalismo e o comentariado raramente explicitam com rigor: a coexistência, no mesmo partido, de um discurso de direita nacional‑securitária com um conjunto de posições que, em termos clássicos, pertencem ao repertório da esquerda social e laboral. Esta ambiguidade não é um acidente; é um dispositivo político.

Quando o CHEGA vota contra reformas laborais que prolongam a vida activa, defendendo a reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, aproxima‑se objectivamente de bandeiras históricas do PCP e do BE. A retórica de defesa do trabalhador, contra um Estado e uma elite que “roubam” anos de vida e de descanso, inscreve‑se na gramática da luta de classes, mesmo quando o partido recusa essa etiqueta. O mesmo sucede com a crítica às subvenções vitalícias e aos privilégios da classe política: trata‑se de um ataque à “casta” que, embora envolto em linguagem moralista e nacionalista, coincide com a denúncia da desigualdade e da injustiça que a esquerda tradicional sempre reivindicou.

A questão da energia torna esta convergência ainda mais nítida. A defesa da redução drástica, ou mesmo da isenção, do IVA na electricidade parte da ideia de que a energia é um bem essencial e que o seu custo é um factor de opressão económica sobre as famílias. Esta leitura é indistinguível, no plano material, das propostas de PCP e BE, que há décadas denunciam a pobreza energética e reclamam intervenção pública nos sectores estratégicos. O CHEGA apropria‑se deste terreno, mas reconfigura‑o: em vez de o inscrever numa crítica sistémica ao capitalismo, insere‑o numa narrativa de traição nacional e de corrupção das elites.
O proteccionismo económico e a crítica à globalização reforçam esta ambivalência. Ao denunciar a globalização, as “elites tecnocráticas” e a desindustrialização, o CHEGA fala para um eleitorado que, durante décadas, foi socializado politicamente pela esquerda comunista e socialista. O operariado das periferias urbanas, os sectores precarizados e os territórios que se sentiram abandonados pela modernização liberal encontram, neste discurso, uma continuidade afectiva: a ideia de que alguém, finalmente, os defende contra um sistema que os sacrifica. A diferença está no enquadramento: onde PCP e BE veem capitalismo e luta de classes, o CHEGA vê decadência nacional, insegurança e perda de identidade.

É precisamente aqui que se torna visível o ponto cego do comentariado. Ao insistir em classificar o CHEGA como “extrema‑direita” em bloco, muitos analistas ignoram que uma parte significativa da sua base programática é construída sobre temas e reflexos da esquerda social. O partido funciona como um vector de deslocação simbólica: retira à esquerda o monopólio da linguagem da injustiça e da desigualdade, e reinscreve essa linguagem num horizonte nacional‑punitivo. O resultado é um híbrido ideológico que confunde as categorias tradicionais de análise.

Esta hibridez tem consequências estratégicas. Ao ocupar simultaneamente o espaço da direita securitária e o da esquerda social, o CHEGA apresenta‑se como partido de protesto total: contra o crime, contra a corrupção, contra a globalização, contra a precariedade, contra a “casta”. PCP e BE, por seu lado, mantêm uma coerência ideológica clássica, mas vêem o seu terreno social ser erodido por um concorrente que fala a língua da revolta com uma gramática emocional mais agressiva e mediaticamente eficaz.

Para compreender o fenómeno, é necessário abandonar a comodidade das etiquetas rígidas. O CHEGA não é apenas um partido de direita radical; é um partido que recicla motivos da esquerda social e os reorienta para um projecto de ordem, punição e identidade nacional. A sua força reside precisamente nessa capacidade de combinar, num mesmo discurso, a promessa de protecção social e a promessa de endurecimento punitivo. É neste cruzamento que se joga uma parte decisiva da recomposição do campo político português.

Um olhar intelectual sério sobre o CHEGA exige, portanto, reconhecer que muitas das suas posições “impróprias para um partido de direita” não são lapsos, mas instrumentos deliberados de captura de eleitorado e de deslocação simbólica. A esquerda que ignora este processo, reduzindo o partido a uma caricatura de extrema‑direita, arrisca‑se a perder não apenas votos, mas o próprio monopólio histórico sobre a linguagem da justiça social.