domingo, 29 de março de 2026

A violência útil e a amnésia selectiva

Quando um cocktail Molotov é lançado contra famílias e o jornalismo decide chamar-lhe “incidente”, o problema já não é o agressor. É o regime narrativo que o protege.

1. O incidente que não devia ter nome
Há palavras que matam. Não pela sua dureza, mas pela sua ausência.
No passado dia 21 de Março, em Lisboa, um indivíduo lançou um cocktail Molotov contra participantes numa manifestação pacífica — famílias, crianças, idosos. Um acto de violência política com potencial letal. Um acto que, em qualquer manual sério de ciência política ou criminologia, se inscreve sem esforço na tipologia clássica do terrorismo.1
Mas não foi isso que lemos.
Para uma parte significativa da imprensa, tratou-se de um “incidente”. Nalguns casos, de um “objecto incendiário”. Noutros, de uma perturbação atmosférica mal explicada — quase uma súbita alteração do estado do tempo urbano.
A linguagem não foi neutra. Foi cirúrgica. E, como quase sempre sucede nestes casos, o eufemismo funcionou como absolvição antecipada.

2. O jornalismo como aparelho ideológico
A questão central não está no erro. Está no padrão.
Quando dois ou três adolescentes trocam mensagens privadas de teor extremista, temos manchetes sobre “ameaças à democracia” e “ascensão do fascismo”. Quando um militante da extrema-esquerda lança fogo real contra pessoas reais, temos… silêncio, prudência lexical, ou um súbito ataque de moderação semântica.2
Este duplo critério não nasce do acaso. Resulta de uma transformação estrutural do campo mediático ocidental.
Nas últimas décadas, a maioria das redacções foi progressivamente capturada por uma visão ideológica homogénea, predominantemente alinhada com a esquerda e a extrema-esquerda cultural.3 Não é uma conspiração; é um ecossistema. Recrutamento endogâmico, bolhas universitárias, validação entre pares, conformismo moral.
O resultado é simples:
  • A direita é suspeita por definição
  • A esquerda é absolvida por presunção
E quando a realidade desmente o guião, ajusta-se a linguagem até que a realidade deixe de incomodar.
3. A violência útil
A violência não é tratada de forma igual. Há uma violência ilegítima — a da direita — e uma violência contextualizada — a da esquerda.
Esta última beneficia de um estatuto peculiar: é reinterpretada como reacção, como excesso compreensível, como desvio episódico. Em suma, como “incidente”.
É o que poderíamos chamar violência útil.
Útil porque:
  • não perturba a narrativa dominante
  • reforça a demonização do adversário
  • preserva o mito de uma superioridade moral estrutural
Este mecanismo não é novo. A violência revolucionária foi, durante décadas, romantizada ou relativizada sempre que se inscrevia numa causa “progressista”.4 O que mudou foi apenas o meio: da propaganda partidária para o enquadramento mediático.
4. O branqueamento e a demonização
Nos últimos anos, perante o fracasso económico, social e cultural de várias políticas públicas, as esquerdas governativas recorreram a uma estratégia de sobrevivência: substituir o debate pela rotulagem moral.5
Conservadores, liberais, soberanistas — todos foram progressivamente amalgamados na categoria ampla e conveniente de “extrema-direita”, numa reciclagem preguiçosa de categorias herdadas do século XX.
Simultaneamente, procedeu-se ao movimento inverso: uma reabilitação tácita da extrema-esquerda.
O resultado foi duplo:
  • Demonização da direita — convertida em ameaça estrutural
  • Branqueamento da extrema-esquerda — tratada como desvio menor
Neste enquadramento, a violência deixa de ser julgada pelo acto. Passa a ser julgada pelo autor.
5. A normalização institucional
Mais inquietante ainda é que este padrão não se limita à imprensa.
A reacção institucional — ou a sua calculada ausência — sugere que o mesmo enviesamento atravessa sectores da magistratura e da judicatura.6
Desvalorização, ambiguidade conceptual, lentidão processual — tudo contribui para uma percepção de tolerância selectiva.
Ora, o Estado de Direito não sobrevive a assimetrias desta natureza.
Quando a lei oscila em função da identidade ideológica do agressor, deixa de ser lei. Passa a ser gestão política da indulgência.
6. O alvo: famílias
Há um elemento adicional que importa sublinhar: o alvo.
Não era um confronto entre militantes. Não era um choque entre facções. Era uma manifestação de famílias.
Famílias.
E isso explica, mais do que qualquer outra coisa, o desconforto mediático.
Porque o problema não é apenas o agressor. É o agredido “errado”.
Uma marcha de famílias, com crianças e valores tradicionais, é para certos sectores mais provocatória do que qualquer acto violento contra ela.
7. A fabricação da amnésia
O que se constrói, assim, é uma forma sofisticada de amnésia selectiva.
Não se nega o facto. Esvazia-se o seu significado.
Não se mente. Reenquadra-se.
Não se absolve. Dilui-se.
É aqui que o chamado “deepfake narrativo” se revela: a realidade permanece intacta, mas a percepção é manipulada até se tornar irreconhecível.7
8. Consequências
As consequências são cumulativas e perigosas:
  • erosão da confiança nas instituições
  • descrédito do jornalismo
  • radicalização assimétrica
  • normalização da violência política
Mas há uma consequência mais grave: a definição implícita de alvos legítimos.
Quando determinados sectores são sistematicamente demonizados, a violência contra eles deixa de ser impensável — e começa a ser tolerável.
9. Conclusão
O que aconteceu a 21 de Março não foi um “incidente”.
Foi um teste.
Um teste ao jornalismo — que preferiu o eufemismo à verdade.
Um teste às instituições — que continuam a distinguir entre violências úteis e violências proibidas.
Um teste ao regime — que revela crescente dificuldade em reconhecer o fogo quando ele vem do lado “certo”.
E falhámos.
Não por falta de factos. Mas por excesso de narrativa.
E assim continuamos: num país onde um cocktail Molotov lançado contra famílias pode deixar de ser terrorismo político — e passar, com elegante cobardia semântica, a simples meteorologia.

Notas
1 Bruce Hoffman, Inside Terrorism, Columbia University Press, 2006. Cf. também enquadramentos clássicos de violência política em ciência política contemporânea.
2 Ver, a propósito, o contraste mediático analisado em artigos de opinião recentes no Observador, designadamente “O lado da violência” e “O fenómeno meteorológico de 21 de Março”.
3 Sobre a homogeneização ideológica das redacções, ver estudos sobre jornalismo europeu contemporâneo e cultura profissional mediática.
4 Hannah Arendt, On Violence, 1970; cf. também a tradição de legitimação da violência revolucionária em contextos europeus do século XX.
5 Para análise do uso político da rotulagem (“extrema-direita”, “populismo”), ver debate contemporâneo na imprensa europeia, incluindo Le Figaro e Le Parisien sobre recomposição ideológica pós-crise.
6 Sobre percepção pública da justiça e legitimidade institucional, ver literatura em teoria do Estado de Direito e sociologia da justiça.
7 Conceito de “deepfake narrativo” enquanto manipulação de enquadramento perceptivo em ambientes mediáticos contemporâneos.

terça-feira, 10 de março de 2026

Seguro (para memória futura)

[...] em termos de poder de compra, os trabalhadores da empresa receberam em 2024 cerca de 17% menos por hora do que recebiam há cinco anos, apesar de a empresa ter aumentado a facturação e registado lucros significativos ao longo desse período. Em linguagem simples: os salários por hora não só não acompanharam a inflação como ficaram claramente para trás, o que significa uma perda real de rendimento para os trabalhadores.

E é aqui que a contabilidade deixa de ser mera enumeração e passa a ter significado político e social. A empresa M. Freitas não apresenta um quadro de miséria laboral, mas também não revela qualquer modelo de redistribuição particularmente generoso. Pelo contrário: mostra um padrão de contenção salarial bastante nítido.

Ao longo dos cinco anos analisados pelo PÁGINA UM, a remuneração da gerente oscilou sempre perto dos 95 mil a 100 mil euros anuais, num patamar estável. Já os salários médios dos trabalhadores não só permaneceram modestos como, em 2024, sofreram um recuo assinalável apesar do aumento da facturação, da expansão do quadro de pessoal e de um lucro superior a meio milhão de euros. Em termos simples: a empresa cresceu, lucrou bem, manteve a gerência muito confortavelmente instalada e não deixou nos salários médios um sinal proporcional dessa prosperidade.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Para ti, Mulher!

 

Passos Coelho, a maioria sem cimento e a Presidência sem “grilo falante”

Uma Leitura “académica” de uma entrevista ao ECO: responsabilidade parlamentar, reforma do Estado, Segurança Social e a nova geometria do poder em Belém.

A entrevista de Pedro Passos Coelho ao ECO não é um anúncio, é um diagnóstico. Não é um “regresso”, é uma anatomia do regime: a aritmética parlamentar, a incapacidade de construir estabilidade, a reforma do Estado transformada em slogan, a Segurança Social presa entre a demografia e o Direito, e uma Presidência que, se quiser ser eficaz, terá de reaprender a virtude rara da parcimónia simbólica.
Começa, aliás, por uma defesa de método. Passos Coelho recusa a entrevista como “declaração do que não vai fazer”, chamando-lhe “egocentrismo e parvoíce”. Esta entrada não é folclore: fixa um princípio. Quem se apresenta a negar rumores vive dos rumores; quem fala do país tenta, pelo menos, deslocar o foco. E é exactamente isso que a entrevista faz: desloca o “teatro” para a “estrutura”.

I. A maioria à direita: aritmética sem arquitectura
A tese nuclear é simples e, por isso mesmo, explosiva: “o país virou à direita” e existe “uma grande maioria no Parlamento à direita”, mas falta saber se essa maioria tem “o mínimo de cimento”. A palavra “cimento” é, aqui, o conceito decisivo. Não se trata de simpatia; trata-se de governabilidade. Sem cimento, a maioria é um número; com cimento, a maioria é um instrumento.
Daí a afirmação — politicamente tóxica, institucionalmente elementar — de que o Governo deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal. Não porque fosse fácil, nem porque fosse bonito, mas porque só a tentativa permite distinguir impossibilidade de recusa voluntária. O regime tem um vício de origem: prefere a pose moral ao teste do real. O resultado é a crónica instabilidade disfarçada de prudência.
Neste ponto, Passos Coelho introduz a segunda dimensão do mesmo argumento: a responsabilização. Quando discute a hipótese de privatização parcial, pergunta por que razão se deve “isentar” PS e Chega de assumirem o peso da decisão no Parlamento. Se chumbassem, ficariam responsabilizados; se não chumbassem, o Governo ganharia margem para negociar uma solução possível. O ponto não é a privatização em si (que pode ser debatida por méritos e riscos); o ponto é o jogo de sombras: todos condicionam, poucos assumem, ninguém paga.
II. Reforma do Estado: ambição declarada, sinais tímidos
Quando entra na reforma do Estado, Passos Coelho distingue intenção de execução e, mais importante, comunicação de poder. “Faz todo o sentido ter um ministro para a reforma do Estado”, mas “a maneira errada de comunicar essa intenção é criar um ministério”. A crítica é institucional: um ministério pode parecer “poder”, mas pode ser apenas vitrina; a autoridade real exige instrumentos transversais, capacidade de coordenação, acesso ao centro decisório.
E o julgamento final é cruel pela sobriedade: estamos a completar quase um ano e os sinais públicos são “tímidos”. Timidez, em política, é a forma educada de chamar falha ao que se prometeu como ambição. Reformar o Estado não é dizer “reforma do Estado”. É mexer em incentivos, estruturas, carreiras, procedimentos, compras, contratação, avaliação e responsabilidade. É, sobretudo, enfrentar resistências instaladas — e isso não se faz com conferências, faz-se com actos.
III. Segurança Social: demografia, expectativas e o nó constitucional
A parte mais “pró-académica” da entrevista é a da Segurança Social, porque nela se condensa a tragédia portuguesa do curto prazo. 
O diagnóstico é directo: “temos um modelo que não tem demografia que o sustente”. E o argumento progride em três passos: 
(1) quanto mais se adia, mais difícil é dizer a quem está a 10–15 anos da aposentação que o sistema mudará; 
(2) podem existir interpretações constitucionais que protejam expectativas de quem está perto de se aposentar; 
3) o problema concentra-se exactamente nesse grupo próximo do limite.
A conclusão é inevitável e politicamente impopular: 
“já perdemos 10 anos”; 
não se muda de sistema sem reduzir benefícios e aumentar responsabilidades do presente — “um mix das duas coisas”. 
Isto desmonta a fantasia dominante: a de que a reforma pode ser “técnica” e invisível. Não pode. A reforma será sempre uma decisão distributiva. A única escolha real é entre fazê-la cedo (com margem) ou tarde (com violência).
IV. Belém e o capital simbólico: contra o Presidente “grilo falante”
O parágrafo sobre o novo Presidente da República é uma pequena aula de teoria do poder simbólico. Para Passos Coelho, o Presidente “não pode gastá-la de qualquer maneira”, não pode ser “um grilo falante”, não pode falar de “tudo e de nada”; quando fala “tem de fazer alguma diferença”. Isto é, a eficácia presidencial mede-se pela raridade com propósito, não pela omnipresença com ruído.
E surge a dúvida sobre o perfil de António José Seguro: terá ele essa capacidade de preservar capital simbólico e usá-lo com efeito? “O tempo dirá.” A prudência formal não apaga o recado: num regime em que o comentariado exige reacção imediata a qualquer notícia, a Presidência ou se torna moderadora (pela contenção), ou se torna parte do ruído (pela tentação do comentário). No primeiro caso, pode estabilizar; no segundo, fragiliza.
V. Partidos, poder e a nova geometria com o Presidente
Lida em conjunto, a entrevista propõe uma tese sobre as relações de poder no sistema partidário português: a instabilidade não nasce apenas da fragmentação; nasce da recusa de assumir custos. Os partidos preferem conservar liberdade táctica a construir compromisso estratégico. E, nesse cenário, a Presidência pode tornar-se o centro informal de arbitragem — não por mandato, mas por vazio.
Se há, como diz Passos, uma maioria à direita, a questão passa a ser: quem a organiza? Quem a torna governável? Se ninguém o fizer, o Presidente será empurrado (por pressão mediática e por fragilidade parlamentar) para um papel de “gestor de crises” permanente. Mas esse papel consome rapidamente o capital simbólico que deveria ser guardado para momentos decisivos.
Concluindo-me
A entrevista não é um programa; é um mapa conceptual. Diz-nos que:
- existe uma maioria potencial à direita, mas falta cimento e falta arquitectura;
- a reforma do Estado, sem poder real e sem execução, fica no registo do anúncio;
- a Segurança Social não se resolve com coragem retórica, mas com decisões distributivas inevitáveis;
- a Presidência, para ser eficaz, tem de falar menos e pesar mais e
- a política portuguesa continua a preferir a diluição de responsabilidades à clareza do custo.
No fundo, a pergunta que sobra é esta: se o país virou à direita, como afirma Passos Coelho, existe coragem para usar a maioria — ou vamos continuar a fingir estabilidade enquanto compramos tempo com o dinheiro do futuro?

Agulhadas finais
O regime adora “linhas vermelhas” porque elas substituem o trabalho de governar pelo conforto de condenar.
O Presidente que fala de tudo acaba por não fazer diferença em nada — e depois chama “crise” ao resultado do seu próprio ruído.
E a reforma que se anuncia todos os meses é apenas a prova de que ninguém quer ser o primeiro a pagar a conta.

Notas
Entrevista a Pedro Passos Coelho, “Governo deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a IL”, ECO (1 de Março de 2026).
Sobre a noção de “capital simbólico” e a sua conversão em autoridade política, ver a literatura clássica sobre poder simbólico e legitimação (aplicável, com adaptações, ao papel presidencial em regimes semi-presidenciais).
A tensão entre expectativas protegidas e reforma de sistemas contributivos em contexto de envelhecimento demográfico é um problema recorrente em Estados sociais europeus; em Portugal, o seu adiamento tem agravado a rigidez política e jurídica das soluções disponíveis. ```