quinta-feira, 2 de julho de 2026

Uma história MALcontada

Há uma regra não escrita na vida pública portuguesa: a violência política só começa a existir quando pode ser atribuída à direita. Antes disso é contexto, excesso, precipitação, juventude, radicalismo generoso, antifascismo exaltado, ou simples nota de rodapé. Depois, quando aparece um caso à direita, real ou alegado, grave ou grotesco, perigoso ou caricatural, o país mediático acorda em sobressalto moral e descobre, enfim, que há extremismo.

Foi o que aconteceu com o chamado Movimento Armilar Lusitano, muito sugestivamente abreviado para MAL. A abreviatura é demasiado boa para ser desperdiçada pelo jornalistado. O MAL dá manchete, dá indignação, dá debate televisivo, dá ar grave aos comentadores de serviço e permite repetir a velha ladainha: a ameaça vem da extrema-direita, a conspiração vem da extrema-direita, o ódio vem da extrema-direita, a violência vem da extrema-direita. O resto é paisagem. Ou, pior ainda, é memória incómoda.

Não se trata, evidentemente, de branquear o MAL. Se houve recolha de dados sobre alvos, se houve armamento, se houve planos, se houve preparação de atentados, se houve delírio neonazi, se houve vontade de subverter a ordem democrática, então investigue-se, acuse-se, julgue-se e condene-se. Sem hesitações. Uma democracia que se respeita não deve tratar a violência política como folclore, nem a conspiração armada como brincadeira de miúdos crescidos a brincar aos soldados.

Mas uma democracia que se respeita também não deve ter uma memória selectiva. E é aqui que começa a história MALcontada.

Porque em Portugal há uma violência que parece nascer com cadastro moral perpétuo e outra que nasce logo absolvida pela intenção. A primeira é a violência atribuída à direita. Nunca é caso isolado. Nunca é desvio. Nunca é patologia de meia dúzia. É sempre sintoma de uma família inteira, prova de uma conspiração vasta, confirmação de uma maldade hereditária. A segunda é a violência de esquerda. Essa quase nunca tem genealogia, quase nunca tem cúmplices intelectuais, quase nunca tem ambiente político. Surge, acontece, desaparece e, se possível, é arquivada com uma nota sentimental: eram tempos difíceis.

A Primeira República é um bom começo para esta pedagogia do esquecimento. A narrativa escolar e jornalística apresenta-a, quase sempre, como uma aurora progressista interrompida pela reacção. Mas a aurora, convém recordá-lo, nasceu com pólvora, perseguição e sectarismo. O regicídio de 1908 não foi um acidente meteorológico. Foi violência política. Teve executores, teve ambiente, teve cumplicidades e teve consequências. João Franco, que tentara organizar uma direita nacional moderna, foi neutralizado pelo tiro que matou o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. A Monarquia ficou mortalmente ferida. A República aproximou-se.

Depois veio a República propriamente dita, esse regime que muitos ainda tratam como se tivesse sido uma associação de professores primários, poetas cívicos e liberais de cartola. Na realidade, a Primeira República perseguiu católicos, monárquicos, conservadores e também sindicalistas quando estes se tornaram incómodos. Afonso Costa, grande santo laico do republicanismo radical, representou como poucos essa mistura portuguesa de iluminismo de café, anticlericalismo de seita e pulsão persecutória.

A Lei da Separação do Estado das Igrejas, de 1911, não foi apenas a afirmação institucional da laicidade. Foi também, na prática, um instrumento de agressão política contra a Igreja num país profundamente católico. Ordens religiosas expulsas, bens confiscados, culto fiscalizado, bispos pressionados, jornais católicos atacados, padres humilhados, religiosos proibidos de usar em público as vestes da sua condição. A República que se dizia libertadora começou por libertar os portugueses da sua própria tradição, à força de decreto, polícia e jacobinismo.

Quando Pio X denunciou, na encíclica Iamdudum, a ofensiva contra a Igreja em Portugal, não estava a comentar uma pequena fricção administrativa entre o Estado e o altar. Estava a responder a um regime que confundira separação com hostilidade, neutralidade com perseguição e liberdade com vingança ideológica.

Mas disto não se fala muito. Ou fala-se com o sorriso superior de quem acha que os católicos da época, os monárquicos perseguidos e os conservadores esmagados eram apenas restos de um país velho que a História tinha o dever de varrer. Na memória oficial, a violência republicana aparece muitas vezes como preço do progresso. Já a violência da direita, mesmo quando apenas imaginada ou planeada, aparece sempre como prova de barbárie.

Sidónio Pais, com todos os seus equívocos e ambiguidades, tentou pacificar parte do país real, reabrindo pontes com a Igreja e suspendendo a fúria persecutória. Foi assassinado. Também aqui a explicação costuma vir adoçada: um fanático, um perturbado, um acto isolado. Como se os perturbados políticos nascessem no vazio e não fossem frequentemente cultivados por ambientes de ódio, propaganda e demonização.

Em 1921, na Noite Sangrenta, a própria República devorou republicanos. Machado Santos, fundador do regime, foi assassinado. Outros homens ligados ao sidonismo foram abatidos. A rua armada, a guarda republicana indisciplinada, os marinheiros sem comando e a violência política entraram em cena. Mas a esquerda revolucionária tem sempre esta vantagem: quando mata os seus adversários, a culpa é da História; quando se mata a si própria, a culpa é da instabilidade.

O 28 de Maio de 1926 não caiu do céu. Nasceu também do cansaço de um país farto de governos de quatro meses, desordem crónica, violência facciosa e incapacidade de Estado. Isto não desculpa tudo o que veio depois. Mas ajuda a compreender por que razão tantos portugueses aceitaram, apoiaram ou toleraram a solução militar. A História não começa no ponto em que convém à propaganda.

Depois veio o Estado Novo, com a sua própria repressão, censura e polícia política. E também aí houve tentativas de assassinar Salazar, como houve resistência, conspiração, oposição legítima e oposição revolucionária. A violência política atravessou regimes, cores e mitologias. Só não atravessa, pelos vistos, a memória selectiva dos que hoje distribuem certificados de virtude democrática.

Abril de 1974 trouxe liberdade, mas também trouxe o PREC, prisões arbitrárias, saneamentos, cercos, ameaças, sequestros morais, fuzilamentos simulados e uma atmosfera em que chamar “fascista” a alguém podia ser o primeiro passo para lhe retirar emprego, honra, segurança e direitos. A extrema-esquerda revolucionária não era uma metáfora. Tinha sedes, jornais, milícias, armas, linguagem de guerra civil e uma concepção totalitária do futuro.

Mais tarde, já longe do calor inicial da revolução, vieram as FP-25. Não foram um clube de leitura marxista. Não foram uma tertúlia de antifascistas melancólicos. Foram uma organização armada de extrema-esquerda, responsável por atentados, assaltos, execuções e mortes. Morreram agentes de autoridade, adversários políticos, civis e até uma criança. Porém, a memória pública tratou tudo isso com uma indulgência que nunca seria concedida a qualquer violência vinda da direita. No fim, houve amnistias, relativizações, reabilitações sentimentais e até tratamento cultural com direito a fita e nostalgia.

Aí está o ponto essencial: em Portugal, a violência de extrema-esquerda é quase sempre explicada; a de extrema-direita é sempre explorada. A primeira é contextualizada até desaparecer. A segunda é amplificada até engolir tudo à sua volta. A primeira tem “razões históricas”. A segunda tem “raízes profundas”. A primeira erra por excesso de generosidade. A segunda revela a alma negra de toda a Direita.

O jornalistado e o comentariado vivem confortavelmente instalados nesta assimetria. Quando surge um grupo neonazi, e deve ser investigado sem complacência, todos descobrem a urgência da democracia. Quando a extrema-esquerda ameaça, intimida, agride, incendeia, boicota ou legitima a violência como método político, surgem logo os tradutores oficiais da indulgência: foi um protesto, foi tensão social, foi provocação, foi juventude, foi antifascismo, foi uma resposta à opressão, foi qualquer coisa menos aquilo que foi.

A extrema-esquerda portuguesa beneficia há décadas de uma espécie de licença poética revolucionária. Pode falar em “combate”, “resistência”, “antifascismo”, “rua”, “acção directa”, “ruptura”, “ocupação” e “luta”, que a intelligentsia mediática logo lhe arranja uma moldura romântica. Se a direita usar um décimo desse vocabulário, temos editoriais sobre o regresso dos anos trinta.

Não é a existência do MAL que deve ser minimizada. Pelo contrário. O que deve ser denunciado é o uso do MAL como absolvição retrospectiva de toda a violência que não convém recordar. Sim, há extrema-direita violenta. Sim, há delírios neonazis. Sim, há grupos perigosos. Sim, o Estado deve agir antes que o disparate armado se transforme em tragédia. Mas também há extrema-esquerda violenta, houve terrorismo de extrema-esquerda, houve crimes cometidos em nome da revolução, houve perseguição anticatólica, houve assassinatos políticos republicanos, houve intimidação revolucionária, houve e há uma cultura de desculpabilização da violência quando ela vem embrulhada na bandeira do antifascismo.

A democracia não se defende com amnésia selectiva. Defende-se com memória inteira. E a memória inteira obriga a dizer que Portugal não tem apenas uma tradição de violência política à direita. Tem também, e de forma longa, persistente e sangrenta, uma tradição de violência política à esquerda. Da Carbonária ao jacobinismo republicano, da Noite Sangrenta às tentações revolucionárias do PREC, das FP-25 aos actuais pequenos profissionais da intimidação antifascista, há uma linha que o comentariado prefere não ver. Não por falta de olhos. Por falta de vontade.

O MAL, se for provado em tribunal tudo o que lhe é imputado, merece condenação sem adjectivos atenuantes. Mas o mal português é outro e mais antigo: é a mentira confortável segundo a qual a violência só se torna ameaça à democracia quando vem da direita. Tudo o resto, por cá, acaba sempre convertido em nota histórica, explicação sociológica ou rebeldia juvenil.

E assim se escreve a história oficial: a direita tem crimes; a esquerda tem contextos. A direita tem ódio; a esquerda tem causas. A direita conspira; a esquerda resiste. A direita mata; a esquerda, quando mata, estava enganada, cansada ou historicamente impaciente.

É uma história MALcontada. E, como quase tudo o que é MALcontado em Portugal, serve menos para compreender o passado do que para manipular o presente.

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