quarta-feira, 28 de outubro de 2026
isto é imprensa de referência!
domingo, 25 de outubro de 2026
QUANDO A EXTREMA-ESQUERDA PERDE AS URNAS, OCUPA AS PRAÇAS
Da insurreição francesa às tendas portuguesas: a luta pelo monopólio da questão social e o desarmamento intelectual da democracia.
França dita a moda. Portugal importa os figurinos.
Na França, onde tantas das modas ideológicas europeias
começam, a esquerda radical parece ter redescoberto uma evidência que durante
décadas procurou disfarçar sob a sucessão interminável de emergências
climáticas, palestinianas, identitárias e de género: a questão social
continua a ser o grande campo de batalha da política contemporânea. O
problema, para essas esquerdas, é que as Novas Direitas começaram a ocupar
precisamente o território que a esquerda considerava propriedade sua — o dos
trabalhadores, dos salários insuficientes, da precariedade, da habitação
inacessível, das classes médias em empobrecimento e da insegurança perante o
futuro.
Perante essa concorrência, e incapaz de recuperar facilmente
nas urnas o eleitorado que perdeu, parte da extrema-esquerda francesa parece
regressar ao seu velho repertório revolucionário: a mobilização permanente,
o confronto com o Estado e a transformação de reivindicações sociais em
instrumentos de contestação política generalizada. Os recentes
acontecimentos franceses, com protestos sociais acompanhados de confrontos
violentos e acusações governamentais de instrumentalização pela ultra-esquerda,
mostram como a questão social pode voltar a ser disputada fora das instituições
representativas.
Portugal, naturalmente, não poderia ficar sem a sua
versão doméstica. Faltam-nos a dimensão, a tradição insurreccional e as
particulares tensões dos subúrbios franceses, mas não faltam organizações
políticas suficientemente disponíveis para experimentar a receita. E, desta
vez, o pretexto escolhido foi a habitação.
A CRISE QUE SÓ DESCOBRIRAM DEPOIS DE PERDEREM O PODER
A geringonça chegou ao poder em 2015. António Costa
permaneceu primeiro-ministro até 2024. Durante quase nove anos, o Partido
Socialista governou, primeiro com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco de
Esquerda e, posteriormente, dispondo de uma maioria absoluta que os eleitores
lhe concederam em 2022.
Foram anos suficientes para perceber que a habitação estava
a transformar-se numa emergência nacional. A construção revelava-se
insuficiente, as rendas subiam, os jovens viam adiada a sua autonomia, as
famílias enfrentavam crescentes dificuldades e uma política migratória sem
correspondência adequada no planeamento habitacional acrescentava pressão à
procura, particularmente nas grandes áreas urbanas.
Portugal chegou a 2024 com mais de milhão e meio de
residentes estrangeiros e o Banco de Portugal identificou, em 2026, um défice
estimado em 300 mil habitações. São realidades distintas, mas relacionadas.
A procura aumentou, a oferta não acompanhou o crescimento e o poder político
preferiu, durante demasiado tempo, administrar a escassez em vez de enfrentar
as suas causas estruturais.
A responsabilidade não pertence exclusivamente a António
Costa nem começou em 2015. Mas seria uma notável falsificação da história
política portuguesa pretender que os governos socialistas e os partidos que
lhes garantiram estabilidade parlamentar não tiveram qualquer responsabilidade
no agravamento de uma crise que agora denunciam com extraordinário fervor.
A habitação já era um problema quando a esquerda
influenciava o Governo. A diferença é que, nessa altura, montar tendas contra
os responsáveis políticos não parecia constituir uma prioridade revolucionária.
E eis que os mesmos sectores políticos que durante anos
contribuíram, por acção, omissão ou cumplicidade parlamentar, para a situação
existente descobriram subitamente a necessidade de salvar o povo das
consequências de políticas que ajudaram a sustentar.
UMA TENDA NÃO É UM VOTO
Rui Ramos, no artigo Uma tenda não é um voto,
publicado no Observador em 23 de Outubro, tocou no ponto fundamental
desta encenação: a tentativa de transformar a ocupação de praças públicas
numa legitimidade política concorrente daquela que resulta do sufrágio
universal.
A questão merece ser levada mais longe. Numa democracia
representativa, os cidadãos manifestam-se, protestam, organizam-se e procuram
influenciar decisões políticas. Tudo isso é legítimo e indispensável. O que não
podem é reclamar, apenas porque ocuparam uma praça, uma autoridade equivalente
ou superior à das instituições democraticamente eleitas.
Quando uma chamada «assembleia popular», constituída por
algumas dezenas ou centenas de activistas, se apresenta como interlocutora
necessária dos poderes públicos, sem mandato eleitoral e sem representação
demonstrada da população que invoca, estamos perante uma confusão deliberada
entre participação cívica e representação política.
É precisamente aqui que a memória do PREC se torna
particularmente útil. Quem viveu os anos de 1974 e 1975 conhece demasiado bem a
retórica segundo a qual assembleias improvisadas, comissões autoproclamadas e
organizações revolucionárias se arrogavam o direito de representar um povo que
ninguém se dera ao trabalho de consultar eleitoralmente.
Não estamos perante uma repetição do PREC, mas
reconhecemos a tentação ideológica: substituir a legitimidade das urnas pela
legitimidade autoproclamada da rua.
A FLUTUABILIDADE POLÍTICA DA EXTREMA-ESQUERDA
Os recentes acontecimentos permitem recuperar aquilo a que
tenho chamado Princípio da Flutuabilidade Política: quanto menor é o
poder institucional de uma força política, maior tende a ser o valor que
atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha de organizações,
causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em
injustiças colectivas.
Em linguagem menos académica:
Quando a esquerda, nas urnas, é lançada para a oposição,
a pressão que vai exercer nas ruas tende a ser proporcional ao peso do poder
perdido.
Não se trata de uma lei universal, mas de uma hipótese
política que merece ser aplicada aos comportamentos de determinados sectores
revolucionários. Perdida a capacidade de condicionar directamente o poder,
procuram conquistar pela mobilização aquilo que o eleitorado lhes recusou.
Os protestos pela habitação oferecem um campo
particularmente favorável. Existe um problema real, existem vítimas sociais
identificáveis, há uma indignação perfeitamente compreensível e abundam os
símbolos capazes de produzir imagens televisivas emocionalmente eficazes.
Juntam-se-lhes outras causas, da Palestina à contestação do
capitalismo, numa convergência ideológica que revela muito sobre as prioridades
de algumas organizações presentes. Nada impede um cidadão de defender
simultaneamente a habitação e a causa palestiniana; o problema surge quando a
reivindicação habitacional passa a servir de plataforma para uma agenda
política muito mais vasta, sem que essa distinção seja claramente apresentada
ao público.
O problema da habitação é real. A instrumentalização
política desse problema também pode sê-lo. Confundir deliberadamente as duas
coisas é precisamente aquilo que interessa aos agitadores e prejudica os
cidadãos verdadeiramente afectados.
O JORNALISTADO E A SANTIFICAÇÃO DO ACTIVISTA
Durante demasiado tempo, uma parte significativa do
jornalistado e do comentariado português habituou-se a tratar a chamada
extrema-direita como uma ameaça permanente, enquanto concedia aos movimentos da
extrema-esquerda o benefício quase automático da pureza democrática.
A linguagem é reveladora. Certos activistas tornam-se «a voz
do povo», determinadas concentrações passam a «assembleias populares» e a
presença de algumas centenas de manifestantes ganha uma representatividade que
nunca foi eleitoralmente demonstrada.
Em contrapartida, quando a polícia intervém, a discussão
desloca-se imediatamente das regras aplicáveis à ocupação do espaço público
para a suspeita de repressão. Isso não significa que as intervenções policiais
devam ficar imunes ao escrutínio, sobretudo quando existem denúncias de feridos
ou uso excessivo da força. Significa, simplesmente, que o Estado de direito
exige simultaneamente respeito pelos direitos dos manifestantes e respeito pela
legalidade, pela proporcionalidade e pelos direitos dos restantes cidadãos.
A função do jornalismo não é canonizar manifestantes nem
absolver antecipadamente autoridades. É investigar, contextualizar e distinguir
os factos das narrativas interessadas.
Quando essa distinção desaparece, a informação transforma-se
numa extensão involuntária — ou politicamente conveniente — da propaganda.
E A DIREITA? CONTINUA COM MEDO DA PRÓPRIA SOMBRA
Talvez a observação mais perturbadora de Rui Ramos seja a
que diz respeito ao comportamento das instituições e dos responsáveis políticos
situados à direita.
Perante as tendas, as palavras de ordem e a pressão
mediática, demasiados responsáveis parecem preocupar-se menos com a afirmação
serena da autoridade democrática do que com a possibilidade de serem acusados
de insensibilidade social, autoritarismo ou, naturalmente, do inevitável
fascismo.
E assim surge a habitual coreografia portuguesa: declarações
de solidariedade, elogios ao direito de manifestação, convites ao diálogo e um
embaraço quase cerimonioso perante a necessidade de fazer cumprir regras.
A direita não tem de pedir desculpa por reconhecer a
crise da habitação, nem necessita de pedir autorização à extrema-esquerda para
defender a ordem pública.
Quanto ao CHEGA, importa distinguir duas realidades. A
aproximação às Novas Direitas e a recuperação da questão social constituem uma
evolução política que merece atenção e que tenho procurado analisar, sem que
isso implique adesão partidária. Porém, recuperar a questão social não
significa aceitar que as convulsões organizadas por sectores ideológicos
adversários definam a sua orientação política.
O episódio da lei das rendas demonstra justamente a
dificuldade desse equilíbrio: defender os inquilinos vulneráveis e os
trabalhadores sem desproteger os proprietários, sem comprometer a oferta
habitacional e, sobretudo, sem confundir a opinião pública com a pressão
exercida por minorias especialmente ruidosas.
Uma Nova Direita que pretenda disputar a questão social à
esquerda tem de possuir pensamento próprio, propostas próprias e coragem para
as defender. Caso contrário, limitar-se-á a seguir a agenda de quem ocupa a
praça com maior eficácia televisiva.
A DEMOCRACIA NÃO SE GOVERNA A PARTIR DE UMA TENDA
Há uma última questão, talvez a mais importante de todas,
que ultrapassa a habitação, as manifestações e as habituais disputas
partidárias.
Uma democracia não é apenas um conjunto de leis e
instituições. É também um sistema de legitimidade, assente em ideias claras,
responsabilidades identificáveis e vontades políticas suficientemente firmes
para defender as decisões democraticamente tomadas.
É precisamente essa confiança que parece faltar a uma parte
considerável do actual regime.
As instituições hesitam em afirmar a sua autoridade. Os
governantes receiam exercer os poderes de que dispõem. A comunicação social
confunde frequentemente mobilização com representatividade. E determinadas
organizações políticas parecem convencidas de que, se não conseguem conquistar
influência suficiente nas urnas, poderão recuperá-la através da ocupação
permanente do espaço público.
A resposta democrática não pode consistir em proibir o
protesto, mas também não pode ser a abdicação do Estado perante quem protesta.
A verdadeira questão é saber se as instituições portuguesas
ainda possuem capacidade intelectual e política para distinguir uma
reivindicação legítima de uma pretensão ilegítima de substituir a representação
democrática.
A habitação resolve-se com construção, investimento
(principalmente privado), planeamento, segurança jurídica e políticas sociais
eficazes. Não se resolve pela multiplicação de tendas nem pela transformação
das praças públicas em simulacros de parlamentos revolucionários.
E, enquanto os partidos que contribuíram para o problema se
entretêm a representar o papel de seus salvadores, a ironia torna-se cruel: os
portugueses continuam sem casas, mas os responsáveis políticos descobriram uma
inesgotável reserva de indignação.
No fim de contas, a extrema-esquerda pode montar todas as
tendas que entender. O que não pode é exigir que a democracia se ajoelhe para
entrar nelas.
José Costa-Deitado
ReVisões — 23 de Outubro de 2026
Referências que sustentam o artigo
A investigação permite relacionar os textos apresentados com
acontecimentos muito recentes:
- Uma
tenda não é um voto — Rui Ramos, 23 de Outubro de 2026.
- Isto
nunca foi sobre habitação — Ricardo Lopes Reis, 22 de Outubro de 2026.
- Uma
tenda portuguesa, com certeza — Guilherme Catarino, 22 de Outubro de
2026.
- Habitação:
as casas não aparecem por decreto — Ana Gomes, 22 de Outubro de 2026.
Quem são e o que querem?
Da reivindicação de uma casa à ambição de deitar abaixo o regime
Há uma pergunta que o jornalistado deveria fazer antes de oferecer a uma tenda o estatuto de tribuna nacional: quem fala, em nome de quem e com que objectivo? A dificuldade em pagar uma renda merece respostas concretas; um programa de destruição das instituições merece perguntas igualmente concretas. Quando se confundem as duas coisas, a informação transforma-se em publicidade e a necessidade de uns passa a servir a ambição política de outros.
Pelo discurso atribuído a um manifestante em vídeo que circula nas redes, a habitação seria apenas uma parcela de uma crise universal que incluiria o clima, a economia, o racismo e o machismo, tudo explicado por um culpado único: o capitalismo. A solução acompanharia a dimensão do diagnóstico: destruir o Estado, a polícia, o capital, os tribunais e os média, admitindo que o protesto desembocasse numa insurreição violenta. Se é este o programa, convém apresentá-lo ao público por inteiro, em vez de o embrulhar na expressão confortável de “luta pela habitação”.
Não sabemos que representação tem aquele interveniente, nem seria sério atribuir as suas palavras a todos os manifestantes. Mas também não seria sério ignorar o conteúdo político de um discurso apenas porque foi pronunciado à sombra de uma causa social legítima. Quem pede uma renda comportável e quem anuncia a destruição dos tribunais podem ocupar a mesma praça; não estão necessariamente a defender o mesmo projecto.
A biblioteca da revolução de bolso
Apetece perguntar se, entre tantas palavras de ordem, ainda sobra tempo para Camilo, Júlio Diniz ou Herculano — e se Marx, Engels e Lenine são lidos para além das frases que cabem num cartaz. A pergunta é irónica; o problema é sério: um vocabulário revolucionário não substitui o conhecimento da sociedade que se pretende reconstruir. Repetir “capitalismo”, “opressão” e “revolução” pode produzir uma intervenção televisiva; dificilmente produz uma política de habitação.
Circulam, entretanto, manuais de apoio legal e de desobediência civil. A sua existência não demonstra preparação terrorista: conhecer direitos, deveres e consequências legais faz parte da cidadania. A questão política começa quando se pretende converter a preparação para desobedecer numa licença moral para impor decisões aos outros. Conhecer as garantias do Estado de direito não concede o direito de as destruir para quem discorda.
Eis uma pergunta que mereceria tempo de antena: depois de abolidos os tribunais, quem protegeria o cidadão contra a arbitrariedade dos revolucionários? Uma assembleia de braço no ar? Uma comissão escolhida pelos mais persistentes? Ou o porta-voz que, tendo descoberto a causa de todos os males, se considerasse dispensado de prestar contas?
Três gerações e uma promessa quebrada
A minha geração, hoje septuagenária e octogenária, conheceu dificuldades que não precisam de ser inventadas para valorizar o passado. Muitos começaram com pouco e conseguiram melhorar de vida, sustentados pela convicção de que os filhos viveriam melhor. O trabalho, a poupança e o sacrifício tinham um horizonte reconhecível.
É esse horizonte que hoje parece fugir a muitos jovens. Estudar, trabalhar e cumprir as regras já não lhes garante, em condições razoáveis, a possibilidade de sair de casa dos pais ou constituir família. A gravidade desta situação não diminui por terem existido barracas, sobrelotação e pobreza habitacional noutras décadas. O progresso mede-se também pela distância entre aquilo que uma sociedade promete e aquilo que efectivamente permite alcançar.
A interrogação de Helena Matos, nos excertos apresentados, atinge precisamente este ponto: que sacrifícios esperam os jovens quando deixarem de o ser? Defender hoje uma medida porque tem um rótulo generoso pode significar pagar amanhã uma factura incomportável. As pensões precisam de financiamento, a dívida exige serviço e uma casa precisa de ser construída, conservada e disponibilizada. Nenhuma destas obrigações desaparece por aclamação.
Também seria absurdo reduzir uma geração inteira aos acampamentos. Há jovens que protestam, jovens que emigram, jovens que trabalham em silêncio e jovens que procuram nas Novas Direitas respostas que deixaram de encontrar nos partidos tradicionais. Uma praça ocupada não constitui uma amostra representativa da juventude portuguesa, por muito que a realização televisiva encontre nela os seus melhores enquadramentos.
A crise tem história; a propaganda prefere culpados
André Abrantes do Amaral recorda, no excerto citado, que a crise não surgiu do nada: houve escolhas, perda de empresas, empregos e capacidade no sector da construção. Essa perspectiva obriga a discutir decisões e consequências, tarefa bastante mais exigente do que encontrar um inimigo com nome sonante.
A crítica de João Adrião à fabricação de um estado permanente de emergência merece igualmente atenção. Quando tudo é apresentado como catástrofe sem precedente, o debate fica vulnerável à promessa de soluções excepcionais. Mas denunciar o alarmismo exige reconhecer a dificuldade real: quem entrega uma parte esmagadora do salário por um quarto não precisa de propaganda para perceber que tem um problema.
A resposta séria deve disputar as soluções e explicar os seus custos. Quantas casas se podem construir? Que obstáculos atrasam a oferta? Como se protege quem não consegue pagar? Que incentivos permitem recuperar imóveis? O revolucionário de serviço tem uma vantagem televisiva: responde a todas estas perguntas com a mesma palavra — capitalismo — e fica dispensado de apresentar contas.
O PREC com equipamento novo
Miguel Pinheiro questiona o encantamento perante uma suposta novidade política; Miguel Morgado chama a atenção para a facilidade com que o discurso revolucionário encontra acolhimento mediático. Os dois problemas encontram-se quando a ocupação da rua passa a ser apresentada como uma forma superior de representação.
Quem viveu o PREC reconhece o mecanismo: a vanguarda proclama-se intérprete do povo e procura transformar a sua capacidade de mobilização em autoridade sobre os restantes cidadãos. Mudaram os meios de comunicação e algumas bandeiras; permanece a tentação de substituir o voto pela pressão.
É aqui que ganha utilidade o princípio da flutuabilidade política: quando uma força perde influência institucional, pode procurar compensá-la através da mobilização extra-institucional. Trata-se de uma hipótese para interpretar comportamentos, não de uma lei automática; exige observar quem organiza, que objectivos declara e como procura converter descontentamento em poder.
Em França, Macron atribuiu a grupos de ultra-esquerda a intenção de fazer cair a República, distinguindo essa actuação da delinquência. A acusação do Presidente francês deve ser apreciada com os respectivos elementos; não pode ser transferida automaticamente para Portugal. Mas torna difícil continuar a tratar qualquer discussão sobre violência revolucionária como uma fantasia reaccionária.
A pergunta que falta fazer
A liberdade de manifestação merece protecção, incluindo quando incomoda o Governo. Essa liberdade também permite perguntar aos manifestantes o que pretendem fazer com o poder que reclamam. O dever jornalístico começa precisamente onde termina o encanto com o cenário.
Quem anuncia a destruição do Estado deve explicar que autoridade o substituirá; quem ameaça os tribunais deve explicar como assegurará justiça; quem admite a insurreição deve responder pelos meios que propõe. A indignação social não dispensa nenhuma destas perguntas.
Portugal precisa de casas, de salários que permitam pagá-las e de governantes capazes de enfrentar os obstáculos que ajudaram a acumular. Precisa também de perceber quando uma reivindicação está a ser usada para recrutar adeptos de um projecto que vai muito além dela.
Quem promete resolver a falta de casas destruindo os tribunais já revelou a sua prioridade: antes de alojar o povo, quer despejar a democracia.
sábado, 17 de outubro de 2026
os putos, as chavalas e o jornalistado
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
incancelável!
Quando a esquerda ocupa, é legítimo. Quando o CHEGA se dispõe a debater, chamam-lhe invasão. Não vamos permitir que os falsos democratas tentem silenciar a voz do CHEGA! O combate político faz-se através das ideias, do debate e da apresentação de argumentos. Nunca através da exclusão de quem pensa diferente. O CHEGA É INCANCELÁVEL! 🇵🇹
— Rita Maria Matias (@ritamariamatias) October 12, 2026
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
o amigo de Ronaldo escreve-nos ...
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
nova direita por Jérémy Silvares Jerónimo
terça-feira, 29 de setembro de 2026
a Guerra das Laranjas: A Espanha come Olivença e a França 20 milhões de libras...
29 de Setembro de 1801 - Tratado de Madrid entre Portugal e a França. Passam hoje 225 anos. Este tratado veio na sequência da última guerra entre Portugal e Espanha, chamada a “Guerra das Laranjas”, em Maio de 1801, que foi um prenúncio das invasões francesas.
domingo, 13 de setembro de 2026
o fim do sistema semipresidencialista português...
https://www.facebook.com/rui.albuquerque.9237/posts/pfbid02ahiJMPuoUnRniLsMdSJ4nZUNtK6ZGei51gTBHbTBBVnAd3SBcUNr8e5RrTAXJ5jEl
sábado, 12 de setembro de 2026
La UE aprieta las tuercas a Sánchez para que acelere la deportación de los migrantes de Ceuta...
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Ventos de mudança? Tempestade na Europa?
AfD chair Alice Weidel after big showing in Sachsen-Anhalt tells me: Friedrich Merz’s days as German Chancellor are numbered.
— Frederik Pleitgen (@fpleitgenCNN) September 6, 2026
“We ran on a clear platform of representing the interests of our country—not those of Ukraine or any other country. And I can tell you this: if we… pic.twitter.com/F8tDbCWp7l
domingo, 6 de setembro de 2026
Georgia Maloni
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Nuno Melo ministro ou Vitor Matos alegado jornalista. Um deles é mentiroso!
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
A intervenção do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos não se dirige ao Chega enquanto actor partidário, mas ao conteúdo jurídico do projecto e ao seu potencial impacto nas obrigações internacionais assumidas por Portugal. A ONU actua dentro do seu mandato: monitorizar o cumprimento dos tratados de direitos humanos ratificados pelos Estados e formular recomendações quando detecta risco de incompatibilidade. Não se trata de ingerência política, mas de supervisão jurídica enquadrada nos próprios pactos internacionais.
Do ponto de vista técnico, a crítica da ONU concentra-se em três dimensões principais. Em primeiro lugar, a patologização da identidade de género, decorrente da utilização da expressão “transtorno de identidade de género”1. Após a revisão da classificação internacional de doenças, a transexualidade deixou de ser considerada perturbação mental, e a reintrodução de terminologia patologizante é entendida como potencial violação do princípio da não-discriminação consagrado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Em segundo lugar, a proposta de proibição absoluta de tratamentos médicos relacionados com disforia de género para menores de 18 anos é vista como problemática. Uma proibição total, indiferente à avaliação clínica individual, pode colidir com o direito à saúde e com a Convenção sobre os Direitos da Criança, que exige que o superior interesse da criança seja ponderado caso a caso e que esta participe nas decisões que lhe dizem respeito, em função da sua maturidade.
Em terceiro lugar, o modelo de reconhecimento legal da identidade de género. Os mecanismos internacionais têm vindo a afirmar a autodeterminação como critério adequado, privilegiando procedimentos administrativos simples. A imposição de validação médica obrigatória pode ser qualificada como restrição desproporcionada, potencialmente incompatível com as obrigações assumidas por Portugal em matéria de direitos civis e políticos.
Neste quadro, a ONU não declara que o Chega violou tratados internacionais; sustenta, antes, que a aprovação do projecto, tal como formulado, pode colocar o Estado português em situação de incumprimento das suas responsabilidades internacionais em matéria de direitos humanos.
- “transtorno de identidade de género”
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Quando a Direita recupera a Questão Social — e a Esquerda lhe perde o monopólio
Durante grande parte da modernidade política europeia, a Esquerda construiu uma parte decisiva da sua legitimidade sobre a representação dos trabalhadores. Falava de salários, habitação, emprego, pensões, condições de trabalho, segurança económica e dignidade material.
E as Novas Direitas começaram a ocupá-lo.
Hoje encontramos partidos de direita a contestar reformas laborais que prolongam excessivamente a vida activa, a defender idades de reforma mais baixas ou carreiras contributivas suficientemente longas, a denunciar privilégios políticos, a falar de pensões, salários, energia, habitação e protecção dos trabalhadores.
Encontramos também uma crítica crescente à globalização, às elites tecnocráticas e a uma economia que parece proteger grandes estruturas enquanto deixa trabalhadores, pequenos empresários e classes médias entregues à insegurança.
Isto significa que a Direita se está a tornar de esquerda?
Não necessariamente.
Pode significar exactamente o contrário: que uma parte da Direita está a regressar à Questão Social.
O trabalhador não pertence à Esquerda
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» ou «privilégio».
A velha direita liberal-conservadora aceitou, em grande medida, essa divisão do trabalho político.
À Esquerda ficaram os trabalhadores, os sindicatos, a protecção social e a linguagem da solidariedade.
À Direita ficaram o mercado, a iniciativa privada, o equilíbrio orçamental e a eficiência económica.
Depois, essa mesma Direita admirou-se por ter perdido culturalmente uma parte significativa dos sectores populares.
É aqui que regressamos a Gramsci.
Uma força política não conquista hegemonia apenas quando ganha eleições. Conquista-a quando consegue determinar as palavras, os valores e os conceitos através dos quais uma sociedade interpreta a realidade.
Durante décadas, a Esquerda conseguiu fazer acreditar que falar de justiça social era, quase por definição, falar a linguagem da Esquerda.
Mas nenhuma ideologia possui direitos de propriedade sobre os problemas sociais.
O cimento já não é a classe
É neste ponto que a experiência do CHEGA e de outras Novas Direitas europeias se torna particularmente interessante.
Essas forças procuram reunir sectores que a análise política tradicional considerava difíceis de compatibilizar: trabalhadores anteriormente ligados à Esquerda, pequenos empresários esmagados por impostos e burocracia, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é propriamente a consciência de classe.
A mensagem torna-se simples e politicamente poderosa: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado por quem governa, especula, beneficia de privilégios ou vive afastado das consequências das políticas que defende.
Esta mensagem pode ser simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente.
Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha Direita e o moralismo identitário de uma parte da nova Esquerda deixaram progressivamente de ter.
Da luta de classes ao conflito entre povo e elites
Seria, contudo, errado confundir este discurso com o marxismo clássico.
A Nova Direita não adopta necessariamente o antagonismo entre proletariado e capital.
Substitui-o muitas vezes por outra clivagem: povo e elites, produtores e estruturas parasitárias, periferias e centros de poder, governados e classe dirigente.
Não é exactamente luta de classes.
É outra forma de conflito social e político.
E é precisamente por essa via que algumas Novas Direitas procuram conquistar sectores que durante décadas foram considerados património eleitoral da Esquerda.
Leão XIII: a Questão Social antes do monopólio socialista
É aqui que Leão XIII se torna particularmente importante.
A Direita não se torna de esquerda quando volta a falar do trabalhador.
Torna-se novamente social.
Muito antes da actual Esquerda identitária e sem aceitar o socialismo, a Rerum Novarum já colocava no centro da reflexão política a dignidade do trabalho, o salário justo, a protecção da família, o direito de associação dos trabalhadores e os deveres sociais da propriedade.
Leão XIII rejeitou simultaneamente duas reduções.
Por um lado, recusou que a sociedade pudesse ser explicada exclusivamente pela luta de classes.
Por outro, recusou que o trabalhador pudesse ser abandonado à simples mecânica do mercado.
Entre o colectivismo e o individualismo económico colocou a família, as comunidades intermédias, a solidariedade, a responsabilidade social e o bem comum.
Existe, portanto, uma tradição social da Direita que precede muitas das actuais classificações políticas.
Recuperá-la não significa importar a linguagem da Esquerda.
Significa recordar que a defesa da comunidade nacional também inclui quem trabalha, produz, desconta, cria empresas, sustenta famílias e suporta financeiramente o Estado.
Gramsci explica o método; Leão XIII fornece a substância
Gramsci ajuda a compreender como se conquista hegemonia.
Leão XIII recorda por que razão a Questão Social não pertence ao marxismo.
Autores contemporâneos como Benedikt Kaiser procuram precisamente recuperar essa dimensão social para uma direita nacional e comunitária: uma direita que perceba que não pode falar de Nação ignorando quem nela trabalha e vive.
Também em Portugal esta discussão começa a surgir.
Duarte Branquinho, entre outros, tem insistido na necessidade de uma direita que compreenda que a batalha política é também cultural, social e metapolítica.
Uma direita nacional que abandone a Questão Social acabará, mais cedo ou mais tarde, por abandonar o próprio povo que afirma representar.
A velha Direita esqueceu a comunidade
A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, os sindicatos aos comunistas, a cultura aos progressistas e a solidariedade ao Estado burocrático.
Contentou-se frequentemente em defender o mercado.
E esqueceu-se de defender a comunidade.
Mas a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira, soberania e memória.
É também protecção entre gerações.
É dignidade do trabalho.
É justiça contributiva.
É segurança económica.
É reconhecimento daqueles que sustentam diariamente a comunidade.
Se uma direita pretende verdadeiramente apresentar-se como nacional, não pode ignorar aqueles que constituem materialmente essa mesma Nação.
Quando a hegemonia deixa de ser propriedade
Uma coisa começa, por isso, a parecer evidente.
A Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.
Julgou que «trabalhador», «salário», «pensão», «justiça social», «desigualdade» e «protecção» lhe pertenciam por herança política.
Não pertencem.
São problemas humanos, sociais e políticos anteriores às ideologias que deles se apropriaram.
A verdadeira ruptura poderá estar precisamente aqui.
Não se trata apenas de o CHEGA ou outras Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para conquistar eleitores.
Trata-se de algo potencialmente mais profundo: retirar a Questão Social à interpretação exclusivamente marxista e integrá-la numa visão nacional, social e comunitária da Direita.
Se essa transformação se consolidar, a mudança não será apenas eleitoral.
Será cultural.
E quando uma força política consegue mudar o significado das palavras através das quais uma sociedade pensa os seus problemas, já começou a disputar aquilo que Gramsci considerava decisivo: a própria hegemonia.
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