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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
A intervenção do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos não se dirige ao Chega enquanto actor partidário, mas ao conteúdo jurídico do projecto e ao seu potencial impacto nas obrigações internacionais assumidas por Portugal. A ONU actua dentro do seu mandato: monitorizar o cumprimento dos tratados de direitos humanos ratificados pelos Estados e formular recomendações quando detecta risco de incompatibilidade. Não se trata de ingerência política, mas de supervisão jurídica enquadrada nos próprios pactos internacionais.
Do ponto de vista técnico, a crítica da ONU concentra-se em três dimensões principais. Em primeiro lugar, a patologização da identidade de género, decorrente da utilização da expressão “transtorno de identidade de género”1. Após a revisão da classificação internacional de doenças, a transexualidade deixou de ser considerada perturbação mental, e a reintrodução de terminologia patologizante é entendida como potencial violação do princípio da não-discriminação consagrado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
Em segundo lugar, a proposta de proibição absoluta de tratamentos médicos relacionados com disforia de género para menores de 18 anos é vista como problemática. Uma proibição total, indiferente à avaliação clínica individual, pode colidir com o direito à saúde e com a Convenção sobre os Direitos da Criança, que exige que o superior interesse da criança seja ponderado caso a caso e que esta participe nas decisões que lhe dizem respeito, em função da sua maturidade.
Em terceiro lugar, o modelo de reconhecimento legal da identidade de género. Os mecanismos internacionais têm vindo a afirmar a autodeterminação como critério adequado, privilegiando procedimentos administrativos simples. A imposição de validação médica obrigatória pode ser qualificada como restrição desproporcionada, potencialmente incompatível com as obrigações assumidas por Portugal em matéria de direitos civis e políticos.
Neste quadro, a ONU não declara que o Chega violou tratados internacionais; sustenta, antes, que a aprovação do projecto, tal como formulado, pode colocar o Estado português em situação de incumprimento das suas responsabilidades internacionais em matéria de direitos humanos.
- “transtorno de identidade de género”
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Quando a Direita recupera a Questão Social — e a Esquerda lhe perde o monopólio
Durante grande parte da modernidade política europeia, a Esquerda construiu uma parte decisiva da sua legitimidade sobre a representação dos trabalhadores. Falava de salários, habitação, emprego, pensões, condições de trabalho, segurança económica e dignidade material.
E as Novas Direitas começaram a ocupá-lo.
Hoje encontramos partidos de direita a contestar reformas laborais que prolongam excessivamente a vida activa, a defender idades de reforma mais baixas ou carreiras contributivas suficientemente longas, a denunciar privilégios políticos, a falar de pensões, salários, energia, habitação e protecção dos trabalhadores.
Encontramos também uma crítica crescente à globalização, às elites tecnocráticas e a uma economia que parece proteger grandes estruturas enquanto deixa trabalhadores, pequenos empresários e classes médias entregues à insegurança.
Isto significa que a Direita se está a tornar de esquerda?
Não necessariamente.
Pode significar exactamente o contrário: que uma parte da Direita está a regressar à Questão Social.
O trabalhador não pertence à Esquerda
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» ou «privilégio».
A velha direita liberal-conservadora aceitou, em grande medida, essa divisão do trabalho político.
À Esquerda ficaram os trabalhadores, os sindicatos, a protecção social e a linguagem da solidariedade.
À Direita ficaram o mercado, a iniciativa privada, o equilíbrio orçamental e a eficiência económica.
Depois, essa mesma Direita admirou-se por ter perdido culturalmente uma parte significativa dos sectores populares.
É aqui que regressamos a Gramsci.
Uma força política não conquista hegemonia apenas quando ganha eleições. Conquista-a quando consegue determinar as palavras, os valores e os conceitos através dos quais uma sociedade interpreta a realidade.
Durante décadas, a Esquerda conseguiu fazer acreditar que falar de justiça social era, quase por definição, falar a linguagem da Esquerda.
Mas nenhuma ideologia possui direitos de propriedade sobre os problemas sociais.
O cimento já não é a classe
É neste ponto que a experiência do CHEGA e de outras Novas Direitas europeias se torna particularmente interessante.
Essas forças procuram reunir sectores que a análise política tradicional considerava difíceis de compatibilizar: trabalhadores anteriormente ligados à Esquerda, pequenos empresários esmagados por impostos e burocracia, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é propriamente a consciência de classe.
A mensagem torna-se simples e politicamente poderosa: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado por quem governa, especula, beneficia de privilégios ou vive afastado das consequências das políticas que defende.
Esta mensagem pode ser simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente.
Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha Direita e o moralismo identitário de uma parte da nova Esquerda deixaram progressivamente de ter.
Da luta de classes ao conflito entre povo e elites
Seria, contudo, errado confundir este discurso com o marxismo clássico.
A Nova Direita não adopta necessariamente o antagonismo entre proletariado e capital.
Substitui-o muitas vezes por outra clivagem: povo e elites, produtores e estruturas parasitárias, periferias e centros de poder, governados e classe dirigente.
Não é exactamente luta de classes.
É outra forma de conflito social e político.
E é precisamente por essa via que algumas Novas Direitas procuram conquistar sectores que durante décadas foram considerados património eleitoral da Esquerda.
Leão XIII: a Questão Social antes do monopólio socialista
É aqui que Leão XIII se torna particularmente importante.
A Direita não se torna de esquerda quando volta a falar do trabalhador.
Torna-se novamente social.
Muito antes da actual Esquerda identitária e sem aceitar o socialismo, a Rerum Novarum já colocava no centro da reflexão política a dignidade do trabalho, o salário justo, a protecção da família, o direito de associação dos trabalhadores e os deveres sociais da propriedade.
Leão XIII rejeitou simultaneamente duas reduções.
Por um lado, recusou que a sociedade pudesse ser explicada exclusivamente pela luta de classes.
Por outro, recusou que o trabalhador pudesse ser abandonado à simples mecânica do mercado.
Entre o colectivismo e o individualismo económico colocou a família, as comunidades intermédias, a solidariedade, a responsabilidade social e o bem comum.
Existe, portanto, uma tradição social da Direita que precede muitas das actuais classificações políticas.
Recuperá-la não significa importar a linguagem da Esquerda.
Significa recordar que a defesa da comunidade nacional também inclui quem trabalha, produz, desconta, cria empresas, sustenta famílias e suporta financeiramente o Estado.
Gramsci explica o método; Leão XIII fornece a substância
Gramsci ajuda a compreender como se conquista hegemonia.
Leão XIII recorda por que razão a Questão Social não pertence ao marxismo.
Autores contemporâneos como Benedikt Kaiser procuram precisamente recuperar essa dimensão social para uma direita nacional e comunitária: uma direita que perceba que não pode falar de Nação ignorando quem nela trabalha e vive.
Também em Portugal esta discussão começa a surgir.
Duarte Branquinho, entre outros, tem insistido na necessidade de uma direita que compreenda que a batalha política é também cultural, social e metapolítica.
Uma direita nacional que abandone a Questão Social acabará, mais cedo ou mais tarde, por abandonar o próprio povo que afirma representar.
A velha Direita esqueceu a comunidade
A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, os sindicatos aos comunistas, a cultura aos progressistas e a solidariedade ao Estado burocrático.
Contentou-se frequentemente em defender o mercado.
E esqueceu-se de defender a comunidade.
Mas a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira, soberania e memória.
É também protecção entre gerações.
É dignidade do trabalho.
É justiça contributiva.
É segurança económica.
É reconhecimento daqueles que sustentam diariamente a comunidade.
Se uma direita pretende verdadeiramente apresentar-se como nacional, não pode ignorar aqueles que constituem materialmente essa mesma Nação.
Quando a hegemonia deixa de ser propriedade
Uma coisa começa, por isso, a parecer evidente.
A Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.
Julgou que «trabalhador», «salário», «pensão», «justiça social», «desigualdade» e «protecção» lhe pertenciam por herança política.
Não pertencem.
São problemas humanos, sociais e políticos anteriores às ideologias que deles se apropriaram.
A verdadeira ruptura poderá estar precisamente aqui.
Não se trata apenas de o CHEGA ou outras Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para conquistar eleitores.
Trata-se de algo potencialmente mais profundo: retirar a Questão Social à interpretação exclusivamente marxista e integrá-la numa visão nacional, social e comunitária da Direita.
Se essa transformação se consolidar, a mudança não será apenas eleitoral.
Será cultural.
E quando uma força política consegue mudar o significado das palavras através das quais uma sociedade pensa os seus problemas, já começou a disputar aquilo que Gramsci considerava decisivo: a própria hegemonia.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
"O 25 de Abril, deveria ser comemorado nas ex-Colónias! Porquê General? (Perguntava o Barata Feio)
domingo, 26 de julho de 2026
uma tensão ideológica que o jornalistado e o comentariado raramente explicitam com rigor...
sábado, 25 de julho de 2026
O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”
Quando Rui Afonso declarou que, “se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses”, não estava apenas a produzir uma frase parlamentar feliz. Estava a revelar uma mudança estratégica mais profunda: a tentativa do CHEGA de disputar à esquerda o terreno social, sem abandonar a identidade nacional.
É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.
O CHEGA percebeu, talvez antes do PPD/PSD, que uma direita meramente contabilística não chega ao povo. Falar de défice é necessário; falar de vida concreta é indispensável. A Nova Direita não quer ser apenas uma direita de patrões, gestores, comentadores e fiscalistas. Quer disputar o pensionista, o jovem licenciado, o trabalhador descontente, o pequeno contribuinte e o português que já não acredita no socialismo, mas também não se comove com sermões liberais sobre a virtude do sacrifício eterno.
Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.
No fundo, Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.
sexta-feira, 24 de julho de 2026
terça-feira, 14 de julho de 2026
sexta-feira, 10 de julho de 2026
um momento político em que as categorias tradicionais deixaram de explicar ...
domingo, 5 de julho de 2026
A enorme vitória de André Ventura — ou o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha
sábado, 2 de maio de 2026
Ventura: Esse culpado universal
sábado, 25 de abril de 2026
Presos do Abril
domingo, 12 de abril de 2026
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Uma excelente entrevistadora! Uma boa entrevista.
Marisa Caetano Antunes entrevista André Ventura
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Hoje é a Sexta-feira Santa. E isto é Lisboa!!!
✝️ 🇵🇹 | Hoje é a Sexta-feira Santa. E isto é Lisboa.
— MisterMar 2.0 (1.0 censored by X) (@xMisterMar2) April 3, 2026
Portugal, 3 de Abril de 2026. pic.twitter.com/vJ6OsUFPPl
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