domingo, 25 de outubro de 2026

QUANDO A EXTREMA-ESQUERDA PERDE AS URNAS, OCUPA AS PRAÇAS

Da insurreição francesa às tendas portuguesas: a luta pelo monopólio da questão social e o desarmamento intelectual da democracia.

França dita a moda. Portugal importa os figurinos.

Na França, onde tantas das modas ideológicas europeias começam, a esquerda radical parece ter redescoberto uma evidência que durante décadas procurou disfarçar sob a sucessão interminável de emergências climáticas, palestinianas, identitárias e de género: a questão social continua a ser o grande campo de batalha da política contemporânea. O problema, para essas esquerdas, é que as Novas Direitas começaram a ocupar precisamente o território que a esquerda considerava propriedade sua — o dos trabalhadores, dos salários insuficientes, da precariedade, da habitação inacessível, das classes médias em empobrecimento e da insegurança perante o futuro.

Perante essa concorrência, e incapaz de recuperar facilmente nas urnas o eleitorado que perdeu, parte da extrema-esquerda francesa parece regressar ao seu velho repertório revolucionário: a mobilização permanente, o confronto com o Estado e a transformação de reivindicações sociais em instrumentos de contestação política generalizada. Os recentes acontecimentos franceses, com protestos sociais acompanhados de confrontos violentos e acusações governamentais de instrumentalização pela ultra-esquerda, mostram como a questão social pode voltar a ser disputada fora das instituições representativas.

Portugal, naturalmente, não poderia ficar sem a sua versão doméstica. Faltam-nos a dimensão, a tradição insurreccional e as particulares tensões dos subúrbios franceses, mas não faltam organizações políticas suficientemente disponíveis para experimentar a receita. E, desta vez, o pretexto escolhido foi a habitação.

A CRISE QUE SÓ DESCOBRIRAM DEPOIS DE PERDEREM O PODER

A geringonça chegou ao poder em 2015. António Costa permaneceu primeiro-ministro até 2024. Durante quase nove anos, o Partido Socialista governou, primeiro com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco de Esquerda e, posteriormente, dispondo de uma maioria absoluta que os eleitores lhe concederam em 2022.

Foram anos suficientes para perceber que a habitação estava a transformar-se numa emergência nacional. A construção revelava-se insuficiente, as rendas subiam, os jovens viam adiada a sua autonomia, as famílias enfrentavam crescentes dificuldades e uma política migratória sem correspondência adequada no planeamento habitacional acrescentava pressão à procura, particularmente nas grandes áreas urbanas.

Portugal chegou a 2024 com mais de milhão e meio de residentes estrangeiros e o Banco de Portugal identificou, em 2026, um défice estimado em 300 mil habitações. São realidades distintas, mas relacionadas. A procura aumentou, a oferta não acompanhou o crescimento e o poder político preferiu, durante demasiado tempo, administrar a escassez em vez de enfrentar as suas causas estruturais.

A responsabilidade não pertence exclusivamente a António Costa nem começou em 2015. Mas seria uma notável falsificação da história política portuguesa pretender que os governos socialistas e os partidos que lhes garantiram estabilidade parlamentar não tiveram qualquer responsabilidade no agravamento de uma crise que agora denunciam com extraordinário fervor.

A habitação já era um problema quando a esquerda influenciava o Governo. A diferença é que, nessa altura, montar tendas contra os responsáveis políticos não parecia constituir uma prioridade revolucionária.

E eis que os mesmos sectores políticos que durante anos contribuíram, por acção, omissão ou cumplicidade parlamentar, para a situação existente descobriram subitamente a necessidade de salvar o povo das consequências de políticas que ajudaram a sustentar.

UMA TENDA NÃO É UM VOTO

Rui Ramos, no artigo Uma tenda não é um voto, publicado no Observador em 23 de Outubro, tocou no ponto fundamental desta encenação: a tentativa de transformar a ocupação de praças públicas numa legitimidade política concorrente daquela que resulta do sufrágio universal.

A questão merece ser levada mais longe. Numa democracia representativa, os cidadãos manifestam-se, protestam, organizam-se e procuram influenciar decisões políticas. Tudo isso é legítimo e indispensável. O que não podem é reclamar, apenas porque ocuparam uma praça, uma autoridade equivalente ou superior à das instituições democraticamente eleitas.

Quando uma chamada «assembleia popular», constituída por algumas dezenas ou centenas de activistas, se apresenta como interlocutora necessária dos poderes públicos, sem mandato eleitoral e sem representação demonstrada da população que invoca, estamos perante uma confusão deliberada entre participação cívica e representação política.

É precisamente aqui que a memória do PREC se torna particularmente útil. Quem viveu os anos de 1974 e 1975 conhece demasiado bem a retórica segundo a qual assembleias improvisadas, comissões autoproclamadas e organizações revolucionárias se arrogavam o direito de representar um povo que ninguém se dera ao trabalho de consultar eleitoralmente.

Não estamos perante uma repetição do PREC, mas reconhecemos a tentação ideológica: substituir a legitimidade das urnas pela legitimidade autoproclamada da rua.

A FLUTUABILIDADE POLÍTICA DA EXTREMA-ESQUERDA

Os recentes acontecimentos permitem recuperar aquilo a que tenho chamado Princípio da Flutuabilidade Política: quanto menor é o poder institucional de uma força política, maior tende a ser o valor que atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha de organizações, causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em injustiças colectivas.

Em linguagem menos académica:

Quando a esquerda, nas urnas, é lançada para a oposição, a pressão que vai exercer nas ruas tende a ser proporcional ao peso do poder perdido.

Não se trata de uma lei universal, mas de uma hipótese política que merece ser aplicada aos comportamentos de determinados sectores revolucionários. Perdida a capacidade de condicionar directamente o poder, procuram conquistar pela mobilização aquilo que o eleitorado lhes recusou.

Os protestos pela habitação oferecem um campo particularmente favorável. Existe um problema real, existem vítimas sociais identificáveis, há uma indignação perfeitamente compreensível e abundam os símbolos capazes de produzir imagens televisivas emocionalmente eficazes.

Juntam-se-lhes outras causas, da Palestina à contestação do capitalismo, numa convergência ideológica que revela muito sobre as prioridades de algumas organizações presentes. Nada impede um cidadão de defender simultaneamente a habitação e a causa palestiniana; o problema surge quando a reivindicação habitacional passa a servir de plataforma para uma agenda política muito mais vasta, sem que essa distinção seja claramente apresentada ao público.

O problema da habitação é real. A instrumentalização política desse problema também pode sê-lo. Confundir deliberadamente as duas coisas é precisamente aquilo que interessa aos agitadores e prejudica os cidadãos verdadeiramente afectados.

O JORNALISTADO E A SANTIFICAÇÃO DO ACTIVISTA

Durante demasiado tempo, uma parte significativa do jornalistado e do comentariado português habituou-se a tratar a chamada extrema-direita como uma ameaça permanente, enquanto concedia aos movimentos da extrema-esquerda o benefício quase automático da pureza democrática.

A linguagem é reveladora. Certos activistas tornam-se «a voz do povo», determinadas concentrações passam a «assembleias populares» e a presença de algumas centenas de manifestantes ganha uma representatividade que nunca foi eleitoralmente demonstrada.

Em contrapartida, quando a polícia intervém, a discussão desloca-se imediatamente das regras aplicáveis à ocupação do espaço público para a suspeita de repressão. Isso não significa que as intervenções policiais devam ficar imunes ao escrutínio, sobretudo quando existem denúncias de feridos ou uso excessivo da força. Significa, simplesmente, que o Estado de direito exige simultaneamente respeito pelos direitos dos manifestantes e respeito pela legalidade, pela proporcionalidade e pelos direitos dos restantes cidadãos.

A função do jornalismo não é canonizar manifestantes nem absolver antecipadamente autoridades. É investigar, contextualizar e distinguir os factos das narrativas interessadas.

Quando essa distinção desaparece, a informação transforma-se numa extensão involuntária — ou politicamente conveniente — da propaganda.

E A DIREITA? CONTINUA COM MEDO DA PRÓPRIA SOMBRA

Talvez a observação mais perturbadora de Rui Ramos seja a que diz respeito ao comportamento das instituições e dos responsáveis políticos situados à direita.

Perante as tendas, as palavras de ordem e a pressão mediática, demasiados responsáveis parecem preocupar-se menos com a afirmação serena da autoridade democrática do que com a possibilidade de serem acusados de insensibilidade social, autoritarismo ou, naturalmente, do inevitável fascismo.

E assim surge a habitual coreografia portuguesa: declarações de solidariedade, elogios ao direito de manifestação, convites ao diálogo e um embaraço quase cerimonioso perante a necessidade de fazer cumprir regras.

A direita não tem de pedir desculpa por reconhecer a crise da habitação, nem necessita de pedir autorização à extrema-esquerda para defender a ordem pública.

Quanto ao CHEGA, importa distinguir duas realidades. A aproximação às Novas Direitas e a recuperação da questão social constituem uma evolução política que merece atenção e que tenho procurado analisar, sem que isso implique adesão partidária. Porém, recuperar a questão social não significa aceitar que as convulsões organizadas por sectores ideológicos adversários definam a sua orientação política.

O episódio da lei das rendas demonstra justamente a dificuldade desse equilíbrio: defender os inquilinos vulneráveis e os trabalhadores sem desproteger os proprietários, sem comprometer a oferta habitacional e, sobretudo, sem confundir a opinião pública com a pressão exercida por minorias especialmente ruidosas.

Uma Nova Direita que pretenda disputar a questão social à esquerda tem de possuir pensamento próprio, propostas próprias e coragem para as defender. Caso contrário, limitar-se-á a seguir a agenda de quem ocupa a praça com maior eficácia televisiva.

A DEMOCRACIA NÃO SE GOVERNA A PARTIR DE UMA TENDA

Há uma última questão, talvez a mais importante de todas, que ultrapassa a habitação, as manifestações e as habituais disputas partidárias.

Uma democracia não é apenas um conjunto de leis e instituições. É também um sistema de legitimidade, assente em ideias claras, responsabilidades identificáveis e vontades políticas suficientemente firmes para defender as decisões democraticamente tomadas.

É precisamente essa confiança que parece faltar a uma parte considerável do actual regime.

As instituições hesitam em afirmar a sua autoridade. Os governantes receiam exercer os poderes de que dispõem. A comunicação social confunde frequentemente mobilização com representatividade. E determinadas organizações políticas parecem convencidas de que, se não conseguem conquistar influência suficiente nas urnas, poderão recuperá-la através da ocupação permanente do espaço público.

A resposta democrática não pode consistir em proibir o protesto, mas também não pode ser a abdicação do Estado perante quem protesta.

A verdadeira questão é saber se as instituições portuguesas ainda possuem capacidade intelectual e política para distinguir uma reivindicação legítima de uma pretensão ilegítima de substituir a representação democrática.

A habitação resolve-se com construção, investimento (principalmente privado), planeamento, segurança jurídica e políticas sociais eficazes. Não se resolve pela multiplicação de tendas nem pela transformação das praças públicas em simulacros de parlamentos revolucionários.

E, enquanto os partidos que contribuíram para o problema se entretêm a representar o papel de seus salvadores, a ironia torna-se cruel: os portugueses continuam sem casas, mas os responsáveis políticos descobriram uma inesgotável reserva de indignação.

No fim de contas, a extrema-esquerda pode montar todas as tendas que entender. O que não pode é exigir que a democracia se ajoelhe para entrar nelas.

José Costa-Deitado

ReVisões — 23 de Outubro de 2026

Referências que sustentam o artigo

A investigação permite relacionar os textos apresentados com acontecimentos muito recentes:

Quem são e o que querem?

Da reivindicação de uma casa à ambição de deitar abaixo o regime

Há uma pergunta que o jornalistado deveria fazer antes de oferecer a uma tenda o estatuto de tribuna nacional: quem fala, em nome de quem e com que objectivo? A dificuldade em pagar uma renda merece respostas concretas; um programa de destruição das instituições merece perguntas igualmente concretas. Quando se confundem as duas coisas, a informação transforma-se em publicidade e a necessidade de uns passa a servir a ambição política de outros.

Pelo discurso atribuído a  um manifestante em vídeo que circula nas redes, a habitação seria apenas uma parcela de uma crise universal que incluiria o clima, a economia, o racismo e o machismo, tudo explicado por um culpado único: o capitalismo. A solução acompanharia a dimensão do diagnóstico: destruir o Estado, a polícia, o capital, os tribunais e os média, admitindo que o protesto desembocasse numa insurreição violenta. Se é este o programa, convém apresentá-lo ao público por inteiro, em vez de o embrulhar na expressão confortável de “luta pela habitação”.

Não sabemos que representação tem aquele interveniente, nem seria sério atribuir as suas palavras a todos os manifestantes. Mas também não seria sério ignorar o conteúdo político de um discurso apenas porque foi pronunciado à sombra de uma causa social legítima. Quem pede uma renda comportável e quem anuncia a destruição dos tribunais podem ocupar a mesma praça; não estão necessariamente a defender o mesmo projecto.

A biblioteca da revolução de bolso

Apetece perguntar se, entre tantas palavras de ordem, ainda sobra tempo para Camilo, Júlio Diniz ou Herculano — e se Marx, Engels e Lenine são lidos para além das frases que cabem num cartaz. A pergunta é irónica; o problema é sério: um vocabulário revolucionário não substitui o conhecimento da sociedade que se pretende reconstruir. Repetir “capitalismo”, “opressão” e “revolução” pode produzir uma intervenção televisiva; dificilmente produz uma política de habitação.

Circulam, entretanto, manuais de apoio legal e de desobediência civil. A sua existência não demonstra preparação terrorista: conhecer direitos, deveres e consequências legais faz parte da cidadania. A questão política começa quando se pretende converter a preparação para desobedecer numa licença moral para impor decisões aos outros. Conhecer as garantias do Estado de direito não concede o direito de as destruir para quem discorda.

Eis uma pergunta que mereceria tempo de antena: depois de abolidos os tribunais, quem protegeria o cidadão contra a arbitrariedade dos revolucionários? Uma assembleia de braço no ar? Uma comissão escolhida pelos mais persistentes? Ou o porta-voz que, tendo descoberto a causa de todos os males, se considerasse dispensado de prestar contas?

Três gerações e uma promessa quebrada

A minha geração, hoje septuagenária e octogenária, conheceu dificuldades que não precisam de ser inventadas para valorizar o passado. Muitos começaram com pouco e conseguiram melhorar de vida, sustentados pela convicção de que os filhos viveriam melhor. O trabalho, a poupança e o sacrifício tinham um horizonte reconhecível.

É esse horizonte que hoje parece fugir a muitos jovens. Estudar, trabalhar e cumprir as regras já não lhes garante, em condições razoáveis, a possibilidade de sair de casa dos pais ou constituir família. A gravidade desta situação não diminui por terem existido barracas, sobrelotação e pobreza habitacional noutras décadas. O progresso mede-se também pela distância entre aquilo que uma sociedade promete e aquilo que efectivamente permite alcançar.

A interrogação de Helena Matos, nos excertos apresentados, atinge precisamente este ponto: que sacrifícios esperam os jovens quando deixarem de o ser? Defender hoje uma medida porque tem um rótulo generoso pode significar pagar amanhã uma factura incomportável. As pensões precisam de financiamento, a dívida exige serviço e uma casa precisa de ser construída, conservada e disponibilizada. Nenhuma destas obrigações desaparece por aclamação.

Também seria absurdo reduzir uma geração inteira aos acampamentos. Há jovens que protestam, jovens que emigram, jovens que trabalham em silêncio e jovens que procuram nas Novas Direitas respostas que deixaram de encontrar nos partidos tradicionais. Uma praça ocupada não constitui uma amostra representativa da juventude portuguesa, por muito que a realização televisiva encontre nela os seus melhores enquadramentos.

A crise tem história; a propaganda prefere culpados

André Abrantes do Amaral recorda, no excerto citado, que a crise não surgiu do nada: houve escolhas, perda de empresas, empregos e capacidade no sector da construção. Essa perspectiva obriga a discutir decisões e consequências, tarefa bastante mais exigente do que encontrar um inimigo com nome sonante.

A crítica de João Adrião à fabricação de um estado permanente de emergência merece igualmente atenção. Quando tudo é apresentado como catástrofe sem precedente, o debate fica vulnerável à promessa de soluções excepcionais. Mas denunciar o alarmismo exige reconhecer a dificuldade real: quem entrega uma parte esmagadora do salário por um quarto não precisa de propaganda para perceber que tem um problema.

A resposta séria deve disputar as soluções e explicar os seus custos. Quantas casas se podem construir? Que obstáculos atrasam a oferta? Como se protege quem não consegue pagar? Que incentivos permitem recuperar imóveis? O revolucionário de serviço tem uma vantagem televisiva: responde a todas estas perguntas com a mesma palavra — capitalismo — e fica dispensado de apresentar contas.

O PREC com equipamento novo

Miguel Pinheiro questiona o encantamento perante uma suposta novidade política; Miguel Morgado chama a atenção para a facilidade com que o discurso revolucionário encontra acolhimento mediático. Os dois problemas encontram-se quando a ocupação da rua passa a ser apresentada como uma forma superior de representação.

Quem viveu o PREC reconhece o mecanismo: a vanguarda proclama-se intérprete do povo e procura transformar a sua capacidade de mobilização em autoridade sobre os restantes cidadãos. Mudaram os meios de comunicação e algumas bandeiras; permanece a tentação de substituir o voto pela pressão.

É aqui que ganha utilidade o princípio da flutuabilidade política: quando uma força perde influência institucional, pode procurar compensá-la através da mobilização extra-institucional. Trata-se de uma hipótese para interpretar comportamentos, não de uma lei automática; exige observar quem organiza, que objectivos declara e como procura converter descontentamento em poder.

Em França, Macron atribuiu a grupos de ultra-esquerda a intenção de fazer cair a República, distinguindo essa actuação da delinquência. A acusação do Presidente francês deve ser apreciada com os respectivos elementos; não pode ser transferida automaticamente para Portugal. Mas torna difícil continuar a tratar qualquer discussão sobre violência revolucionária como uma fantasia reaccionária.

A pergunta que falta fazer

A liberdade de manifestação merece protecção, incluindo quando incomoda o Governo. Essa liberdade também permite perguntar aos manifestantes o que pretendem fazer com o poder que reclamam. O dever jornalístico começa precisamente onde termina o encanto com o cenário.

Quem anuncia a destruição do Estado deve explicar que autoridade o substituirá; quem ameaça os tribunais deve explicar como assegurará justiça; quem admite a insurreição deve responder pelos meios que propõe. A indignação social não dispensa nenhuma destas perguntas.

Portugal precisa de casas, de salários que permitam pagá-las e de governantes capazes de enfrentar os obstáculos que ajudaram a acumular. Precisa também de perceber quando uma reivindicação está a ser usada para recrutar adeptos de um projecto que vai muito além dela.

Quem promete resolver a falta de casas destruindo os tribunais já revelou a sua prioridade: antes de alojar o povo, quer despejar a democracia.

sábado, 17 de outubro de 2026

os putos, as chavalas e o jornalistado

esqueceram que o Pacote laboral também foi rejeitado com chumbo do Chega 
(...e da Esquerda) 
Só PSD, CDS e IL votaram a favor

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

incancelável!

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

o amigo de Ronaldo escreve-nos ...

O longo comunicado no qual Cristiano Ronaldo justifica o abandono do estágio da selecção é uma criação extraordinária.
É simultaneamente transparente e ínvio, alegadamente humilde e despudoradamente egocêntrico, supostamente conciliador e descaradamente assassino. (…)
Estará Ronaldo a querer regressar à selecção ou a empurrar Jorge Jesus para fora dela? (…)
Segundo a cartilha de CR7, Jorge Jesus deveria admitir que errou “ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo”.
Deveria dizer que deseja “muito o Cristiano na Seleção Nacional”, e depois agradecer-lhe profundamente por ter tido a sua confiança no Al-Nassr e na selecção. (…)
Teria ainda de declarar que Cristiano não recebe lições suas de “Amor a Portugal”.
E tudo isto com o tom certo e a devida contrição, matéria em que Jesus parece ter falhado clamorosamente, e que levou Ronaldo a chamar o seu aviãozinho privado.
Ainda mais espantoso: quando revemos a conferência de imprensa de JJ na Dinamarca, ele refere quase tudo o que CR7 lhe pediu. (…)
Mas nem isso satisfez o ego estratosférico de um jogador que hoje ocupa o lugar 1265º do mundo em valor de mercado, e o 51º em Portugal.
Dir-me-ão: isso é porque ele está muito velho.
Precisamente: está muito velho.
O corpo está nos 41, e Ronaldo agarra-se com unhas e dentes ao estatuto dos 31, quando levava seis anos consecutivos a marcar entre 50 a 60 golos por época. (…)
O comunicado de CR7 é o pedido de desculpas mais arrogante da História dos pedidos de desculpas.
Ele até pode continuar a ser um exemplo para a nossa juventude.
Mas só virado do avesso: um exemplo de tudo aquilo que os nossos filhos não devem fazer.”

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

nova direita por Jérémy Silvares Jerónimo

 

 
(Jérémy Silvares Jerónimo)
https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Febx.sh%2FjCR5Nk%3Ffbclid%3DIwZXh0bgNhZW0CMTAAcGRvZgFicmlkETBWdDdwckgxOWVnaWUzR1Uxc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtQhr5vYOOeptnzSgf6HY_TgBhmmLniGeAVzd7GRYbD77IZ-3QKiH-NOvUQZ_aem_4IoNnPcwIDiXLSkS7b_wdg&h=AUDBdij_PGPeyMkxKKCN9F7osvcl6z6G97S7w48tfxeq7br24FTWBjWyZG77KdNhsHOTVABFM9jGuiSfHEqMMlvEYjmX5NluPIqUIz7SSxGogth4e1eTxTAApNtih6-YKMS9gm9oo53pk34oD0jXyqdBdH6VhAZV&__tn__=R]-R&c[0]=AUDNuij1BPDdY0Wr0JO60p6vZrMrVRbUe8EoDajbPtCCBxQMiSnygpA1fwCFnQ0_FUKH0_FThEsUOX2TqhJerCUxWzF_JMWqvJ0KxjFCBDoRFj-X7ZQ-pw8G5AzApdvZYhewtPoUiTkwcKSKPOvzELjxAml9cF5SbVAcbEn4MPOegPqSVrpJQrbMW4YTS6c&c[1]=AUDNuij1BPDdY0Wr0JO60p6vZrMrVRbUe8EoDajbPtCCBxQMiSnygpA1fwCFnQ0_FUKH0_FThEsUOX2TqhJerCUxWzF_JMWqvJ0KxjFCBDoRFj-X7ZQ-pw8G5AzApdvZYhewtPoUiTkwcKSKPOvzELjxAml9cF5SbVAcbEn4MPOegPqSVrpJQrbMW4YTS6c

terça-feira, 29 de setembro de 2026

a Guerra das Laranjas: A Espanha come Olivença e a França 20 milhões de libras...

 29 de Setembro de 1801 - Tratado de Madrid entre Portugal e a França. Passam hoje 225 anos. Este tratado veio na sequência da última guerra entre Portugal e Espanha, chamada a “Guerra das Laranjas”, em Maio de 1801, que foi um prenúncio das invasões francesas.

A 8 de Junho de 1801, em Badajoz, foram assinados dois tratados de paz, um com Espanha e outro com a França (ambos levarão a data de 6 de Junho). No acordo com Espanha foi decidido que no território de Portugal continental, a Espanha restituía as praças conquistadas, à excepção de Olivença e que Portugal fechava os portos aos navios ingleses. Este tratado foi ratificado pelos respectivos governantes (Príncipe Regente D. João e Carlos IV de Espanha). Já o segundo tratado com a França, negociado pelo irmão de Napoleão, Luciano Bonaparte, foi rejeitado por Napoleão, tendo que se fazer novas negociações que levaram ao tratado que hoje evocamos, de 29 de Setembro, conhecido por Tratado de Madrid, e que agravou as condições para o lado de Portugal, como foi o caso da indemnização a França ter aumentado de 15 para 20 milhões de libras.
Em 1807, a França de Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, dando início à Primeira Invasão Francesa e arrastando o país para a Guerra Peninsular. Em 1808, já instalado no Brasil, o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, declara a nulidade por "justa causa" dos referidos Tratados de Badajoz e de Madrid - eram tratados de paz, assinados em 1801, e França e Espanha voltaram, em 1807, a fazer guerra a Portugal e pactuaram conquistar e dividir o território continental português. Mais tarde, em 1815, no âmbito do Congresso de Viena, ficou estabelecido na acta final que Olivença fazia parte integrante do território português, devendo esta praça ser restituída a Portugal. Em 1817 Espanha assinou e ratificou a Acta Final do Congresso de Viena.
Na imagem, sátira sobre o modo como o mediador do tratado, Manuel Godoy, conduziu Portugal à sua assinatura.

domingo, 13 de setembro de 2026

o fim do sistema semipresidencialista português...

A mais recente análise de Rui Albuquerque destaca as consequências da decisão do António Costa em alterar o sistema semipresidencialista português, estabelecido na Constituição de 1976. Ao favorecer maiorias absolutas eleitorais, a "geringonça" tem concentrado o poder executivo e legislativo, tornando a governabilidade do país mais complexa e desafiadora. É fundamental refletirmos sobre as implicações desta mudança e considerar alternativas que promovam uma gestão mais equilibrada e eficaz do nosso país.

Para uma compreensão mais aprofundada, recomendo a leitura do artigo completo de Rui Albuquerque:
https://www.facebook.com/rui.albuquerque.9237/posts/pfbid02ahiJMPuoUnRniLsMdSJ4nZUNtK6ZGei51gTBHbTBBVnAd3SBcUNr8e5RrTAXJ5jEl

  

sábado, 12 de setembro de 2026

La UE aprieta las tuercas a Sánchez para que acelere la deportación de los migrantes de Ceuta...

Bruselas empieza a perder la paciencia con Pedro Sánchez. La Comisión de Ursula von der Leyen ha hecho suyas las peticiones de Juan Jesús Vivas, que durante su visita esta semana a la capital comunitaria alertó de que Ceuta es una "olla a presión" a punto de estallar, y las convierte ahora en presión sobre Moncloa para que acelere la devolución a Marruecos de quienes todavía permanecen en la ciudad tras el asalto migratorio del 30 y 31 de julio. El último balance del Gobierno contabiliza 4.516 retornos voluntarios y 278 expulsiones. Pero todavía podrían quedar hasta 10.000 personas. Incluso Human Rights Watch denuncia que España debería haber completado ya el procedimiento de triaje, que apenas acaba de arrancar.

Hasta tres comisarios distintos han lanzado la misma advertencia al aprobar la ayuda de emergencia de 115 millones para Ceuta, lo que refleja la desconfianza que sigue imperando en la UE sobre la gestión migratoria de Sánchez. "Nuestro mensaje sigue siendo claro: estamos comprometidos a luchar contra la migración ilegal y garantizar el rápido retorno de quienes permanecen ilegalmente en Ceuta", reclama la vicepresidenta Henna Virkkunen. "La prioridad son los retornos, incluidos los de menores", dice la comisaria para el Mediterráneo, Dubranka Šuica. "Nuestra prioridad sigue siendo clara: quienes no tengan derecho a permanecer deben ser devueltos", insiste el responsable de Migración, Magnus Brunner.

En lo que no ha tenido éxito hasta ahora el presidente de Ceuta es en su petición de una "respuesta contundente" de la UE contra Rabat, al que acusa de estar detrás del ataque migratorio. Tras verse con él, la comisaria Šuica apostó por "reforzar la cooperación con nuestros socios mediterráneos, incluido Marruecos". El ministro José Manuel Albares, en una visita a Bruselas que parecía contraprogramar a Vivas, sostuvo que ni la Comisión ni Frontex detectaron tampoco la avalancha. La primera prueba de fuego de si la UE está dispuesta a endurecer su posición hacia Rabat llegará el próximo jueves, cuando la Eurocámara vote su resolución sobre Ceuta.

La ciudad autónoma ocupará también un lugar destacado en el tradicional discurso sobre el estado de la Unión que Von der Leyen pronunciará el miércoles. La presidenta de la Comisión prevé desarrollar en Estrasburgo el plan de cinco puntos que avanzó en su carta a Sánchez este verano, con dos prioridades: acelerar las deportaciones y establecer sistemas de alerta temprana para evitar otra crisis como la de julio. La alemana anunciará además una ley para prohibir el acceso de los menores a las redes sociales y nuevas medidas para reforzar la resiliencia frente al cambio climático, después de un verano marcado por las olas de calor y los incendios. (Juan Sanhermelando )

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ventos de mudança? Tempestade na Europa?

A presidente da Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, não escondeu a alegria após a vitória folgada deste domingo. O partido de extrema-direita alemão obteve cerca de 44% dos votos nas eleições para o parlamento estadual da Saxónia-Anhalt. A dirigente partidária nacionalizou este resultado e pediu a convocação das eleições federais antecipadas, prevendo que o chanceler Friedrich Merz seja “substituído até ao Natal”.

domingo, 6 de setembro de 2026

Georgia Maloni

Em grande medida, o feito de Meloni situa-se aqui: o sistema político conseguiu finalmente colocar na chefia do governo um líder partidário escolhido por uma maioria (relativa) do povo, à frente de uma coligação de partidos. 
O caso é ainda mais surpreendente se nos recordarmos como, dentro e fora de Itália, Meloni fora caricaturada ou subestimada. Inicialmente, ela era o rosto do regresso horrível do fascismo e do fim da democracia em Itália. Também no plano europeu, a histeria colectiva com a perspectiva de ter uma “extrema-direita” pura e dura na governação de um dos principais Estados-membros da União rapidamente foi substituída pela normalidade com que Meloni construiu alianças confiáveis com a Comissão e vários líderes europeus feitos na forja da “luta contra o fascismo”. Menos acefalamente, Meloni foi sempre tida como uma filha de um deus menor, excluída dos salões elegantes da política italiana, uma mulher não reconhecida por méritos intelectuais, profissionais nem políticos passados. Agora, concluirá o seu primeiro mandato e continua a ser a favorita para vencer as próximas eleições legislativas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Nuno Melo ministro ou Vitor Matos alegado jornalista. Um deles é mentiroso!



... a dimensão [da queixa] há de ser cível e, no momento oportuno, durante o mês de Setembro [dará entrada]."
O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, confirmou que vai processar os deputados André Ventura e Pedro Frazão, dirigentes do partido Chega, por difamação.

A notícia avançada pelo alegado jornalista Vítor Matos do Expresso em 28 de Agosto de 2026 refere que em causa está uma queixa cível para ser submetida após o fim das férias judiciais. O processo foi motivado pela partilha de vídeos nas redes sociais onde os deputados acusavam falsamente o ministro e o Governo de pretenderem recrutar imigrantes para as Forças Armadas sem que estes tivessem a nacionalidade portuguesa regularizada

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

Análise técnica da crítica da ONU ao projecto do Chega

A intervenção do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos não se dirige ao Chega enquanto actor partidário, mas ao conteúdo jurídico do projecto e ao seu potencial impacto nas obrigações internacionais assumidas por Portugal. A ONU actua dentro do seu mandato: monitorizar o cumprimento dos tratados de direitos humanos ratificados pelos Estados e formular recomendações quando detecta risco de incompatibilidade. Não se trata de ingerência política, mas de supervisão jurídica enquadrada nos próprios pactos internacionais.

Do ponto de vista técnico, a crítica da ONU concentra-se em três dimensões principais. Em primeiro lugar, a patologização da identidade de género, decorrente da utilização da expressão “transtorno de identidade de género”1. Após a revisão da classificação internacional de doenças, a transexualidade deixou de ser considerada perturbação mental, e a reintrodução de terminologia patologizante é entendida como potencial violação do princípio da não-discriminação consagrado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Em segundo lugar, a proposta de proibição absoluta de tratamentos médicos relacionados com disforia de género para menores de 18 anos é vista como problemática. Uma proibição total, indiferente à avaliação clínica individual, pode colidir com o direito à saúde e com a Convenção sobre os Direitos da Criança, que exige que o superior interesse da criança seja ponderado caso a caso e que esta participe nas decisões que lhe dizem respeito, em função da sua maturidade.

Em terceiro lugar, o modelo de reconhecimento legal da identidade de género. Os mecanismos internacionais têm vindo a afirmar a autodeterminação como critério adequado, privilegiando procedimentos administrativos simples. A imposição de validação médica obrigatória pode ser qualificada como restrição desproporcionada, potencialmente incompatível com as obrigações assumidas por Portugal em matéria de direitos civis e políticos.

Neste quadro, a ONU não declara que o Chega violou tratados internacionais; sustenta, antes, que a aprovação do projecto, tal como formulado, pode colocar o Estado português em situação de incumprimento das suas responsabilidades internacionais em matéria de direitos humanos.

  1. “transtorno de identidade de género”

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e a Esquerda lhe perde o monopólio

Durante grande parte da modernidade política europeia, a Esquerda construiu uma parte decisiva da sua legitimidade sobre a representação dos trabalhadores. Falava de salários, habitação, emprego, pensões, condições de trabalho, segurança económica e dignidade material.

Nas últimas décadas, porém, uma parte importante da Esquerda deslocou progressivamente o centro do seu discurso para as identidades, a linguagem, a representação simbólica, as minorias e as chamadas causas culturais. Esse deslocamento abriu um espaço político.

E as Novas Direitas começaram a ocupá-lo.

Hoje encontramos partidos de direita a contestar reformas laborais que prolongam excessivamente a vida activa, a defender idades de reforma mais baixas ou carreiras contributivas suficientemente longas, a denunciar privilégios políticos, a falar de pensões, salários, energia, habitação e protecção dos trabalhadores.

Encontramos também uma crítica crescente à globalização, às elites tecnocráticas e a uma economia que parece proteger grandes estruturas enquanto deixa trabalhadores, pequenos empresários e classes médias entregues à insegurança.

Isto significa que a Direita se está a tornar de esquerda?

Não necessariamente.

Pode significar exactamente o contrário: que uma parte da Direita está a regressar à Questão Social.

O trabalhador não pertence à Esquerda

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» ou «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou, em grande medida, essa divisão do trabalho político.

À Esquerda ficaram os trabalhadores, os sindicatos, a protecção social e a linguagem da solidariedade.

À Direita ficaram o mercado, a iniciativa privada, o equilíbrio orçamental e a eficiência económica.

Depois, essa mesma Direita admirou-se por ter perdido culturalmente uma parte significativa dos sectores populares.

É aqui que regressamos a Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando ganha eleições. Conquista-a quando consegue determinar as palavras, os valores e os conceitos através dos quais uma sociedade interpreta a realidade.

Durante décadas, a Esquerda conseguiu fazer acreditar que falar de justiça social era, quase por definição, falar a linguagem da Esquerda.

Mas nenhuma ideologia possui direitos de propriedade sobre os problemas sociais.

O cimento já não é a classe

É neste ponto que a experiência do CHEGA e de outras Novas Direitas europeias se torna particularmente interessante.

Essas forças procuram reunir sectores que a análise política tradicional considerava difíceis de compatibilizar: trabalhadores anteriormente ligados à Esquerda, pequenos empresários esmagados por impostos e burocracia, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é propriamente a consciência de classe.


É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, por algumas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente frequentemente protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem torna-se simples e politicamente poderosa: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado por quem governa, especula, beneficia de privilégios ou vive afastado das consequências das políticas que defende.

Esta mensagem pode ser simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente.

Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha Direita e o moralismo identitário de uma parte da nova Esquerda deixaram progressivamente de ter.

Da luta de classes ao conflito entre povo e elites

Seria, contudo, errado confundir este discurso com o marxismo clássico.

A Nova Direita não adopta necessariamente o antagonismo entre proletariado e capital.

Substitui-o muitas vezes por outra clivagem: povo e elites, produtores e estruturas parasitárias, periferias e centros de poder, governados e classe dirigente.

Não é exactamente luta de classes.

É outra forma de conflito social e político.

E é precisamente por essa via que algumas Novas Direitas procuram conquistar sectores que durante décadas foram considerados património eleitoral da Esquerda.

Leão XIII: a Questão Social antes do monopólio socialista

É aqui que Leão XIII se torna particularmente importante.

A Direita não se torna de esquerda quando volta a falar do trabalhador.

Torna-se novamente social.

Muito antes da actual Esquerda identitária e sem aceitar o socialismo, a Rerum Novarum já colocava no centro da reflexão política a dignidade do trabalho, o salário justo, a protecção da família, o direito de associação dos trabalhadores e os deveres sociais da propriedade.

Leão XIII rejeitou simultaneamente duas reduções.

Por um lado, recusou que a sociedade pudesse ser explicada exclusivamente pela luta de classes.

Por outro, recusou que o trabalhador pudesse ser abandonado à simples mecânica do mercado.

Entre o colectivismo e o individualismo económico colocou a família, as comunidades intermédias, a solidariedade, a responsabilidade social e o bem comum.

Existe, portanto, uma tradição social da Direita que precede muitas das actuais classificações políticas.

Recuperá-la não significa importar a linguagem da Esquerda.

Significa recordar que a defesa da comunidade nacional também inclui quem trabalha, produz, desconta, cria empresas, sustenta famílias e suporta financeiramente o Estado.

Gramsci explica o método; Leão XIII fornece a substância

Gramsci ajuda a compreender como se conquista hegemonia.

Leão XIII recorda por que razão a Questão Social não pertence ao marxismo.

Autores contemporâneos como Benedikt Kaiser procuram precisamente recuperar essa dimensão social para uma direita nacional e comunitária: uma direita que perceba que não pode falar de Nação ignorando quem nela trabalha e vive.

Também em Portugal esta discussão começa a surgir.

Duarte Branquinho, entre outros, tem insistido na necessidade de uma direita que compreenda que a batalha política é também cultural, social e metapolítica.

Uma direita nacional que abandone a Questão Social acabará, mais cedo ou mais tarde, por abandonar o próprio povo que afirma representar.

A velha Direita esqueceu a comunidade

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, os sindicatos aos comunistas, a cultura aos progressistas e a solidariedade ao Estado burocrático.

Contentou-se frequentemente em defender o mercado.

E esqueceu-se de defender a comunidade.

Mas a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira, soberania e memória.

É também protecção entre gerações.

É dignidade do trabalho.

É justiça contributiva.

É segurança económica.

É reconhecimento daqueles que sustentam diariamente a comunidade.

Se uma direita pretende verdadeiramente apresentar-se como nacional, não pode ignorar aqueles que constituem materialmente essa mesma Nação.

Quando a hegemonia deixa de ser propriedade

Uma coisa começa, por isso, a parecer evidente.

A Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.

Julgou que «trabalhador», «salário», «pensão», «justiça social», «desigualdade» e «protecção» lhe pertenciam por herança política.

Não pertencem.

São problemas humanos, sociais e políticos anteriores às ideologias que deles se apropriaram.

A verdadeira ruptura poderá estar precisamente aqui.

Não se trata apenas de o CHEGA ou outras Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para conquistar eleitores.

Trata-se de algo potencialmente mais profundo: retirar a Questão Social à interpretação exclusivamente marxista e integrá-la numa visão nacional, social e comunitária da Direita.

Se essa transformação se consolidar, a mudança não será apenas eleitoral.

Será cultural.

E quando uma força política consegue mudar o significado das palavras através das quais uma sociedade pensa os seus problemas, já começou a disputar aquilo que Gramsci considerava decisivo: a própria hegemonia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"O 25 de Abril, deveria ser comemorado nas ex-Colónias! Porquê General? (Perguntava o Barata Feio)

... Porque 0 25 de Abril foi uma bênção para os movimentos de libertação nas ex-colónias! Como? Estávamos derrotados militarmente nas 3 frentes, Angola, Moçambique e na Guiné apesar de estar mais complicado! Em Angola os movimentos foram expulsos do território Angolano e raramente conseguimos fazer incursões vindas do exterior. Perdemos a nossa principal base nos Dembos, a nossa 1 região militar dentro de Angola. Desde que o General Costa Gomes veio dos altos estudos militares da Nato nos estados unidos, implementou um esquema de guerra que não conseguíamos contrariar. Os portugueses passaram a fazer guerrilha contra nós, e os meios, tácticas e as forças empregues, deixaram-nos atados de mãos e pés. Tinham-mos 24h por dia as forças especiais portuguesas à nossa caça, quando éramos detectados apareciam os heli-canhões que nos destruíam e de tal maneira que fomos expulsos de todo o território Angolano. Conseguíamos fazer alguma incursões a partir da Zâmbia com muita dificuldade, do Congo tínhamos sido expulsos por Mobutu, estava um caos total, se sabíamos que os flechas estavam na nossa zona então era a debandada total. A continuar assim, mais 1 a 2 anos e era a derrota total e tínhamos que fazer Negociações Mais Serias com Marcelo Caetano do que aquelas que já tínhamos tido. Teríamos que aceitar a derrota e fazer a Independência nas condições que Marcelo Caetano ditava. Agostinho Neto já estava preparado para aceitar! A tácita de Costa Gomes foi exportada para Moçambique e Guiné. Moçambique era outra derrota, a Frelimo estava cercada na Gorungosa, já havia militares à fome e sem munições. As vias de abastecimento vindas da Zâmbia estavam completamente cortadas. Nada chegava de abastecimentos! Na Guiné, era o caminho também para uma derrota! Quando o Paigc teve a ousadia de ocupar uma zona no interior Sul da Guiné, as Colinas do Boé, e deslocou um efectivo brutal para lá e esse foi o erro táctico. Ficaram cercados. Os bombardeamentos e ataques eram constantes, a contra guerrilha era brutalmente eficaz os abastecimentos quase caíram a zero. Foi mesmo uma bênção o 25 de Abril de 1974 em Portugal para os movimentos de Libertação. ( Barata Feio afirma, desconhecia por completo que o cenário da guerra colonial fosse assim como descreve.)"

domingo, 26 de julho de 2026

uma tensão ideológica que o jornalistado e o comentariado raramente explicitam com rigor...

A presença do CHEGA no sistema partidário português tem vindo a revelar uma tensão ideológica que o jornalismo e o comentariado raramente explicitam com rigor: a coexistência, no mesmo partido, de um discurso de direita nacional‑securitária com um conjunto de posições que, em termos clássicos, pertencem ao repertório da esquerda social e laboral. Esta ambiguidade não é um acidente; é um dispositivo político.

Quando o CHEGA vota contra reformas laborais que prolongam a vida activa, defendendo a reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, aproxima‑se objectivamente de bandeiras históricas do PCP e do BE. A retórica de defesa do trabalhador, contra um Estado e uma elite que “roubam” anos de vida e de descanso, inscreve‑se na gramática da luta de classes, mesmo quando o partido recusa essa etiqueta. O mesmo sucede com a crítica às subvenções vitalícias e aos privilégios da classe política: trata‑se de um ataque à “casta” que, embora envolto em linguagem moralista e nacionalista, coincide com a denúncia da desigualdade e da injustiça que a esquerda tradicional sempre reivindicou.

A questão da energia torna esta convergência ainda mais nítida. A defesa da redução drástica, ou mesmo da isenção, do IVA na electricidade parte da ideia de que a energia é um bem essencial e que o seu custo é um factor de opressão económica sobre as famílias. Esta leitura é indistinguível, no plano material, das propostas de PCP e BE, que há décadas denunciam a pobreza energética e reclamam intervenção pública nos sectores estratégicos. O CHEGA apropria‑se deste terreno, mas reconfigura‑o: em vez de o inscrever numa crítica sistémica ao capitalismo, insere‑o numa narrativa de traição nacional e de corrupção das elites.
O proteccionismo económico e a crítica à globalização reforçam esta ambivalência. Ao denunciar a globalização, as “elites tecnocráticas” e a desindustrialização, o CHEGA fala para um eleitorado que, durante décadas, foi socializado politicamente pela esquerda comunista e socialista. O operariado das periferias urbanas, os sectores precarizados e os territórios que se sentiram abandonados pela modernização liberal encontram, neste discurso, uma continuidade afectiva: a ideia de que alguém, finalmente, os defende contra um sistema que os sacrifica. A diferença está no enquadramento: onde PCP e BE veem capitalismo e luta de classes, o CHEGA vê decadência nacional, insegurança e perda de identidade.

É precisamente aqui que se torna visível o ponto cego do comentariado. Ao insistir em classificar o CHEGA como “extrema‑direita” em bloco, muitos analistas ignoram que uma parte significativa da sua base programática é construída sobre temas e reflexos da esquerda social. O partido funciona como um vector de deslocação simbólica: retira à esquerda o monopólio da linguagem da injustiça e da desigualdade, e reinscreve essa linguagem num horizonte nacional‑punitivo. O resultado é um híbrido ideológico que confunde as categorias tradicionais de análise.

Esta hibridez tem consequências estratégicas. Ao ocupar simultaneamente o espaço da direita securitária e o da esquerda social, o CHEGA apresenta‑se como partido de protesto total: contra o crime, contra a corrupção, contra a globalização, contra a precariedade, contra a “casta”. PCP e BE, por seu lado, mantêm uma coerência ideológica clássica, mas vêem o seu terreno social ser erodido por um concorrente que fala a língua da revolta com uma gramática emocional mais agressiva e mediaticamente eficaz.

Para compreender o fenómeno, é necessário abandonar a comodidade das etiquetas rígidas. O CHEGA não é apenas um partido de direita radical; é um partido que recicla motivos da esquerda social e os reorienta para um projecto de ordem, punição e identidade nacional. A sua força reside precisamente nessa capacidade de combinar, num mesmo discurso, a promessa de protecção social e a promessa de endurecimento punitivo. É neste cruzamento que se joga uma parte decisiva da recomposição do campo político português.

Um olhar intelectual sério sobre o CHEGA exige, portanto, reconhecer que muitas das suas posições “impróprias para um partido de direita” não são lapsos, mas instrumentos deliberados de captura de eleitorado e de deslocação simbólica. A esquerda que ignora este processo, reduzindo o partido a uma caricatura de extrema‑direita, arrisca‑se a perder não apenas votos, mas o próprio monopólio histórico sobre a linguagem da justiça social.

sábado, 25 de julho de 2026

O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”

Quando Rui Afonso declarou que, “se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses”, não estava apenas a produzir uma frase parlamentar feliz. Estava a revelar uma mudança estratégica mais profunda: a tentativa do CHEGA de disputar à esquerda o terreno social, sem abandonar a identidade nacional.

A mesma lógica apareceu no voto ao lado do PS no projecto que obriga o Estado a pagar o prémio salarial de devolução de propinas aos recém-formados, acumulável com o IRS Jovem. Para os liberais de cartilha, isto é horror orçamental. Para a direita antiga, é pecado ideológico. Para André Ventura, é simplesmente política: falar aos jovens, aos trabalhadores, aos reformados, aos antigos eleitores socialistas e comunistas, cansados de décadas de promessas, impostos, moralismo e patranhas.

É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.

O CHEGA percebeu, talvez antes do PPD/PSD, que uma direita meramente contabilística não chega ao povo. Falar de défice é necessário; falar de vida concreta é indispensável. A Nova Direita não quer ser apenas uma direita de patrões, gestores, comentadores e fiscalistas. Quer disputar o pensionista, o jovem licenciado, o trabalhador descontente, o pequeno contribuinte e o português que já não acredita no socialismo, mas também não se comove com sermões liberais sobre a virtude do sacrifício eterno.

Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.

No fundo, Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.