quarta-feira, 30 de setembro de 2026

nova direita por Jérémy Silvares Jerónimo

 

 
(Jérémy Silvares Jerónimo)
https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Febx.sh%2FjCR5Nk%3Ffbclid%3DIwZXh0bgNhZW0CMTAAcGRvZgFicmlkETBWdDdwckgxOWVnaWUzR1Uxc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtQhr5vYOOeptnzSgf6HY_TgBhmmLniGeAVzd7GRYbD77IZ-3QKiH-NOvUQZ_aem_4IoNnPcwIDiXLSkS7b_wdg&h=AUDBdij_PGPeyMkxKKCN9F7osvcl6z6G97S7w48tfxeq7br24FTWBjWyZG77KdNhsHOTVABFM9jGuiSfHEqMMlvEYjmX5NluPIqUIz7SSxGogth4e1eTxTAApNtih6-YKMS9gm9oo53pk34oD0jXyqdBdH6VhAZV&__tn__=R]-R&c[0]=AUDNuij1BPDdY0Wr0JO60p6vZrMrVRbUe8EoDajbPtCCBxQMiSnygpA1fwCFnQ0_FUKH0_FThEsUOX2TqhJerCUxWzF_JMWqvJ0KxjFCBDoRFj-X7ZQ-pw8G5AzApdvZYhewtPoUiTkwcKSKPOvzELjxAml9cF5SbVAcbEn4MPOegPqSVrpJQrbMW4YTS6c&c[1]=AUDNuij1BPDdY0Wr0JO60p6vZrMrVRbUe8EoDajbPtCCBxQMiSnygpA1fwCFnQ0_FUKH0_FThEsUOX2TqhJerCUxWzF_JMWqvJ0KxjFCBDoRFj-X7ZQ-pw8G5AzApdvZYhewtPoUiTkwcKSKPOvzELjxAml9cF5SbVAcbEn4MPOegPqSVrpJQrbMW4YTS6c

terça-feira, 29 de setembro de 2026

a Guerra das Laranjas: A Espanha come Olivença e a França 20 milhões de libras...

 29 de Setembro de 1801 - Tratado de Madrid entre Portugal e a França. Passam hoje 225 anos. Este tratado veio na sequência da última guerra entre Portugal e Espanha, chamada a “Guerra das Laranjas”, em Maio de 1801, que foi um prenúncio das invasões francesas.

A 8 de Junho de 1801, em Badajoz, foram assinados dois tratados de paz, um com Espanha e outro com a França (ambos levarão a data de 6 de Junho). No acordo com Espanha foi decidido que no território de Portugal continental, a Espanha restituía as praças conquistadas, à excepção de Olivença e que Portugal fechava os portos aos navios ingleses. Este tratado foi ratificado pelos respectivos governantes (Príncipe Regente D. João e Carlos IV de Espanha). Já o segundo tratado com a França, negociado pelo irmão de Napoleão, Luciano Bonaparte, foi rejeitado por Napoleão, tendo que se fazer novas negociações que levaram ao tratado que hoje evocamos, de 29 de Setembro, conhecido por Tratado de Madrid, e que agravou as condições para o lado de Portugal, como foi o caso da indemnização a França ter aumentado de 15 para 20 milhões de libras.
Em 1807, a França de Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, dando início à Primeira Invasão Francesa e arrastando o país para a Guerra Peninsular. Em 1808, já instalado no Brasil, o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, declara a nulidade por "justa causa" dos referidos Tratados de Badajoz e de Madrid - eram tratados de paz, assinados em 1801, e França e Espanha voltaram, em 1807, a fazer guerra a Portugal e pactuaram conquistar e dividir o território continental português. Mais tarde, em 1815, no âmbito do Congresso de Viena, ficou estabelecido na acta final que Olivença fazia parte integrante do território português, devendo esta praça ser restituída a Portugal. Em 1817 Espanha assinou e ratificou a Acta Final do Congresso de Viena.
Na imagem, sátira sobre o modo como o mediador do tratado, Manuel Godoy, conduziu Portugal à sua assinatura.

domingo, 13 de setembro de 2026

o fim do sistema semipresidencialista português...

A mais recente análise de Rui Albuquerque destaca as consequências da decisão do António Costa em alterar o sistema semipresidencialista português, estabelecido na Constituição de 1976. Ao favorecer maiorias absolutas eleitorais, a "geringonça" tem concentrado o poder executivo e legislativo, tornando a governabilidade do país mais complexa e desafiadora. É fundamental refletirmos sobre as implicações desta mudança e considerar alternativas que promovam uma gestão mais equilibrada e eficaz do nosso país.

Para uma compreensão mais aprofundada, recomendo a leitura do artigo completo de Rui Albuquerque:
https://www.facebook.com/rui.albuquerque.9237/posts/pfbid02ahiJMPuoUnRniLsMdSJ4nZUNtK6ZGei51gTBHbTBBVnAd3SBcUNr8e5RrTAXJ5jEl

  

sábado, 12 de setembro de 2026

La UE aprieta las tuercas a Sánchez para que acelere la deportación de los migrantes de Ceuta...

Bruselas empieza a perder la paciencia con Pedro Sánchez. La Comisión de Ursula von der Leyen ha hecho suyas las peticiones de Juan Jesús Vivas, que durante su visita esta semana a la capital comunitaria alertó de que Ceuta es una "olla a presión" a punto de estallar, y las convierte ahora en presión sobre Moncloa para que acelere la devolución a Marruecos de quienes todavía permanecen en la ciudad tras el asalto migratorio del 30 y 31 de julio. El último balance del Gobierno contabiliza 4.516 retornos voluntarios y 278 expulsiones. Pero todavía podrían quedar hasta 10.000 personas. Incluso Human Rights Watch denuncia que España debería haber completado ya el procedimiento de triaje, que apenas acaba de arrancar.

Hasta tres comisarios distintos han lanzado la misma advertencia al aprobar la ayuda de emergencia de 115 millones para Ceuta, lo que refleja la desconfianza que sigue imperando en la UE sobre la gestión migratoria de Sánchez. "Nuestro mensaje sigue siendo claro: estamos comprometidos a luchar contra la migración ilegal y garantizar el rápido retorno de quienes permanecen ilegalmente en Ceuta", reclama la vicepresidenta Henna Virkkunen. "La prioridad son los retornos, incluidos los de menores", dice la comisaria para el Mediterráneo, Dubranka Šuica. "Nuestra prioridad sigue siendo clara: quienes no tengan derecho a permanecer deben ser devueltos", insiste el responsable de Migración, Magnus Brunner.

En lo que no ha tenido éxito hasta ahora el presidente de Ceuta es en su petición de una "respuesta contundente" de la UE contra Rabat, al que acusa de estar detrás del ataque migratorio. Tras verse con él, la comisaria Šuica apostó por "reforzar la cooperación con nuestros socios mediterráneos, incluido Marruecos". El ministro José Manuel Albares, en una visita a Bruselas que parecía contraprogramar a Vivas, sostuvo que ni la Comisión ni Frontex detectaron tampoco la avalancha. La primera prueba de fuego de si la UE está dispuesta a endurecer su posición hacia Rabat llegará el próximo jueves, cuando la Eurocámara vote su resolución sobre Ceuta.

La ciudad autónoma ocupará también un lugar destacado en el tradicional discurso sobre el estado de la Unión que Von der Leyen pronunciará el miércoles. La presidenta de la Comisión prevé desarrollar en Estrasburgo el plan de cinco puntos que avanzó en su carta a Sánchez este verano, con dos prioridades: acelerar las deportaciones y establecer sistemas de alerta temprana para evitar otra crisis como la de julio. La alemana anunciará además una ley para prohibir el acceso de los menores a las redes sociales y nuevas medidas para reforzar la resiliencia frente al cambio climático, después de un verano marcado por las olas de calor y los incendios. (Juan Sanhermelando )

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ventos de mudança? Tempestade na Europa?

A presidente da Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, não escondeu a alegria após a vitória folgada deste domingo. O partido de extrema-direita alemão obteve cerca de 44% dos votos nas eleições para o parlamento estadual da Saxónia-Anhalt. A dirigente partidária nacionalizou este resultado e pediu a convocação das eleições federais antecipadas, prevendo que o chanceler Friedrich Merz seja “substituído até ao Natal”.

domingo, 6 de setembro de 2026

Georgia Maloni

Em grande medida, o feito de Meloni situa-se aqui: o sistema político conseguiu finalmente colocar na chefia do governo um líder partidário escolhido por uma maioria (relativa) do povo, à frente de uma coligação de partidos. 
O caso é ainda mais surpreendente se nos recordarmos como, dentro e fora de Itália, Meloni fora caricaturada ou subestimada. Inicialmente, ela era o rosto do regresso horrível do fascismo e do fim da democracia em Itália. Também no plano europeu, a histeria colectiva com a perspectiva de ter uma “extrema-direita” pura e dura na governação de um dos principais Estados-membros da União rapidamente foi substituída pela normalidade com que Meloni construiu alianças confiáveis com a Comissão e vários líderes europeus feitos na forja da “luta contra o fascismo”. Menos acefalamente, Meloni foi sempre tida como uma filha de um deus menor, excluída dos salões elegantes da política italiana, uma mulher não reconhecida por méritos intelectuais, profissionais nem políticos passados. Agora, concluirá o seu primeiro mandato e continua a ser a favorita para vencer as próximas eleições legislativas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Nuno Melo ministro ou Vitor Matos alegado jornalista. Um deles é mentiroso!



... a dimensão [da queixa] há de ser cível e, no momento oportuno, durante o mês de Setembro [dará entrada]."
O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, confirmou que vai processar os deputados André Ventura e Pedro Frazão, dirigentes do partido Chega, por difamação.

A notícia avançada pelo alegado jornalista Vítor Matos do Expresso em 28 de Agosto de 2026 refere que em causa está uma queixa cível para ser submetida após o fim das férias judiciais. O processo foi motivado pela partilha de vídeos nas redes sociais onde os deputados acusavam falsamente o ministro e o Governo de pretenderem recrutar imigrantes para as Forças Armadas sem que estes tivessem a nacionalidade portuguesa regularizada

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

Análise técnica da crítica da ONU ao projecto do Chega

A intervenção do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos não se dirige ao Chega enquanto actor partidário, mas ao conteúdo jurídico do projecto e ao seu potencial impacto nas obrigações internacionais assumidas por Portugal. A ONU actua dentro do seu mandato: monitorizar o cumprimento dos tratados de direitos humanos ratificados pelos Estados e formular recomendações quando detecta risco de incompatibilidade. Não se trata de ingerência política, mas de supervisão jurídica enquadrada nos próprios pactos internacionais.

Do ponto de vista técnico, a crítica da ONU concentra-se em três dimensões principais. Em primeiro lugar, a patologização da identidade de género, decorrente da utilização da expressão “transtorno de identidade de género”1. Após a revisão da classificação internacional de doenças, a transexualidade deixou de ser considerada perturbação mental, e a reintrodução de terminologia patologizante é entendida como potencial violação do princípio da não-discriminação consagrado no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

Em segundo lugar, a proposta de proibição absoluta de tratamentos médicos relacionados com disforia de género para menores de 18 anos é vista como problemática. Uma proibição total, indiferente à avaliação clínica individual, pode colidir com o direito à saúde e com a Convenção sobre os Direitos da Criança, que exige que o superior interesse da criança seja ponderado caso a caso e que esta participe nas decisões que lhe dizem respeito, em função da sua maturidade.

Em terceiro lugar, o modelo de reconhecimento legal da identidade de género. Os mecanismos internacionais têm vindo a afirmar a autodeterminação como critério adequado, privilegiando procedimentos administrativos simples. A imposição de validação médica obrigatória pode ser qualificada como restrição desproporcionada, potencialmente incompatível com as obrigações assumidas por Portugal em matéria de direitos civis e políticos.

Neste quadro, a ONU não declara que o Chega violou tratados internacionais; sustenta, antes, que a aprovação do projecto, tal como formulado, pode colocar o Estado português em situação de incumprimento das suas responsabilidades internacionais em matéria de direitos humanos.

  1. “transtorno de identidade de género”

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e a Esquerda lhe perde o monopólio

Durante grande parte da modernidade política europeia, a Esquerda construiu uma parte decisiva da sua legitimidade sobre a representação dos trabalhadores. Falava de salários, habitação, emprego, pensões, condições de trabalho, segurança económica e dignidade material.

Nas últimas décadas, porém, uma parte importante da Esquerda deslocou progressivamente o centro do seu discurso para as identidades, a linguagem, a representação simbólica, as minorias e as chamadas causas culturais. Esse deslocamento abriu um espaço político.

E as Novas Direitas começaram a ocupá-lo.

Hoje encontramos partidos de direita a contestar reformas laborais que prolongam excessivamente a vida activa, a defender idades de reforma mais baixas ou carreiras contributivas suficientemente longas, a denunciar privilégios políticos, a falar de pensões, salários, energia, habitação e protecção dos trabalhadores.

Encontramos também uma crítica crescente à globalização, às elites tecnocráticas e a uma economia que parece proteger grandes estruturas enquanto deixa trabalhadores, pequenos empresários e classes médias entregues à insegurança.

Isto significa que a Direita se está a tornar de esquerda?

Não necessariamente.

Pode significar exactamente o contrário: que uma parte da Direita está a regressar à Questão Social.

O trabalhador não pertence à Esquerda

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» ou «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou, em grande medida, essa divisão do trabalho político.

À Esquerda ficaram os trabalhadores, os sindicatos, a protecção social e a linguagem da solidariedade.

À Direita ficaram o mercado, a iniciativa privada, o equilíbrio orçamental e a eficiência económica.

Depois, essa mesma Direita admirou-se por ter perdido culturalmente uma parte significativa dos sectores populares.

É aqui que regressamos a Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando ganha eleições. Conquista-a quando consegue determinar as palavras, os valores e os conceitos através dos quais uma sociedade interpreta a realidade.

Durante décadas, a Esquerda conseguiu fazer acreditar que falar de justiça social era, quase por definição, falar a linguagem da Esquerda.

Mas nenhuma ideologia possui direitos de propriedade sobre os problemas sociais.

O cimento já não é a classe

É neste ponto que a experiência do CHEGA e de outras Novas Direitas europeias se torna particularmente interessante.

Essas forças procuram reunir sectores que a análise política tradicional considerava difíceis de compatibilizar: trabalhadores anteriormente ligados à Esquerda, pequenos empresários esmagados por impostos e burocracia, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é propriamente a consciência de classe.


É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, por algumas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente frequentemente protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem torna-se simples e politicamente poderosa: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado por quem governa, especula, beneficia de privilégios ou vive afastado das consequências das políticas que defende.

Esta mensagem pode ser simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente.

Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha Direita e o moralismo identitário de uma parte da nova Esquerda deixaram progressivamente de ter.

Da luta de classes ao conflito entre povo e elites

Seria, contudo, errado confundir este discurso com o marxismo clássico.

A Nova Direita não adopta necessariamente o antagonismo entre proletariado e capital.

Substitui-o muitas vezes por outra clivagem: povo e elites, produtores e estruturas parasitárias, periferias e centros de poder, governados e classe dirigente.

Não é exactamente luta de classes.

É outra forma de conflito social e político.

E é precisamente por essa via que algumas Novas Direitas procuram conquistar sectores que durante décadas foram considerados património eleitoral da Esquerda.

Leão XIII: a Questão Social antes do monopólio socialista

É aqui que Leão XIII se torna particularmente importante.

A Direita não se torna de esquerda quando volta a falar do trabalhador.

Torna-se novamente social.

Muito antes da actual Esquerda identitária e sem aceitar o socialismo, a Rerum Novarum já colocava no centro da reflexão política a dignidade do trabalho, o salário justo, a protecção da família, o direito de associação dos trabalhadores e os deveres sociais da propriedade.

Leão XIII rejeitou simultaneamente duas reduções.

Por um lado, recusou que a sociedade pudesse ser explicada exclusivamente pela luta de classes.

Por outro, recusou que o trabalhador pudesse ser abandonado à simples mecânica do mercado.

Entre o colectivismo e o individualismo económico colocou a família, as comunidades intermédias, a solidariedade, a responsabilidade social e o bem comum.

Existe, portanto, uma tradição social da Direita que precede muitas das actuais classificações políticas.

Recuperá-la não significa importar a linguagem da Esquerda.

Significa recordar que a defesa da comunidade nacional também inclui quem trabalha, produz, desconta, cria empresas, sustenta famílias e suporta financeiramente o Estado.

Gramsci explica o método; Leão XIII fornece a substância

Gramsci ajuda a compreender como se conquista hegemonia.

Leão XIII recorda por que razão a Questão Social não pertence ao marxismo.

Autores contemporâneos como Benedikt Kaiser procuram precisamente recuperar essa dimensão social para uma direita nacional e comunitária: uma direita que perceba que não pode falar de Nação ignorando quem nela trabalha e vive.

Também em Portugal esta discussão começa a surgir.

Duarte Branquinho, entre outros, tem insistido na necessidade de uma direita que compreenda que a batalha política é também cultural, social e metapolítica.

Uma direita nacional que abandone a Questão Social acabará, mais cedo ou mais tarde, por abandonar o próprio povo que afirma representar.

A velha Direita esqueceu a comunidade

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, os sindicatos aos comunistas, a cultura aos progressistas e a solidariedade ao Estado burocrático.

Contentou-se frequentemente em defender o mercado.

E esqueceu-se de defender a comunidade.

Mas a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira, soberania e memória.

É também protecção entre gerações.

É dignidade do trabalho.

É justiça contributiva.

É segurança económica.

É reconhecimento daqueles que sustentam diariamente a comunidade.

Se uma direita pretende verdadeiramente apresentar-se como nacional, não pode ignorar aqueles que constituem materialmente essa mesma Nação.

Quando a hegemonia deixa de ser propriedade

Uma coisa começa, por isso, a parecer evidente.

A Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.

Julgou que «trabalhador», «salário», «pensão», «justiça social», «desigualdade» e «protecção» lhe pertenciam por herança política.

Não pertencem.

São problemas humanos, sociais e políticos anteriores às ideologias que deles se apropriaram.

A verdadeira ruptura poderá estar precisamente aqui.

Não se trata apenas de o CHEGA ou outras Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para conquistar eleitores.

Trata-se de algo potencialmente mais profundo: retirar a Questão Social à interpretação exclusivamente marxista e integrá-la numa visão nacional, social e comunitária da Direita.

Se essa transformação se consolidar, a mudança não será apenas eleitoral.

Será cultural.

E quando uma força política consegue mudar o significado das palavras através das quais uma sociedade pensa os seus problemas, já começou a disputar aquilo que Gramsci considerava decisivo: a própria hegemonia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"O 25 de Abril, deveria ser comemorado nas ex-Colónias! Porquê General? (Perguntava o Barata Feio)

... Porque 0 25 de Abril foi uma bênção para os movimentos de libertação nas ex-colónias! Como? Estávamos derrotados militarmente nas 3 frentes, Angola, Moçambique e na Guiné apesar de estar mais complicado! Em Angola os movimentos foram expulsos do território Angolano e raramente conseguimos fazer incursões vindas do exterior. Perdemos a nossa principal base nos Dembos, a nossa 1 região militar dentro de Angola. Desde que o General Costa Gomes veio dos altos estudos militares da Nato nos estados unidos, implementou um esquema de guerra que não conseguíamos contrariar. Os portugueses passaram a fazer guerrilha contra nós, e os meios, tácticas e as forças empregues, deixaram-nos atados de mãos e pés. Tinham-mos 24h por dia as forças especiais portuguesas à nossa caça, quando éramos detectados apareciam os heli-canhões que nos destruíam e de tal maneira que fomos expulsos de todo o território Angolano. Conseguíamos fazer alguma incursões a partir da Zâmbia com muita dificuldade, do Congo tínhamos sido expulsos por Mobutu, estava um caos total, se sabíamos que os flechas estavam na nossa zona então era a debandada total. A continuar assim, mais 1 a 2 anos e era a derrota total e tínhamos que fazer Negociações Mais Serias com Marcelo Caetano do que aquelas que já tínhamos tido. Teríamos que aceitar a derrota e fazer a Independência nas condições que Marcelo Caetano ditava. Agostinho Neto já estava preparado para aceitar! A tácita de Costa Gomes foi exportada para Moçambique e Guiné. Moçambique era outra derrota, a Frelimo estava cercada na Gorungosa, já havia militares à fome e sem munições. As vias de abastecimento vindas da Zâmbia estavam completamente cortadas. Nada chegava de abastecimentos! Na Guiné, era o caminho também para uma derrota! Quando o Paigc teve a ousadia de ocupar uma zona no interior Sul da Guiné, as Colinas do Boé, e deslocou um efectivo brutal para lá e esse foi o erro táctico. Ficaram cercados. Os bombardeamentos e ataques eram constantes, a contra guerrilha era brutalmente eficaz os abastecimentos quase caíram a zero. Foi mesmo uma bênção o 25 de Abril de 1974 em Portugal para os movimentos de Libertação. ( Barata Feio afirma, desconhecia por completo que o cenário da guerra colonial fosse assim como descreve.)"

domingo, 26 de julho de 2026

uma tensão ideológica que o jornalistado e o comentariado raramente explicitam com rigor...

A presença do CHEGA no sistema partidário português tem vindo a revelar uma tensão ideológica que o jornalismo e o comentariado raramente explicitam com rigor: a coexistência, no mesmo partido, de um discurso de direita nacional‑securitária com um conjunto de posições que, em termos clássicos, pertencem ao repertório da esquerda social e laboral. Esta ambiguidade não é um acidente; é um dispositivo político.

Quando o CHEGA vota contra reformas laborais que prolongam a vida activa, defendendo a reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, aproxima‑se objectivamente de bandeiras históricas do PCP e do BE. A retórica de defesa do trabalhador, contra um Estado e uma elite que “roubam” anos de vida e de descanso, inscreve‑se na gramática da luta de classes, mesmo quando o partido recusa essa etiqueta. O mesmo sucede com a crítica às subvenções vitalícias e aos privilégios da classe política: trata‑se de um ataque à “casta” que, embora envolto em linguagem moralista e nacionalista, coincide com a denúncia da desigualdade e da injustiça que a esquerda tradicional sempre reivindicou.

A questão da energia torna esta convergência ainda mais nítida. A defesa da redução drástica, ou mesmo da isenção, do IVA na electricidade parte da ideia de que a energia é um bem essencial e que o seu custo é um factor de opressão económica sobre as famílias. Esta leitura é indistinguível, no plano material, das propostas de PCP e BE, que há décadas denunciam a pobreza energética e reclamam intervenção pública nos sectores estratégicos. O CHEGA apropria‑se deste terreno, mas reconfigura‑o: em vez de o inscrever numa crítica sistémica ao capitalismo, insere‑o numa narrativa de traição nacional e de corrupção das elites.
O proteccionismo económico e a crítica à globalização reforçam esta ambivalência. Ao denunciar a globalização, as “elites tecnocráticas” e a desindustrialização, o CHEGA fala para um eleitorado que, durante décadas, foi socializado politicamente pela esquerda comunista e socialista. O operariado das periferias urbanas, os sectores precarizados e os territórios que se sentiram abandonados pela modernização liberal encontram, neste discurso, uma continuidade afectiva: a ideia de que alguém, finalmente, os defende contra um sistema que os sacrifica. A diferença está no enquadramento: onde PCP e BE veem capitalismo e luta de classes, o CHEGA vê decadência nacional, insegurança e perda de identidade.

É precisamente aqui que se torna visível o ponto cego do comentariado. Ao insistir em classificar o CHEGA como “extrema‑direita” em bloco, muitos analistas ignoram que uma parte significativa da sua base programática é construída sobre temas e reflexos da esquerda social. O partido funciona como um vector de deslocação simbólica: retira à esquerda o monopólio da linguagem da injustiça e da desigualdade, e reinscreve essa linguagem num horizonte nacional‑punitivo. O resultado é um híbrido ideológico que confunde as categorias tradicionais de análise.

Esta hibridez tem consequências estratégicas. Ao ocupar simultaneamente o espaço da direita securitária e o da esquerda social, o CHEGA apresenta‑se como partido de protesto total: contra o crime, contra a corrupção, contra a globalização, contra a precariedade, contra a “casta”. PCP e BE, por seu lado, mantêm uma coerência ideológica clássica, mas vêem o seu terreno social ser erodido por um concorrente que fala a língua da revolta com uma gramática emocional mais agressiva e mediaticamente eficaz.

Para compreender o fenómeno, é necessário abandonar a comodidade das etiquetas rígidas. O CHEGA não é apenas um partido de direita radical; é um partido que recicla motivos da esquerda social e os reorienta para um projecto de ordem, punição e identidade nacional. A sua força reside precisamente nessa capacidade de combinar, num mesmo discurso, a promessa de protecção social e a promessa de endurecimento punitivo. É neste cruzamento que se joga uma parte decisiva da recomposição do campo político português.

Um olhar intelectual sério sobre o CHEGA exige, portanto, reconhecer que muitas das suas posições “impróprias para um partido de direita” não são lapsos, mas instrumentos deliberados de captura de eleitorado e de deslocação simbólica. A esquerda que ignora este processo, reduzindo o partido a uma caricatura de extrema‑direita, arrisca‑se a perder não apenas votos, mas o próprio monopólio histórico sobre a linguagem da justiça social.

sábado, 25 de julho de 2026

O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”

Quando Rui Afonso declarou que, “se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses”, não estava apenas a produzir uma frase parlamentar feliz. Estava a revelar uma mudança estratégica mais profunda: a tentativa do CHEGA de disputar à esquerda o terreno social, sem abandonar a identidade nacional.

A mesma lógica apareceu no voto ao lado do PS no projecto que obriga o Estado a pagar o prémio salarial de devolução de propinas aos recém-formados, acumulável com o IRS Jovem. Para os liberais de cartilha, isto é horror orçamental. Para a direita antiga, é pecado ideológico. Para André Ventura, é simplesmente política: falar aos jovens, aos trabalhadores, aos reformados, aos antigos eleitores socialistas e comunistas, cansados de décadas de promessas, impostos, moralismo e patranhas.

É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.

O CHEGA percebeu, talvez antes do PPD/PSD, que uma direita meramente contabilística não chega ao povo. Falar de défice é necessário; falar de vida concreta é indispensável. A Nova Direita não quer ser apenas uma direita de patrões, gestores, comentadores e fiscalistas. Quer disputar o pensionista, o jovem licenciado, o trabalhador descontente, o pequeno contribuinte e o português que já não acredita no socialismo, mas também não se comove com sermões liberais sobre a virtude do sacrifício eterno.

Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.

No fundo, Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

um momento político em que as categorias tradicionais deixaram de explicar ...

O jornalismo (num país livre e democrático) não existe para confirmar convicções; existe para investigar factos, contextualizá‑los e permitir que os cidadãos formem a sua própria opinião.

Portugal vive um momento político em que as categorias tradicionais — esquerda, direita, liberal, conservador — deixaram de explicar o que realmente está a acontecer. O crescimento do CHEGA não se lê apenas pela lente clássica: há uma disputa pelo senso comum, pela linguagem e pela agenda social.
Nos últimos meses, o partido CHEGA tem usado temas historicamente associados à esquerda: despesa social, protecção dos vulneráveis, crítica à desigualdade. Isto aproxima o discurso de certas intuições gramscianas — disputar o “povo” através da questão social, mas com enquadramento moral e nacional.

Ao mesmo tempo, surge uma influência nova: Benedikt Kaiser, publicista político da Nova Direita alemã, que defende uma crítica de direita ao capitalismo como parte de uma estratégia transversal. A sua leitura propõe que a direita deve disputar a questão social, não abandoná‑la.
Com Gramsci, Benedikt Kaiser e até Leão XIII, o CHEGA parece testar uma síntese inesperada: crítica cultural, crítica ao capitalismo liberal, e intuições de justiça social da doutrina social da Igreja.
Daqui nascem duas hipóteses: ou o CHEGA “ficou mais social”, ou está a intuir uma direita metapolítica, social, nacional e pró‑europeia (civilizacional, não tecnocrática).

Seja qual for a leitura, uma coisa permanece: compreender estes fenómenos exige investigação, não confirmação de convicções.

domingo, 5 de julho de 2026

A enorme vitória de André Ventura — ou o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha

Jorge Fernandes (Investigador no Ramón y Cajal no Conselho Superior de Investigação Científica,Madrid)- 
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ - tem razão no essencial: o episódio do Código Laboral marcou um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. Onde talvez eu me afaste ligeiramente da sua leitura é na natureza dessa vitória. Não foi apenas uma vitória parlamentar de André Ventura, nem apenas uma demonstração de força negocial. Foi, acima de tudo, uma revelação política: o CHEGA deixou de se comportar como simples partido de protesto e apresentou-se como aquilo que, na verdade, já vinha sendo — a expressão portuguesa da Nova Direita.
Durante muito tempo, a direita instalada habituou-se a tratar o CHEGA como um instrumento útil, embora desagradável. Serviria para pressionar o PS, para assustar a esquerda, para engrossar maiorias ocasionais, para votar aquilo que fosse conveniente ao Governo, e depois regressaria obedientemente ao seu lugar no canto da sala, com a etiqueta pronta: populista, radical, inconveniente, mas parlamentarmente aproveitável.
O problema é que André Ventura percebeu uma coisa que muitos no PPD/PSD ainda não perceberam: quem tem 60 deputados não está na Assembleia da República para fazer de figurante. E quem representa mais de um milhão e quatrocentos mil votos não tem obrigação política, moral ou estratégica de se ajoelhar diante de uma direita antiga, cansada, liberal na economia, tímida na cultura, assustada na imigração e dependente de agências de comunicação para fabricar frases ocas.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — ora com o PS, ora com o CHEGA, conforme a conveniência do dia — podia talvez funcionar enquanto o CHEGA aceitasse o papel de força auxiliar. O episódio do Código Laboral mostrou que esse tempo acabou. Ventura recusou ser transformado em bengala parlamentar de uma reforma que, na sua leitura, falhava precisamente onde uma direita popular não pode falhar: no trabalho, na família, na segurança económica e na dignidade de quem vive do salário.
E aqui está a novidade que muitos comentadores ainda fingem não ver. O CHEGA não se limitou a votar contra uma proposta do Governo. Fez algo mais profundo: recusou a redução da direita portuguesa ao liberalismo económico de gabinete. Recusou a ideia de que ser de direita significa necessariamente aceitar qualquer reforma laboral em nome da competitividade, da flexibilidade e da bela música tecnocrática que geralmente termina sempre no mesmo sítio: mais insegurança para quem trabalha e mais conforto para quem manda.
É aqui que a leitura de José Costa-Deitado (Universidade de Santiago de Compostela; FCT/UNL - FCT / Universidade Nova de Lisboa) sobre a Nova Direita se torna especialmente pertinente. A Nova Direita europeia — francesa, alemã, italiana — não é apenas uma direita mais barulhenta, nem uma direita com bandeiras maiores, nem uma direita com slogans mais duros sobre imigração. É, no seu melhor, uma tentativa de reconstruir a direita em torno de três eixos que a velha direita abandonou: soberania, identidade e justiça social.

Benedikt Kaiser (
Deutscher Autor und Publizist der Neuen Rechten). é importante precisamente por isso. A sua reflexão sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário aponta para uma direita que compreende que a batalha política não se ganha apenas no Parlamento, nem apenas nas eleições, nem apenas nos soundbites televisivos. Ganha-se antes no vocabulário, nas ideias, nas instituições, na cultura, nas redes sociais, nos temas que se impõem e nos conceitos que deixam de pertencer automaticamente à esquerda.
Durante décadas, a esquerda apropriou-se da palavra “social”. A direita liberal deixou. Pior: colaborou. Aceitou que falar de salários, trabalho, protecção familiar, abandono das periferias, insegurança económica ou dignidade dos pequenos fosse matéria da esquerda. A velha direita ficou com a gestão, os défices, os impostos, as empresas, os mercados e os congressos onde se anunciam “novos ciclos” sem que nada realmente comece.
Ora, a Nova Direita começa precisamente quando a direita deixa de pedir licença para falar do social. E é isso que o CHEGA, com todas as suas imperfeições, excessos, simplificações e teatralidades, parece ter compreendido melhor do que o PPD/PSD. A direita que quer disputar o povo não pode apresentar-se apenas como contabilista da ordem liberal. Tem de falar de pertença, de segurança, de trabalho, de fronteiras, de família, de soberania, de comunidade e de justiça.
Não se trata de converter o CHEGA num partido operário clássico, nem de fingir que André Ventura é uma versão portuguesa de Benedikt Kaiser. Seria absurdo. Kaiser pensa em termos metapolíticos, doutrinários, culturais e estratégicos; Ventura age no terreno parlamentar, mediático e eleitoral. Kaiser escreve para formar quadros e construir hegemonia; Ventura fala para ocupar o espaço público e transformar ressentimento social em força política. Mas a convergência é clara: ambos perceberam que a direita do século XXI não pode limitar-se a administrar o neoliberalismo com bandeiras nacionais à porta.
O episódio do Código Laboral foi, por isso, mais do que um chumbo. Foi uma declaração de independência. Ventura disse ao PPD/PSD que a sua maioria, quando existe, não é propriedade de Montenegro. Disse à direita liberal que a palavra “reforma” não é sagrada. Disse ao país que o CHEGA não aceita ser útil apenas quando vota a favor. E disse ao seu próprio eleitorado que não está no Parlamento para servir de muleta a uma direita que gosta muito de invocar o povo em campanha, mas que rapidamente o esquece quando chegam as propostas redigidas no idioma dos consultores.

Claro que isto incomoda. Incomoda o PPD/PSD, porque lhe retira o monopólio simbólico da direita. Incomoda a Iniciativa Liberal, porque mostra que há uma direita para além da fantasia do mercado perfeito. Incomoda o PS, porque percebe que a oposição social já não lhe pertence por direito hereditário. E incomoda o comentariado, porque o obriga a rever as suas gavetas mentais: afinal, o CHEGA não cabe apenas no rótulo preguiçoso de “extrema-direita”. Há ali outra coisa. Uma coisa mais incómoda: uma direita popular, nacional, social e culturalmente contra-hegemónica.
Jorge Fernandes viu bem a vitória de Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Ventura não ganhou apenas uma votação. Ganhou centralidade. Ganhou autonomia. Ganhou o direito de dizer ao PPD/PSD: vocês já não decidem sozinhos o que é a direita em Portugal.

E isto muda tudo.

A velha direita portuguesa sempre viveu convencida de que havia apenas duas hipóteses: ou a direita respeitável, isto é, ela própria; ou a direita irresponsável, isto é, todos os que não aceitassem a sua tutela. O CHEGA veio baralhar esta geometria. Não quer apenas sentar-se à mesa. Quer mudar a mesa. Quer mudar a ementa. Quer mudar a linguagem do jantar. E, pior ainda para os donos antigos da casa, trouxe convidados que nunca tinham sido admitidos na sala principal.
Pode discutir-se se o fará bem ou mal. Pode criticar-se Ventura, e deve criticar-se quando for necessário. Pode reconhecer-se que há no CHEGA impulsos contraditórios, improvisações, tentações demagógicas e excessos de comunicação. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PPD. E o PPD/PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência; está perante uma concorrência histórica.

O Código Laboral foi apenas o episódio. A recomposição da direita é o acontecimento.
A enorme vitória de André Ventura não foi ter chumbado uma reforma. Foi ter obrigado toda a gente a perceber que a Nova Direita portuguesa já não pede autorização para existir.

sábado, 2 de maio de 2026

Ventura: Esse culpado universal

Há uma curiosa lei da gravidade no nosso comentário político: quando alguma coisa corre mal à direita, a culpa desce sempre para o mesmo sítio:  André Ventura.
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A propósito da Lei Laboral de iniciativa do Governo, começa a desenhar-se a habitual operação de limpeza: se a reforma emperrar, se for vetada, se não passar no Parlamento, se a concertação social falhar, se o Governo hesitar ou se a direita instalada não souber negociar, o culpado já está escolhido.
Não será o Governo, que apresentou a proposta. Não serão os sindicatos, que a contestam ou condicionam. Não será o Presidente da República, a quem se pede, ou se admite, o exercício do veto. 
Não será a chamada direita responsável, que preferiu construir equilíbrios presidenciais contra Ventura e agora se espanta com as consequências políticas desses equilíbrios.
Será, evidentemente, André Ventura.
A lógica é deliciosa.
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Primeiro, disseram-nos que era preciso travar Ventura. Depois, apoiaram Seguro para travar Ventura. E, se Ventura não tivesse concorrido, Seguro dificilmente teria sido eleito nos termos em que foi. A sua vitória presidencial nasceu, em boa medida, dessa frente de contenção, desse reflexo de medo, dessa coligação informal entre sectores da esquerda, do centro e da direita instalada, todos unidos por uma prioridade: impedir que o CHEGA convertesse a sua força eleitoral numa força institucional ainda maior.1
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Segundo, a própria direita dita responsável, com medo das propostas de Ventura, preferiu apoiar Seguro, tolerar Seguro ou aceitar tacitamente Seguro. Fê-lo em nome da moderação, da estabilidade, da respeitabilidade e desse velho instinto de sobrevivência do sistema que, em Portugal, costuma chamar-se “sentido de Estado” quando convém e “cordão sanitário” quando se diz em voz baixa.
Ora, se essa direita ajudou a pôr Seguro em Belém, não pode agora fingir surpresa se o Presidente exercer poderes presidenciais sobre uma lei laboral politicamente explosiva. Belém não é uma sala de visitas. É um órgão constitucional. E quem lá colocou um Presidente para travar uns, não deve admirar-se se ele também trava outros.
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Terceiro, quando o CHEGA diz que não está no Parlamento para carimbar diplomas da AD, e que o Governo não pode despejar sobre ele o ónus de uma negociação mal conduzida, o comentariado descobre logo o “bloqueio”. Ventura não tem, pelos vistos, direito a negociar, condicionar, exigir ou discordar. Tem apenas o dever de aprovar o que os outros escrevem — e, se não aprovar, passa imediatamente de líder da oposição a sabotador da pátria.2
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Recapitulemos.
A direita ajuda a eleger Seguro para travar Ventura. Seguro pode travar a Lei Laboral. O Governo não consegue garantir a aprovação da sua própria reforma. Os sindicatos pressionam. Belém pondera. O Parlamento hesita. Os comentadores dramatizam.
Mas a culpa, claro, tem de ser de Ventura.
É uma geometria política notável: todos escolhem o caminho, todos empurram o país para esse resultado, todos lavam as mãos quando o resultado chega — e depois apontam para o único que não comandou o Governo, não presidiu à concertação social, não se sentou em Belém e não escreveu a proposta inicial.
No fundo, André Ventura tornou-se a versão política do mordomo nos maus romances policiais: não interessa quem escreveu a intriga, quem abriu a porta, quem apagou a luz ou quem segurou a faca. No fim, o culpado já vinha marcado na capa.
É cómodo. É simples. E, sobretudo, dispensa pensar.
Porque pensar obrigaria a reconhecer que a direita instalada quis domesticar o sistema político usando Seguro contra Ventura. Obrigaria a admitir que o Governo apresentou uma reforma laboral sem garantir, previamente, a sua sustentação parlamentar e social. Obrigaria a aceitar que o Presidente da República, uma vez eleito, não é um bibelot decorativo ao serviço de quem o ajudou a subir a escadaria de Belém.
Mas isso seria demasiado incómodo.

Muito mais fácil é repetir a fórmula sacramental: a culpa é de Ventura.
Se Ventura concorre, polariza. Se não concorresse, talvez Seguro não tivesse sido eleito assim. Se a direita apoia Seguro por medo de Ventura, a culpa continua a ser de Ventura. Se Seguro veta, a culpa é de Ventura. Se o Governo não consegue aprovar a Lei Laboral, a culpa é de Ventura. Se o Parlamento faz Parlamento, a culpa é de Ventura.
Estamos, pois, perante uma nova doutrina política portuguesa: a doutrina da culpa portátil. Anda sempre no bolso dos mesmos. Serve para tudo. Abre em qualquer ocasião. E tem a vantagem de nunca responsabilizar quem decide.

Assim se faz política em Portugal: quando a direita instalada tem medo, chama-lhe responsabilidade; quando Belém hesita, chamar-lhe-ão prudência; quando o Governo falha, chamar-lhe-ão complexidade negocial.
Quando Ventura não assina por baixo, chamar-lhe-ão sabotagem.
A culpa, como se sabe, é sempre do mesmo. Mesmo quando foram os outros que o puseram no centro da sala.
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Notas
1. A eleição presidencial de António José Seguro, no quadro político descrito, deve ser lida como resultado de uma convergência táctica de sectores que, embora divergentes entre si, encontraram no anti-venturismo uma plataforma comum. A questão não é apenas eleitoral; é estrutural: sempre que o sistema se reorganiza contra uma força emergente, acaba por lhe atribuir centralidade política.
2. A iniciativa da Lei Laboral pertence ao Governo. A sua negociação parlamentar, a sua aceitação social e a sua eventual promulgação ou veto pertencem a vários actores institucionais. Atribuir ao CHEGA, ou a André Ventura, a responsabilidade total por um eventual bloqueio é transformar a oposição parlamentar em bode expiatório de uma dificuldade que começa no próprio desenho político da proposta.

Nota final. O ponto essencial não está em absolver André Ventura de responsabilidade política, mas em recusar a caricatura conveniente segundo a qual todos os erros da governação, todas as hesitações de Belém e todas as cobardias da direita instalada se explicam por uma só palavra: Ventura.