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sábado, 2 de maio de 2026

Ventura: Esse culpado universal

Há uma curiosa lei da gravidade no nosso comentário político: quando alguma coisa corre mal à direita, a culpa desce sempre para o mesmo sítio:  André Ventura.
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A propósito da Lei Laboral de iniciativa do Governo, começa a desenhar-se a habitual operação de limpeza: se a reforma emperrar, se for vetada, se não passar no Parlamento, se a concertação social falhar, se o Governo hesitar ou se a direita instalada não souber negociar, o culpado já está escolhido.
Não será o Governo, que apresentou a proposta. Não serão os sindicatos, que a contestam ou condicionam. Não será o Presidente da República, a quem se pede, ou se admite, o exercício do veto. 
Não será a chamada direita responsável, que preferiu construir equilíbrios presidenciais contra Ventura e agora se espanta com as consequências políticas desses equilíbrios.
Será, evidentemente, André Ventura.
A lógica é deliciosa.
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Primeiro, disseram-nos que era preciso travar Ventura. Depois, apoiaram Seguro para travar Ventura. E, se Ventura não tivesse concorrido, Seguro dificilmente teria sido eleito nos termos em que foi. A sua vitória presidencial nasceu, em boa medida, dessa frente de contenção, desse reflexo de medo, dessa coligação informal entre sectores da esquerda, do centro e da direita instalada, todos unidos por uma prioridade: impedir que o CHEGA convertesse a sua força eleitoral numa força institucional ainda maior.1
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Segundo, a própria direita dita responsável, com medo das propostas de Ventura, preferiu apoiar Seguro, tolerar Seguro ou aceitar tacitamente Seguro. Fê-lo em nome da moderação, da estabilidade, da respeitabilidade e desse velho instinto de sobrevivência do sistema que, em Portugal, costuma chamar-se “sentido de Estado” quando convém e “cordão sanitário” quando se diz em voz baixa.
Ora, se essa direita ajudou a pôr Seguro em Belém, não pode agora fingir surpresa se o Presidente exercer poderes presidenciais sobre uma lei laboral politicamente explosiva. Belém não é uma sala de visitas. É um órgão constitucional. E quem lá colocou um Presidente para travar uns, não deve admirar-se se ele também trava outros.
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Terceiro, quando o CHEGA diz que não está no Parlamento para carimbar diplomas da AD, e que o Governo não pode despejar sobre ele o ónus de uma negociação mal conduzida, o comentariado descobre logo o “bloqueio”. Ventura não tem, pelos vistos, direito a negociar, condicionar, exigir ou discordar. Tem apenas o dever de aprovar o que os outros escrevem — e, se não aprovar, passa imediatamente de líder da oposição a sabotador da pátria.2
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Recapitulemos.
A direita ajuda a eleger Seguro para travar Ventura. Seguro pode travar a Lei Laboral. O Governo não consegue garantir a aprovação da sua própria reforma. Os sindicatos pressionam. Belém pondera. O Parlamento hesita. Os comentadores dramatizam.
Mas a culpa, claro, tem de ser de Ventura.
É uma geometria política notável: todos escolhem o caminho, todos empurram o país para esse resultado, todos lavam as mãos quando o resultado chega — e depois apontam para o único que não comandou o Governo, não presidiu à concertação social, não se sentou em Belém e não escreveu a proposta inicial.
No fundo, André Ventura tornou-se a versão política do mordomo nos maus romances policiais: não interessa quem escreveu a intriga, quem abriu a porta, quem apagou a luz ou quem segurou a faca. No fim, o culpado já vinha marcado na capa.
É cómodo. É simples. E, sobretudo, dispensa pensar.
Porque pensar obrigaria a reconhecer que a direita instalada quis domesticar o sistema político usando Seguro contra Ventura. Obrigaria a admitir que o Governo apresentou uma reforma laboral sem garantir, previamente, a sua sustentação parlamentar e social. Obrigaria a aceitar que o Presidente da República, uma vez eleito, não é um bibelot decorativo ao serviço de quem o ajudou a subir a escadaria de Belém.
Mas isso seria demasiado incómodo.

Muito mais fácil é repetir a fórmula sacramental: a culpa é de Ventura.
Se Ventura concorre, polariza. Se não concorresse, talvez Seguro não tivesse sido eleito assim. Se a direita apoia Seguro por medo de Ventura, a culpa continua a ser de Ventura. Se Seguro veta, a culpa é de Ventura. Se o Governo não consegue aprovar a Lei Laboral, a culpa é de Ventura. Se o Parlamento faz Parlamento, a culpa é de Ventura.
Estamos, pois, perante uma nova doutrina política portuguesa: a doutrina da culpa portátil. Anda sempre no bolso dos mesmos. Serve para tudo. Abre em qualquer ocasião. E tem a vantagem de nunca responsabilizar quem decide.

Assim se faz política em Portugal: quando a direita instalada tem medo, chama-lhe responsabilidade; quando Belém hesita, chamar-lhe-ão prudência; quando o Governo falha, chamar-lhe-ão complexidade negocial.
Quando Ventura não assina por baixo, chamar-lhe-ão sabotagem.
A culpa, como se sabe, é sempre do mesmo. Mesmo quando foram os outros que o puseram no centro da sala.
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Notas
1. A eleição presidencial de António José Seguro, no quadro político descrito, deve ser lida como resultado de uma convergência táctica de sectores que, embora divergentes entre si, encontraram no anti-venturismo uma plataforma comum. A questão não é apenas eleitoral; é estrutural: sempre que o sistema se reorganiza contra uma força emergente, acaba por lhe atribuir centralidade política.
2. A iniciativa da Lei Laboral pertence ao Governo. A sua negociação parlamentar, a sua aceitação social e a sua eventual promulgação ou veto pertencem a vários actores institucionais. Atribuir ao CHEGA, ou a André Ventura, a responsabilidade total por um eventual bloqueio é transformar a oposição parlamentar em bode expiatório de uma dificuldade que começa no próprio desenho político da proposta.

Nota final. O ponto essencial não está em absolver André Ventura de responsabilidade política, mas em recusar a caricatura conveniente segundo a qual todos os erros da governação, todas as hesitações de Belém e todas as cobardias da direita instalada se explicam por uma só palavra: Ventura.

terça-feira, 10 de março de 2026

Seguro (para memória futura)

[...] em termos de poder de compra, os trabalhadores da empresa receberam em 2024 cerca de 17% menos por hora do que recebiam há cinco anos, apesar de a empresa ter aumentado a facturação e registado lucros significativos ao longo desse período. Em linguagem simples: os salários por hora não só não acompanharam a inflação como ficaram claramente para trás, o que significa uma perda real de rendimento para os trabalhadores.

E é aqui que a contabilidade deixa de ser mera enumeração e passa a ter significado político e social. A empresa M. Freitas não apresenta um quadro de miséria laboral, mas também não revela qualquer modelo de redistribuição particularmente generoso. Pelo contrário: mostra um padrão de contenção salarial bastante nítido.

Ao longo dos cinco anos analisados pelo PÁGINA UM, a remuneração da gerente oscilou sempre perto dos 95 mil a 100 mil euros anuais, num patamar estável. Já os salários médios dos trabalhadores não só permaneceram modestos como, em 2024, sofreram um recuo assinalável apesar do aumento da facturação, da expansão do quadro de pessoal e de um lucro superior a meio milhão de euros. Em termos simples: a empresa cresceu, lucrou bem, manteve a gerência muito confortavelmente instalada e não deixou nos salários médios um sinal proporcional dessa prosperidade.