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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A angústia do jornalista

Porque é que, quando têm de entrevistar o líder do CHEGA, os jornalistas e comentadores ficam de repente estúpidos? 
A cena repete-se há anos. Ninguém parece querer ou ser capaz de fazer perguntas a André Ventura. Estão ali para o contradizer, para o desmentir, para lhe chamar nomes. Não são nem nunca foram assim com nenhum outro entrevistado. Álvaro Cunhal, que em 1975 tentou fazer abortar a democracia em Portugal, foi sempre entrevistado com urbanidade, apesar das suas incontornáveis “cassetes”.
Obtêm os entrevistadores, com os seus impropérios, alguma coisa de André Ventura? Não. 
É talvez o lado mais absurdo de tudo isto. 
De entrevista em entrevista, todos já deviam ter aprendido que Ventura não se deixa intimidar por más maneiras, e que vai preparado para armadilhas. Também seria de esperar que soubessem outra coisa: que os ataques do entrevistador dão uma enorme vantagem a Ventura. Outros entrevistados têm de responder a perguntas, ou correr o risco de parecer que não respondem; Ventura só tem de rebater e retribuir agressões e pedradas.

Os jornalistas e os comentadores não percebem isto? As pessoas, não sendo estúpidas, só se comportam como se o fossem por duas razões: ou quando não compreendem a situação, ou quando, compreendendo, o medo – a pior das emoções — as paralisa ao ponto de não conseguirem agir de modo inteligente. O segredo da entrevista a André Ventura parece-me que está aqui: diante de Ventura, o jornalista e o comentador são gente assustada. Mas não é Ventura que lhes mete medo. São os outros: todos os que o entrevistador imagina que o estejam a ver, ouvir ou ler a entrevistar André Ventura. É a pressão dessa multidão imaginária que torna estúpido o entrevistador.

O cerco que a esquerda e parte da direita montaram a André Ventura não dissuadiu 1,5 milhões de portugueses de fazerem do Chega, em seis anos, o segundo maior partido parlamentar. Não se deixaram intimidar. Mas aqueles que lutam por empregos, posições e destaque no sistema mediático, esses, sim, ficaram apavorados. A tese de que não se deve “dar plataforma” ao Chega ou de que o Chega não pode ser “normalizado” tornou a entrevista a André Ventura no exercício mais perigoso do jornalismo em Portugal. Diante de Ventura, o entrevistador sabe que toda a gente o está a vigiar. Vai ele deixar Ventura falar? Vai ele tratá-lo como a qualquer outro entrevistado? Ai dele: estará a incorrer no crime de lhe “dar plataforma” e de o “normalizar”. Por isso, a preocupação principal do entrevistador, perante Ventura, não é levá-lo a responder a perguntas, mas distanciar-se dele, mostrar que nada tem a ver com ele, pelo recurso primitivo de o afrontar e insultar.

Há, no jornalismo, activistas anti-Chega. Mas mesmo a manifestação do preconceito, de tão ostensiva, precisa de ser explicada, porque é regra, em relação a tudo o mais e por uma questão de profissionalismo, o jornalista tentar passar por imparcial. Só em frente de Ventura o fanático julga que pode ou até deve expor o seu fanatismo. Até o mais encartado activista se sente obrigado a exibir excesso de zelo. Não está menos assustado.

Numa entrevista a Ventura, é como se quem estivesse a ser entrevistado não fosse Ventura, mas o entrevistador. Funciona, para os entrevistadores, como uma espécie de entrevista de emprego. É a ocasião de provarem que nada têm a ver com Ventura e, por isso, merecem a consideração e as posições que têm ou a que aspiram. Tal como quando classificam os debates de Ventura, não estão a pensar no líder do Chega, mas nos colegas e correligionários que os possam acusar de simpatia pelo diabo ou de pouca fé, e fazê-los “cancelar”. Não lhes interessa a verdade, mas apenas serem aceites.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

É a política ao nível do reality show, à medida das televisões...

O jogo orçamental é uma invenção do presidente da república. Foi ele, em 2021, quem decidiu que haveria eleições sempre que um orçamento não fosse aprovado. O jogo tem dois pressupostos: 
O primeiro é que um orçamento de Estado está acima das divergências políticas, e pode e deve ser viabilizado por partidos que querem coisas diferentes. Basta que se “entendam”. 
O segundo pressuposto é que os eleitores não gostam de votar muitas vezes, e castigarão em novas eleições quem delas passar por responsável. 
Posto isto, o jogo consiste em cada jogador tentar endossar aos outros a culpa por não haver entendimento orçamental. 
É um jogo que faz esquecer opções políticas, e concentra a atenção no jeito ou sorte dos concorrentes. Convida ao psicodrama e à manipulação. É a política ao nível do reality show, à medida das televisões.

O picante do jogo deste ano era a suposição de que havia um PRD, à custa de quem o governo esperava reforçar-se, atrelando-o à sua minoria parlamentar, ou canibalizando-o em eleições. Como o PRD em 1987 era um partido recente, com um crescimento eleitoral súbito, muitos pensaram que o papel estava agora destinado ao Chega. Mas talvez conviesse estudar melhor a história. O PRD era feito de votos do PS. Em 1987, o PSD herdou votos do PS, embora através do PRD. 
E agora, são também os votos do PS que o governo tem em vista. Daí os aumentos para pensionistas e funcionários e o abraço de 22 milhões de euros às empresas de televisão virem embrulhados num fervor woke que, indo além da incerteza sobre o que é uma mulher, até inclui uma ponta de ódio a Israel. 
Não é um cocktail político a pensar em eleitores de direita. Corresponde ao que as direcções do PSD acreditam desde 2017: que o PS descobriu como se manda em Portugal, e que o PSD precisa de ser igual ao PS para lhe herdar o poder.
As cartas pareciam na mão do governo: ou levava o PS a viabilizar o orçamento, e tinha pelo menos um ano para consolidar a ideia de que o PSD é o novo PS; ou levava o PS a romper, mostrando aos dependentes do Estado que os socialistas, afinal, não cuidam dos seus interesses. A ironia da história é que nada disto seria possível sem a existência de um Chega com que o PSD não quer acordos. É porque o Chega impede as maiorias de esquerda que permitiriam ao PS governar, neste parlamento e provavelmente no que saísse de uma nova eleição, que o PS tem pouco interesse em ir a votos. É porque o Chega concentra agora em si, como uma espécie de para-raios, a demonização de que a esquerda é capaz, que os socialistas reconheceram que o PSD, por contraste, não é bem de direita, é até uma espécie de meio-irmão. O Chega que poderia ter servido ao PSD para formar uma maioria reformista. Serve-lhe em vez disso para consolidar uma maioria situacionista.
Tratava-se de saber se os. socialistas iriam descobrir como sair daqui. Não descobriram, como Pedro Nuno Santos confirmou ontem. Vão, portanto, deixar governar Luís Montenegro. 
Ainda não sabemos se o PSD conseguirá mesmo “cumprir o seu ideal”, como o Brasil no fado de Chico Buarque, e ver funcionários, pensionistas, artistas pró-Palestina e comentadores de televisão reconhecerem-no como o novo PS. O que já sabemos é que governar em Portugal continuará a ser sinónimo de fazer despesa pública, isto é, distribuir através do Estado uma riqueza que os governantes não mostram nenhuma preocupação em deixar crescer. Bem pode o país divergir há vinte e cinco anos da UE. Bem podem Mario Draghi e Christine Lagarde, apavorados com o futuro, pedir “reformas estruturais”. O poder em Portugal é socialista, com ou sem PS.