António José Seguro nunca se destacou pelo excesso de firmeza. Quando foi secretário-geral do PS, hesitou até perder a autoridade e o lugar para António Costa após um famoso debate televisivo. Deixemos de lado o argumento morno de quem pede um socialista em Belém para “equilibrar” a direita no governo e no Parlamento. Seguro não resistiu às pressões internas do PS. Agora, perante a notória transformação política e do sistema partidário, dizem-nos que vai resistir a pressões mais brutais na Presidência da República. Em que mundo isto é plausível?
O núcleo desta insegurança está na dúvida que ocupa o debate público sobre a probabilidade de António José Seguro se ver obrigado por resultados eleitorais a dar posse a um governo de André Ventura. Como conseguirá o regime evitar semelhante catástrofe? Esperemos que não consiga. Preparemo-nos para o pior.
Se as coisas seguirem o curso prosaico, há probabilidade séria do Chega ficar em primeiro lugar nas próximas legislativas. Nesta eleição presidencial, André Ventura já conquistou votos suficientes para tirar a vitória à AD – com certeza não foi buscá-los à esquerda. Mas daí não segue que o deixem governar. Seguro pode até convidá-lo a formar governo e dar-lhe posse como primeiro-ministro. Mas PSD e PS farão uma geringonça como fez António Costa e vão derrubá-lo na Assembleia da República assim que apresentar o Programa.
O guião está escrito. Em primeiro lugar, porque o PS já derrubou um governo eleito: abriu o precedente, perdeu as inibições e vai voltar a derrubar uma segunda vez, perante o aplauso do regime por livrar a Pátria de um governo que o regime vê como “anti-democrático”. Em segundo lugar, porque o PSD resmungou quando isso lhe aconteceu em 2015, mas dessa data em diante perdeu uma liderança forte e acumulou erros em cima de fraquezas, escândalos e sarilhos com a justiça. Este PSD que restou depois de Pedro Passos Coelho vai negociar um entendimento com o PS impondo uma única condição: submeter-se à liderança do PS.
Os “consensos” nacionais mudam no pormenor e à superfície, mas os termos do “consenso” são da esquerda e quem manda é o PS. Como, de resto, se repetiu agora nas eleições presidenciais: os actuais líderes da direita tradicional preferem aliar-se à esquerda, para manter o status quo, em vez de arriscar a mudança. Como um bicho da conta, o regime protege-se dobrando as costas sobre si mesmo.
Qual será o papel de Seguro neste processo? Nenhum. Quando o regime, em nome da democracia, lançar novo ataque, Seguro não o viu formar-se nem o protagonizou: o ataque foi mais um episódio que lhe aconteceu.”
