segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e a Esquerda lhe perde o monopólio

Durante grande parte da modernidade política europeia, a Esquerda construiu uma parte decisiva da sua legitimidade sobre a representação dos trabalhadores. Falava de salários, habitação, emprego, pensões, condições de trabalho, segurança económica e dignidade material.

Nas últimas décadas, porém, uma parte importante da Esquerda deslocou progressivamente o centro do seu discurso para as identidades, a linguagem, a representação simbólica, as minorias e as chamadas causas culturais. Esse deslocamento abriu um espaço político.

E as Novas Direitas começaram a ocupá-lo.

Hoje encontramos partidos de direita a contestar reformas laborais que prolongam excessivamente a vida activa, a defender idades de reforma mais baixas ou carreiras contributivas suficientemente longas, a denunciar privilégios políticos, a falar de pensões, salários, energia, habitação e protecção dos trabalhadores.

Encontramos também uma crítica crescente à globalização, às elites tecnocráticas e a uma economia que parece proteger grandes estruturas enquanto deixa trabalhadores, pequenos empresários e classes médias entregues à insegurança.

Isto significa que a Direita se está a tornar de esquerda?

Não necessariamente.

Pode significar exactamente o contrário: que uma parte da Direita está a regressar à Questão Social.

O trabalhador não pertence à Esquerda

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» ou «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou, em grande medida, essa divisão do trabalho político.

À Esquerda ficaram os trabalhadores, os sindicatos, a protecção social e a linguagem da solidariedade.

À Direita ficaram o mercado, a iniciativa privada, o equilíbrio orçamental e a eficiência económica.

Depois, essa mesma Direita admirou-se por ter perdido culturalmente uma parte significativa dos sectores populares.

É aqui que regressamos a Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando ganha eleições. Conquista-a quando consegue determinar as palavras, os valores e os conceitos através dos quais uma sociedade interpreta a realidade.

Durante décadas, a Esquerda conseguiu fazer acreditar que falar de justiça social era, quase por definição, falar a linguagem da Esquerda.

Mas nenhuma ideologia possui direitos de propriedade sobre os problemas sociais.

O cimento já não é a classe

É neste ponto que a experiência do CHEGA e de outras Novas Direitas europeias se torna particularmente interessante.

Essas forças procuram reunir sectores que a análise política tradicional considerava difíceis de compatibilizar: trabalhadores anteriormente ligados à Esquerda, pequenos empresários esmagados por impostos e burocracia, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é propriamente a consciência de classe.


É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, por algumas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente frequentemente protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem torna-se simples e politicamente poderosa: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado por quem governa, especula, beneficia de privilégios ou vive afastado das consequências das políticas que defende.

Esta mensagem pode ser simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente.

Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha Direita e o moralismo identitário de uma parte da nova Esquerda deixaram progressivamente de ter.

Da luta de classes ao conflito entre povo e elites

Seria, contudo, errado confundir este discurso com o marxismo clássico.

A Nova Direita não adopta necessariamente o antagonismo entre proletariado e capital.

Substitui-o muitas vezes por outra clivagem: povo e elites, produtores e estruturas parasitárias, periferias e centros de poder, governados e classe dirigente.

Não é exactamente luta de classes.

É outra forma de conflito social e político.

E é precisamente por essa via que algumas Novas Direitas procuram conquistar sectores que durante décadas foram considerados património eleitoral da Esquerda.

Leão XIII: a Questão Social antes do monopólio socialista

É aqui que Leão XIII se torna particularmente importante.

A Direita não se torna de esquerda quando volta a falar do trabalhador.

Torna-se novamente social.

Muito antes da actual Esquerda identitária e sem aceitar o socialismo, a Rerum Novarum já colocava no centro da reflexão política a dignidade do trabalho, o salário justo, a protecção da família, o direito de associação dos trabalhadores e os deveres sociais da propriedade.

Leão XIII rejeitou simultaneamente duas reduções.

Por um lado, recusou que a sociedade pudesse ser explicada exclusivamente pela luta de classes.

Por outro, recusou que o trabalhador pudesse ser abandonado à simples mecânica do mercado.

Entre o colectivismo e o individualismo económico colocou a família, as comunidades intermédias, a solidariedade, a responsabilidade social e o bem comum.

Existe, portanto, uma tradição social da Direita que precede muitas das actuais classificações políticas.

Recuperá-la não significa importar a linguagem da Esquerda.

Significa recordar que a defesa da comunidade nacional também inclui quem trabalha, produz, desconta, cria empresas, sustenta famílias e suporta financeiramente o Estado.

Gramsci explica o método; Leão XIII fornece a substância

Gramsci ajuda a compreender como se conquista hegemonia.

Leão XIII recorda por que razão a Questão Social não pertence ao marxismo.

Autores contemporâneos como Benedikt Kaiser procuram precisamente recuperar essa dimensão social para uma direita nacional e comunitária: uma direita que perceba que não pode falar de Nação ignorando quem nela trabalha e vive.

Também em Portugal esta discussão começa a surgir.

Duarte Branquinho, entre outros, tem insistido na necessidade de uma direita que compreenda que a batalha política é também cultural, social e metapolítica.

Uma direita nacional que abandone a Questão Social acabará, mais cedo ou mais tarde, por abandonar o próprio povo que afirma representar.

A velha Direita esqueceu a comunidade

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, os sindicatos aos comunistas, a cultura aos progressistas e a solidariedade ao Estado burocrático.

Contentou-se frequentemente em defender o mercado.

E esqueceu-se de defender a comunidade.

Mas a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira, soberania e memória.

É também protecção entre gerações.

É dignidade do trabalho.

É justiça contributiva.

É segurança económica.

É reconhecimento daqueles que sustentam diariamente a comunidade.

Se uma direita pretende verdadeiramente apresentar-se como nacional, não pode ignorar aqueles que constituem materialmente essa mesma Nação.

Quando a hegemonia deixa de ser propriedade

Uma coisa começa, por isso, a parecer evidente.

A Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.

Julgou que «trabalhador», «salário», «pensão», «justiça social», «desigualdade» e «protecção» lhe pertenciam por herança política.

Não pertencem.

São problemas humanos, sociais e políticos anteriores às ideologias que deles se apropriaram.

A verdadeira ruptura poderá estar precisamente aqui.

Não se trata apenas de o CHEGA ou outras Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para conquistar eleitores.

Trata-se de algo potencialmente mais profundo: retirar a Questão Social à interpretação exclusivamente marxista e integrá-la numa visão nacional, social e comunitária da Direita.

Se essa transformação se consolidar, a mudança não será apenas eleitoral.

Será cultural.

E quando uma força política consegue mudar o significado das palavras através das quais uma sociedade pensa os seus problemas, já começou a disputar aquilo que Gramsci considerava decisivo: a própria hegemonia.