quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Entre o TOC e o Paranoide...

Quando o jornalismo finge ensinar a Constituição para esconder a política
Há textos que não são erros de análise; são opções conscientes. O artigo paranoide de Paulo Ferreira (https://observador.pt/opiniao/os-poderes-limitados-e-o-candidato-4-em-1/) sobre a campanha presidencial pertence claramente à segunda categoria. Não procura esclarecer os limites do cargo de Presidente da República — procura condicionar o voto, deslegitimando um candidato e absolvendo outro, sob a capa de um constitucionalismo selectivo e paternalista.
O ponto de partida é conhecido e repetido até à exaustão: o Presidente “não governa”, não define políticas públicas, não executa, não manda prender, não legisla. Tudo isto é formalmente verdadeiro — e politicamente enganador. Porque a Constituição não é apenas um catálogo de proibições funcionais; é também um sistema de tensões, influências, bloqueios, enquadramentos e confrontos institucionais. Fingir o contrário é ou ignorância grave ou má-fé deliberada.
O mesmo jornalismo que agora se mostra subitamente cioso da separação de poderes passou anos a celebrar um Presidente hiper-activo, omnipresente, interventivo e moralizador. Marcelo Rebelo de Sousa foi elevado a comentador-mor da nação, a gestor de afectos e a regulador simbólico de políticas públicas — sem que isso incomodasse minimamente os guardiões ocasionais da ortodoxia constitucional. Quando Marcelo prometeu “erradicar” problemas sociais sem meios próprios para o fazer, isso não foi denunciado como demagogia estrutural; foi tratado como virtude empática.

O critério muda apenas quando muda o candidato?
Perante isso, António José Seguro surge como o aluno aplicado do regime: pouco diz, pouco
promete, pouco incomoda. A sua modéstia programática é apresentada como virtude democrática; o seu vazio político, como maturidade institucional. O veto político é tratado como gesto audaz — embora imediatamente neutralizado pelo próprio articulista, que faz questão de lembrar que o Parlamento o pode reverter. Um Presidente reduzido à irrelevância é vendido como ideal republicano.
André Ventura é descrito como um impostor constitucional: alguém que ousa falar de reformas, de bloqueios, de impasses estruturais, de conflitos reais entre poderes. Não interessa saber se as propostas são viáveis, desejáveis ou exequíveis. Basta declará-las “fora do perímetro” para as desqualificar moralmente — e, por arrasto, desqualificar os eleitores que nelas reconhecem um protesto legítimo contra um sistema fechado.

É aqui que o texto do Paulo Ferreira deixa definitivamente o campo da análise e entra no da propaganda. Ao insistir que só candidatos que se auto-limitam ao silêncio funcional são democráticos, o articulista transforma a eleição presidencial num exercício de resignação cívica. Votar passa a ser um acto decorativo, desde que obediente. A democracia reduz-se a um ritual sem escolha real.
Não admira que os debates se tenham perdido em discussões estéreis sobre “poderes que o Presidente não tem”. Isso não é culpa dos eleitores — é culpa de jornalistas que confundem explicação com catequese, e informação com correcção ideológica. Fica mais uma certeza destas eleições: temos os piores jornalistas do mundo, e a grande derrotada é a Comunicação Social.
O mais irónico é que, ao tentar infantilizar o eleitorado, este tipo de texto acaba por produzir o efeito contrário. Expõe o desespero de um regime de centrão caduco, obriga os acomodados a sair das suas tocas, e torna explícita a natureza profundamente política de um jornalismo que se apresenta como neutro.
Não, o Presidente da República não governa sozinho. Mas também não é a “rainha de Inglaterra” que certos jornalistas gostariam de eleger. Entre a farsa pedagógica e o moralismo selectivo, há uma coisa que este texto revela com clareza: o medo não é da violação da Constituição — é da escolha livre dos eleitores.

Agulhadas finais
Quando um jornalista se arma em professor de Constituição para decidir, por nós, o que é “democrático”, já não está a informar: está a treinar o eleitorado.
O problema não é um candidato “exceder poderes”: o problema é haver redacções inteiras a fazer campanha de batas brancas, com a superioridade moral de quem nunca foi a votos.
Se isto fosse apenas “pedagogia cívica”, aplicava-se a todos. Como só se aplica a um, chama-se pelo nome: propaganda.