o CHEGA não é um acidente táctico, mas um sintoma político durável
A tese de que o CHEGA poderá acabar na lista dos partidos que rugiram alto e morreram cedo, desde que o PSD descubra talento e capacidade de resistência — tem uma virtude: tranquiliza o sistema. Tem também um defeito fatal: parte de um diagnóstico errado.
O CHEGA não nasceu de um défice de talento social-democrata, nem de um azar conjuntural. Nasceu da falência política prolongada de um regime gerido alternadamente por PS e PSD, incapaz de responder a problemas reais e viciado numa cultura de bloqueio, moralismo e auto-preservação.
Tratá-lo como um “rato que ruge” é discutir o barulho do alarme e ignorar o incêndio.
Há que desmontar a narrativa histérica do “perigo democrático”. A democracia portuguesa não está em risco, o sistema constitucional europeu funciona e as eleições continuam a ser o centro da legitimidade política. Dizer o contrário é falso, desonesto e intelectualmente indigente.
Se a democracia não está ameaçada, então o voto no CHEGA não é uma patologia nem um desvio moral. É uma escolha política consciente, feita dentro das regras, contra quem governou e falhou.
Agora apareceu um novo truque do sistema: substituir o confronto político pela selecção do candidato “mais presidenciável”, “mais educado”, “mais aceitável”. Não é política. É exclusão.
Ao reduzir a escolha democrática a um concurso de boas-maneiras, o regime confirma exactamente a acusação central do "venturismo": existe uma elite que decide à partida quem pode ser escolhido e quem deve ser interditado.
O CHEGA não é um partido fora do sistema, nem um sobressalto passageiro. Joga dentro das regras, usa eleições e parlamento, e representa uma fractura eleitoral real. Não é um corpo estranho: é um espelho incómodo.
Agulhadas finais
O CHEGA não é o “rato que ruge”; é o resultado lógico de décadas de governação incompetente mascarada de virtude.
Quem chama “perigo democrático” a votos legítimos revela medo do eleitor e desprezo pela democracia.
O regime não falha por falta de talento: falha por excesso de auto-complacência.
Esperar que o CHEGA desapareça por cansaço não é análise — é auto-consolo.
