Quando um cocktail Molotov é lançado contra famílias e o jornalismo decide chamar-lhe “incidente”, o problema já não é o agressor. É o regime narrativo que o protege.
Há palavras que matam. Não pela sua dureza, mas pela sua ausência.
No passado dia 21 de Março, em Lisboa, um indivíduo lançou um cocktail Molotov contra participantes numa manifestação pacífica — famílias, crianças, idosos. Um acto de violência política com potencial letal. Um acto que, em qualquer manual sério de ciência política ou criminologia, se inscreve sem esforço na tipologia clássica do terrorismo.1
Mas não foi isso que lemos.
Para uma parte significativa da imprensa, tratou-se de um “incidente”. Nalguns casos, de um “objecto incendiário”. Noutros, de uma perturbação atmosférica mal explicada — quase uma súbita alteração do estado do tempo urbano.
A linguagem não foi neutra. Foi cirúrgica. E, como quase sempre sucede nestes casos, o eufemismo funcionou como absolvição antecipada.
2. O jornalismo como aparelho ideológico
A questão central não está no erro. Está no padrão.
Quando dois ou três adolescentes trocam mensagens privadas de teor extremista, temos manchetes sobre “ameaças à democracia” e “ascensão do fascismo”. Quando um militante da extrema-esquerda lança fogo real contra pessoas reais, temos… silêncio, prudência lexical, ou um súbito ataque de moderação semântica.2
Este duplo critério não nasce do acaso. Resulta de uma transformação estrutural do campo mediático ocidental.
Nas últimas décadas, a maioria das redacções foi progressivamente capturada por uma visão ideológica homogénea, predominantemente alinhada com a esquerda e a extrema-esquerda cultural.3 Não é uma conspiração; é um ecossistema. Recrutamento endogâmico, bolhas universitárias, validação entre pares, conformismo moral.
O resultado é simples:
- A direita é suspeita por definição
- A esquerda é absolvida por presunção
E quando a realidade desmente o guião, ajusta-se a linguagem até que a realidade deixe de incomodar.
3. A violência útil
A violência não é tratada de forma igual. Há uma violência ilegítima — a da direita — e uma violência contextualizada — a da esquerda.
Esta última beneficia de um estatuto peculiar: é reinterpretada como reacção, como excesso compreensível, como desvio episódico. Em suma, como “incidente”.
É o que poderíamos chamar violência útil.
Útil porque:
- não perturba a narrativa dominante
- reforça a demonização do adversário
- preserva o mito de uma superioridade moral estrutural
Este mecanismo não é novo. A violência revolucionária foi, durante décadas, romantizada ou relativizada sempre que se inscrevia numa causa “progressista”.4 O que mudou foi apenas o meio: da propaganda partidária para o enquadramento mediático.
4. O branqueamento e a demonização
Nos últimos anos, perante o fracasso económico, social e cultural de várias políticas públicas, as esquerdas governativas recorreram a uma estratégia de sobrevivência: substituir o debate pela rotulagem moral.5
Conservadores, liberais, soberanistas — todos foram progressivamente amalgamados na categoria ampla e conveniente de “extrema-direita”, numa reciclagem preguiçosa de categorias herdadas do século XX.
Simultaneamente, procedeu-se ao movimento inverso: uma reabilitação tácita da extrema-esquerda.
O resultado foi duplo:
- Demonização da direita — convertida em ameaça estrutural
- Branqueamento da extrema-esquerda — tratada como desvio menor
Neste enquadramento, a violência deixa de ser julgada pelo acto. Passa a ser julgada pelo autor.
5. A normalização institucional
Mais inquietante ainda é que este padrão não se limita à imprensa.
A reacção institucional — ou a sua calculada ausência — sugere que o mesmo enviesamento atravessa sectores da magistratura e da judicatura.6
Desvalorização, ambiguidade conceptual, lentidão processual — tudo contribui para uma percepção de tolerância selectiva.
Ora, o Estado de Direito não sobrevive a assimetrias desta natureza.
Quando a lei oscila em função da identidade ideológica do agressor, deixa de ser lei. Passa a ser gestão política da indulgência.
6. O alvo: famílias
Há um elemento adicional que importa sublinhar: o alvo.
Não era um confronto entre militantes. Não era um choque entre facções. Era uma manifestação de famílias.
Famílias.
E isso explica, mais do que qualquer outra coisa, o desconforto mediático.
Porque o problema não é apenas o agressor. É o agredido “errado”.
Uma marcha de famílias, com crianças e valores tradicionais, é para certos sectores mais provocatória do que qualquer acto violento contra ela.
7. A fabricação da amnésia
O que se constrói, assim, é uma forma sofisticada de amnésia selectiva.
Não se nega o facto. Esvazia-se o seu significado.
Não se mente. Reenquadra-se.
Não se absolve. Dilui-se.
É aqui que o chamado “deepfake narrativo” se revela: a realidade permanece intacta, mas a percepção é manipulada até se tornar irreconhecível.7
8. Consequências
As consequências são cumulativas e perigosas:
- erosão da confiança nas instituições
- descrédito do jornalismo
- radicalização assimétrica
- normalização da violência política
Mas há uma consequência mais grave: a definição implícita de alvos legítimos.
Quando determinados sectores são sistematicamente demonizados, a violência contra eles deixa de ser impensável — e começa a ser tolerável.
9. Conclusão
O que aconteceu a 21 de Março não foi um “incidente”.
Foi um teste.
Um teste ao jornalismo — que preferiu o eufemismo à verdade.
Um teste às instituições — que continuam a distinguir entre violências úteis e violências proibidas.
Um teste ao regime — que revela crescente dificuldade em reconhecer o fogo quando ele vem do lado “certo”.
E falhámos.
Não por falta de factos. Mas por excesso de narrativa.
E assim continuamos: num país onde um cocktail Molotov lançado contra famílias pode deixar de ser terrorismo político — e passar, com elegante cobardia semântica, a simples meteorologia.
Notas
1 Bruce Hoffman, Inside Terrorism, Columbia University Press, 2006. Cf. também enquadramentos clássicos de violência política em ciência política contemporânea.
2 Ver, a propósito, o contraste mediático analisado em artigos de opinião recentes no Observador, designadamente “O lado da violência” e “O fenómeno meteorológico de 21 de Março”.
3 Sobre a homogeneização ideológica das redacções, ver estudos sobre jornalismo europeu contemporâneo e cultura profissional mediática.
4 Hannah Arendt, On Violence, 1970; cf. também a tradição de legitimação da violência revolucionária em contextos europeus do século XX.
5 Para análise do uso político da rotulagem (“extrema-direita”, “populismo”), ver debate contemporâneo na imprensa europeia, incluindo Le Figaro e Le Parisien sobre recomposição ideológica pós-crise.
6 Sobre percepção pública da justiça e legitimidade institucional, ver literatura em teoria do Estado de Direito e sociologia da justiça.
7 Conceito de “deepfake narrativo” enquanto manipulação de enquadramento perceptivo em ambientes mediáticos contemporâneos.
