quarta-feira, 1 de abril de 2026

Cavaco Silva e o medo do eleitor

Há textos que envelhecem mal. E há figuras públicas que envelhecem pior quando resolvem falar como se estivessem acima da história que ajudaram a construir. O artigo de Cavaco Silva no Expresso pertence a essa segunda categoria: não é um exercício de lucidez, mas um libelo de auto-desculpabilização.

O antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República, depois de duas décadas no vértice do regime, olha para o estado do país — pobre, anémico, dependente, sem reformas sérias, com serviços públicos degradados e uma sociedade crescentemente exasperada — e conclui, no essencial, que o problema é o CHEGA. O raciocínio é de uma comodidade espantosa: os que governaram falharam, mas os culpados são os que capitalizam eleitoralmente esse falhanço.
Convém começar pelo essencial. Cavaco Silva não falou do CHEGA como quem descreve um adversário conjuntural. Falou como quem pretende fixar, do alto da sua respeitabilidade institucional, uma fronteira de ilegitimidade. Segundo o seu texto, o CHEGA seria uma força “desprovida de uma ideologia minimamente coerente”, tecnicamente impreparada e marcada pela “retórica da confrontação” e pelo “discurso teatral do ódio, do insulto, da calúnia e da mentira”. E mais: seria uma força sem credibilidade política, incapaz de contribuir para o progresso do país ou para a defesa dos interesses portugueses nas negociações europeias.[1]
O enquadramento é claríssimo: não se trata apenas de discordância política; trata-se da tentativa de catalogar milhões de votos como expressão de um desvio moral e cívico.
Ora, é precisamente aqui que o texto de Cavaco começa a ruir. Porque quando um homem que foi primeiro-ministro durante dez anos e Presidente da República durante outros dez resolve diagnosticar a decadência nacional como se dela fosse mero observador, o problema já não é de análise: é de pudor.

A tese de Cavaco contém uma fraude implícita. Sugere que o país chegou a este ponto por insuficiência de civismo alheio, por demagogia recente, por radicalismo verbal de um partido que ainda não governou. Mas quem moldou a arquitectura do regime? Quem participou, legitimou ou protegeu a alternância estéril entre PS e PSD? Quem ajudou a consolidar a ilusão de que bastava gerir fundos europeus, distribuir clientelas, preservar aparelhos e adiar rupturas? Não foi o CHEGA. Foram exactamente os partidos do arco rotativo a que Cavaco pertenceu e de que continua, politicamente, a ser emblema.[2]
A acusação é ainda mais reveladora quando lida à luz do próprio contexto. Cavaco defende o “espírito reformista” do Governo e avisa que só com reformas estruturais será possível travar o CHEGA.[1][2] A formulação merece ser desmontada.

Durante décadas, as tais “reformas estruturais” foram prometidas, adiadas, caricaturadas ou sabotadas pelo centrão em sucessivas versões. Agora, quando o sistema sente a respiração do descontentamento no cachaço, eis que surge a velha pedagogia da urgência: é preciso reformar para impedir que os eleitores continuem a fugir do redil. Ou seja: não se quer reformar por convicção; quer-se reformar por medo. Não se trata de servir o país; trata-se de salvar o regime da concorrência eleitoral real.

Mais: Cavaco usa o velho expediente oligárquico de confundir credibilidade com aceitabilidade sistémica. Para ele, a “credibilidade” parece não depender da capacidade de representar uma fatia crescente do eleitorado, nem de dizer em voz alta aquilo que milhões de portugueses reconhecem no seu quotidiano — insegurança, exaustão fiscal, colapso de serviços, imigração desordenada, degradação institucional. Não. A credibilidade, nesta cartilha, é um selo emitido pelas elites políticas, mediáticas e tecnocráticas que há trinta anos administram a decadência nacional. Só é credível quem fala baixo, falha muito e nunca ameaça a repartição de cadeiras. O resto é populismo. O resto é “teatro”. O resto é “ódio”. É uma definição muito conveniente — e profundamente anti-democrática.

Acresce um dado politicamente decisivo: o CHEGA não é hoje um acidente folclórico do sistema, mas uma força eleitoral de peso, alimentada precisamente pela fadiga histórica produzida pela alternância PS/PSD. Fingir que esse eleitorado é apenas vítima de “gritaria” é um acto de desprezo político. E o desprezo, em democracia, costuma sair caro.
O mais curioso é que os próprios críticos do texto de Cavaco, mesmo não sendo necessariamente alinhados com o CHEGA, detectaram a mesma deformação: o ex-Presidente parece ter redescoberto uma curiosa faculdade divinatória. Vê no CHEGA todos os males possíveis, embora o partido nunca tenha governado; mas não viu, em tempo útil, o esgotamento da fórmula partidária que ajudou a perpetuar. É uma presciência selectiva, confortavelmente retrospectiva. A decadência portuguesa é, para esta escola, sempre culpa do intruso, nunca dos porteiros do regime.[2]

A resposta de André Ventura, quando acusou Cavaco de “parar com coisas esotéricas” e de assumir a responsabilidade histórica do PS e do PSD, pode soar brusca, mas acerta no ponto central: não é intelectualmente sério imputar ao CHEGA a factura de um país que ele não governou. Ventura lembrou que nem o aumento do custo de vida, nem o desperdício de fundos europeus, nem a persistente pobreza relativa de Portugal podem ser debitados a um partido sem experiência governativa nacional.[3]
Esse contra-argumento não resolve, por si só, a discussão sobre o mérito de todas as propostas do CHEGA. Mas expõe a manobra de fundo: transformar o efeito em causa, e a reacção em origem.

É por isso que o texto de Cavaco Silva não deve ser lido apenas como uma crítica ao CHEGA. Deve ser lido como um documento de medo sociológico das velhas elites. Medo de perderem o monopólio da definição do aceitável. Medo de verem a sua linguagem de prudência desmascarada como cúmplice da estagnação. Medo, sobretudo, de que uma parte crescente do país deixe de pedir licença para votar contra quem o arruinou.
Quando Cavaco condena o “discurso de confrontação”, o que verdadeiramente lamenta é o fim do consenso deferente. O eleitor obediente, agradecido e resignado está a desaparecer. E isso perturba mais o cavaquismo residual do que qualquer programa partidário.

Há, aliás, uma ironia difícil de ignorar. Cavaco Silva, que em tempos encarnou uma ruptura modernizadora contra a inércia e o declínio, aparece hoje como guardião senatorial de uma ordem esgotada. A sua linguagem já não é a do reformador; é a do síndico. Já não quer abrir caminho; quer fechar a porta. Já não procura alargar a representação; quer certificá-la. O antigo homem da maioria absoluta terminou como moralista do cordão sanitário.

É um fim politicamente triste, ainda que pedagogicamente útil: mostra como certos sectores da direita do regime preferem perder o país a perder o controlo do regime.
No fundo, Cavaco diz aos portugueses o seguinte: reconheço que o país está mal, reconheço que as reformas falharam, reconheço que o sistema produziu mediocridade e atraso — mas cuidado com quem denuncia demasiado alto essa falência. É um argumento de tutor cansado. E os povos, quando deixam de suportar tutores, tornam-se perigosos para as biografias reverenciadas.

O problema de Cavaco Silva não é ter criticado o CHEGA. Em democracia, isso é legítimo. O problema é tê-lo feito como representante excelso de uma tradição política com culpas directas no estado a que o país chegou, sem um átomo de verdadeira auto-imputação histórica. Aí, a crítica deixa de ser análise e passa a ser encenação. Encenação de superioridade. Encenação de distância. Encenação de inocência.

Mas o país real já não está para encenações.
E talvez seja isso que mais irrita o professor não é o CHEGA em si mesmo, mas o facto de haver cada vez mais portugueses que deixaram de se comover com as reprimendas dos responsáveis pelo desastre.
Porque, quando os administradores da ruína se apresentam como fiscais da decência democrática, o mínimo que se pode fazer é recordar-lhes isto: antes de darem lições ao insurgente, deviam explicar a falência do condomínio que geriram durante quarenta anos.

Referências
[1] Aníbal Cavaco Silva, “O dinheiro do Estado não cai do céu”, Expresso, 26 de Março de 2026.
[2] Observador, “A culpa é do Chega e a culpa é do Passos de Cavaco”, artigo de opinião, 2026.
[3] Observador, “Ventura diz que Cavaco devia parar com coisas esotéricas e assumir responsabilidades”, 28 de Março de 2026.