domingo, 25 de outubro de 2026

Quem são e o que querem?

Da reivindicação de uma casa à ambição de deitar abaixo o regime

Há uma pergunta que o jornalistado deveria fazer antes de oferecer a uma tenda o estatuto de tribuna nacional: quem fala, em nome de quem e com que objectivo? A dificuldade em pagar uma renda merece respostas concretas; um programa de destruição das instituições merece perguntas igualmente concretas. Quando se confundem as duas coisas, a informação transforma-se em publicidade e a necessidade de uns passa a servir a ambição política de outros.

Pelo discurso atribuído a  um manifestante em vídeo que circula nas redes, a habitação seria apenas uma parcela de uma crise universal que incluiria o clima, a economia, o racismo e o machismo, tudo explicado por um culpado único: o capitalismo. A solução acompanharia a dimensão do diagnóstico: destruir o Estado, a polícia, o capital, os tribunais e os média, admitindo que o protesto desembocasse numa insurreição violenta. Se é este o programa, convém apresentá-lo ao público por inteiro, em vez de o embrulhar na expressão confortável de “luta pela habitação”.

Não sabemos que representação tem aquele interveniente, nem seria sério atribuir as suas palavras a todos os manifestantes. Mas também não seria sério ignorar o conteúdo político de um discurso apenas porque foi pronunciado à sombra de uma causa social legítima. Quem pede uma renda comportável e quem anuncia a destruição dos tribunais podem ocupar a mesma praça; não estão necessariamente a defender o mesmo projecto.

A biblioteca da revolução de bolso

Apetece perguntar se, entre tantas palavras de ordem, ainda sobra tempo para Camilo, Júlio Diniz ou Herculano — e se Marx, Engels e Lenine são lidos para além das frases que cabem num cartaz. A pergunta é irónica; o problema é sério: um vocabulário revolucionário não substitui o conhecimento da sociedade que se pretende reconstruir. Repetir “capitalismo”, “opressão” e “revolução” pode produzir uma intervenção televisiva; dificilmente produz uma política de habitação.

Circulam, entretanto, manuais de apoio legal e de desobediência civil. A sua existência não demonstra preparação terrorista: conhecer direitos, deveres e consequências legais faz parte da cidadania. A questão política começa quando se pretende converter a preparação para desobedecer numa licença moral para impor decisões aos outros. Conhecer as garantias do Estado de direito não concede o direito de as destruir para quem discorda.

Eis uma pergunta que mereceria tempo de antena: depois de abolidos os tribunais, quem protegeria o cidadão contra a arbitrariedade dos revolucionários? Uma assembleia de braço no ar? Uma comissão escolhida pelos mais persistentes? Ou o porta-voz que, tendo descoberto a causa de todos os males, se considerasse dispensado de prestar contas?

Três gerações e uma promessa quebrada

A minha geração, hoje septuagenária e octogenária, conheceu dificuldades que não precisam de ser inventadas para valorizar o passado. Muitos começaram com pouco e conseguiram melhorar de vida, sustentados pela convicção de que os filhos viveriam melhor. O trabalho, a poupança e o sacrifício tinham um horizonte reconhecível.

É esse horizonte que hoje parece fugir a muitos jovens. Estudar, trabalhar e cumprir as regras já não lhes garante, em condições razoáveis, a possibilidade de sair de casa dos pais ou constituir família. A gravidade desta situação não diminui por terem existido barracas, sobrelotação e pobreza habitacional noutras décadas. O progresso mede-se também pela distância entre aquilo que uma sociedade promete e aquilo que efectivamente permite alcançar.

A interrogação de Helena Matos, nos excertos apresentados, atinge precisamente este ponto: que sacrifícios esperam os jovens quando deixarem de o ser? Defender hoje uma medida porque tem um rótulo generoso pode significar pagar amanhã uma factura incomportável. As pensões precisam de financiamento, a dívida exige serviço e uma casa precisa de ser construída, conservada e disponibilizada. Nenhuma destas obrigações desaparece por aclamação.

Também seria absurdo reduzir uma geração inteira aos acampamentos. Há jovens que protestam, jovens que emigram, jovens que trabalham em silêncio e jovens que procuram nas Novas Direitas respostas que deixaram de encontrar nos partidos tradicionais. Uma praça ocupada não constitui uma amostra representativa da juventude portuguesa, por muito que a realização televisiva encontre nela os seus melhores enquadramentos.

A crise tem história; a propaganda prefere culpados

André Abrantes do Amaral recorda, no excerto citado, que a crise não surgiu do nada: houve escolhas, perda de empresas, empregos e capacidade no sector da construção. Essa perspectiva obriga a discutir decisões e consequências, tarefa bastante mais exigente do que encontrar um inimigo com nome sonante.

A crítica de João Adrião à fabricação de um estado permanente de emergência merece igualmente atenção. Quando tudo é apresentado como catástrofe sem precedente, o debate fica vulnerável à promessa de soluções excepcionais. Mas denunciar o alarmismo exige reconhecer a dificuldade real: quem entrega uma parte esmagadora do salário por um quarto não precisa de propaganda para perceber que tem um problema.

A resposta séria deve disputar as soluções e explicar os seus custos. Quantas casas se podem construir? Que obstáculos atrasam a oferta? Como se protege quem não consegue pagar? Que incentivos permitem recuperar imóveis? O revolucionário de serviço tem uma vantagem televisiva: responde a todas estas perguntas com a mesma palavra — capitalismo — e fica dispensado de apresentar contas.

O PREC com equipamento novo

Miguel Pinheiro questiona o encantamento perante uma suposta novidade política; Miguel Morgado chama a atenção para a facilidade com que o discurso revolucionário encontra acolhimento mediático. Os dois problemas encontram-se quando a ocupação da rua passa a ser apresentada como uma forma superior de representação.

Quem viveu o PREC reconhece o mecanismo: a vanguarda proclama-se intérprete do povo e procura transformar a sua capacidade de mobilização em autoridade sobre os restantes cidadãos. Mudaram os meios de comunicação e algumas bandeiras; permanece a tentação de substituir o voto pela pressão.

É aqui que ganha utilidade o princípio da flutuabilidade política: quando uma força perde influência institucional, pode procurar compensá-la através da mobilização extra-institucional. Trata-se de uma hipótese para interpretar comportamentos, não de uma lei automática; exige observar quem organiza, que objectivos declara e como procura converter descontentamento em poder.

Em França, Macron atribuiu a grupos de ultra-esquerda a intenção de fazer cair a República, distinguindo essa actuação da delinquência. A acusação do Presidente francês deve ser apreciada com os respectivos elementos; não pode ser transferida automaticamente para Portugal. Mas torna difícil continuar a tratar qualquer discussão sobre violência revolucionária como uma fantasia reaccionária.

A pergunta que falta fazer

A liberdade de manifestação merece protecção, incluindo quando incomoda o Governo. Essa liberdade também permite perguntar aos manifestantes o que pretendem fazer com o poder que reclamam. O dever jornalístico começa precisamente onde termina o encanto com o cenário.

Quem anuncia a destruição do Estado deve explicar que autoridade o substituirá; quem ameaça os tribunais deve explicar como assegurará justiça; quem admite a insurreição deve responder pelos meios que propõe. A indignação social não dispensa nenhuma destas perguntas.

Portugal precisa de casas, de salários que permitam pagá-las e de governantes capazes de enfrentar os obstáculos que ajudaram a acumular. Precisa também de perceber quando uma reivindicação está a ser usada para recrutar adeptos de um projecto que vai muito além dela.

Quem promete resolver a falta de casas destruindo os tribunais já revelou a sua prioridade: antes de alojar o povo, quer despejar a democracia.