sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Uma reflexão a partir da de António Marques Bessa (1949 .2022): As Elites e a Crise da Nação

Num tempo em que a palavra "elite" surge quase sempre associada à crítica política, vale a pena recuperar o pensamento de
António Marques Bessa, um dos mais relevantes estudiosos portugueses da teoria das elites. Especialista nesta matéria e autor de obras de referência sobre o poder e as minorias dirigentes, Bessa recordava-nos uma verdade frequentemente esquecida: as elites não são um acidente da História nem uma perversão dos regimes democráticos. São uma constante de todas as sociedades organizadas. 12

A questão fundamental nunca foi a existência das elites. A verdadeira questão é outra: quem as selecciona, como se renovam e ao serviço de que interesses exercem o poder.
Esta reflexão assume hoje uma importância acrescida em Portugal.

Durante décadas, alimentou-se a ilusão de que a democracia resolveria automaticamente os problemas da selecção das lideranças. Bastaria o sufrágio universal para garantir a ascensão dos mais capazes. Porém, a realidade revelou-se bastante mais complexa. Em vez de assistirmos à emergência de uma elite nacional baseada no mérito, na competência e na experiência, verificámos muitas vezes a consolidação de uma classe política profissional cuja principal qualificação parece residir na sua capacidade de navegar os aparelhos partidários.

A política transformou-se numa carreira.
Muitos dos que hoje ocupam lugares de responsabilidade passaram directamente das juventudes partidárias para gabinetes ministeriais, administrações públicas, assessorias, empresas participadas pelo Estado ou organismos internacionais. Poucos conheceram o risco empresarial. Poucos exerceram actividades profissionais exigentes fora da esfera política. Menos ainda tiveram contacto prolongado com a realidade quotidiana da maioria dos portugueses.
Criou-se assim uma elite que fala frequentemente em nome do povo, mas que conhece cada vez menos os problemas concretos do povo.

O resultado está à vista.
Portugal continua a perder população jovem qualificada para a emigração. A natalidade encontra-se em níveis historicamente baixos. O interior esvazia-se. A habitação tornou-se inacessível para uma parte crescente da classe média. Os serviços públicos acumulam dificuldades estruturais. Apesar disso, grande parte do debate político parece concentrar-se em agendas frequentemente importadas de centros de poder exteriores e pouco relacionadas com as preocupações imediatas dos cidadãos.

É aqui que a análise de António Marques Bessa revela toda a sua actualidade.
Uma elite perde legitimidade quando deixa de interpretar os interesses profundos da comunidade que dirige. Não basta deter poder formal. É necessário possuir autoridade moral, visão estratégica e capacidade de representar os anseios da colectividade nacional. 12

Ora, uma das características do actual momento histórico consiste precisamente na crescente transferência de decisões para estruturas supranacionais. Uma parte significativa das políticas económicas, monetárias, energéticas ou regulatórias já não é decidida exclusivamente em Lisboa. Muitas das orientações fundamentais são enquadradas por instituições europeias e por centros de decisão que escapam ao escrutínio directo dos cidadãos portugueses.

Não se trata aqui de negar as vantagens da integração europeia. Trata-se de reconhecer uma evidência: sempre que o centro efectivo de decisão se afasta da comunidade política, tende também a aumentar a sensação de impotência dos cidadãos perante o sistema.

Daí o crescimento do descontentamento e da abstenção.
Daí também a emergência de movimentos de protesto e de forças políticas que se apresentam como alternativas ao consenso dominante.

A História ensina, contudo, que a simples substituição de uma elite por outra não resolve automaticamente os problemas de uma sociedade. Como observava a tradição elitista estudada por Bessa, a circulação das elites é inevitável; o que não é inevitável é a sua qualidade.

Nenhum país sobrevive sem minorias dirigentes competentes.
Nenhuma democracia subsiste indefinidamente quando os mecanismos de selecção deixam de premiar o mérito, a inteligência, a experiência e a responsabilidade.
Nenhuma nação prospera quando as suas elites perdem a consciência da sua missão histórica.
Portugal enfrenta hoje precisamente este desafio. Não necessita de uma guerra demagógica contra as elites. Necessita de uma profunda renovação das suas elites.
Necessita de dirigentes capazes de pensar para além do próximo ciclo eleitoral.
Necessita de empresários inovadores que não dependam da proximidade ao Estado.
Necessita de intelectuais que não confundam pensamento crítico com conformismo ideológico.
Necessita de uma nova geração de lideranças enraizadas na realidade nacional e não apenas nos circuitos fechados da política profissional.

A decadência das nações raramente começa pela falta de recursos. Começa quase sempre pela erosão da qualidade das suas lideranças.
Talvez seja esta a grande lição que podemos recolher da obra de António Marques Bessa. Uma sociedade não se mede pela ausência de elites. Mede-se pela capacidade de formar elites que sirvam a Nação em vez de se servirem dela.
E essa continua a ser uma das questões decisivas do Portugal contemporâneo.

"A questão que se coloca aos portugueses não é saber se querem elites. A História demonstra que elas existirão sempre. A questão verdadeiramente decisiva é outra: continuarão os portugueses a aceitar elites que já não parecem dispostas a assumir as responsabilidades inerentes ao exercício do poder?"

Referências Bibliográficas
BESSA, António Marques, Quem Governa? Uma Análise Histórico-Política do Tema da Elite, Lisboa, ISCSP, 1993. 12
BESSA, António Marques, Elites e Movimentos Sociais, Lisboa, Universidade Aberta, 2002. 31
BESSA, António Marques, A Arte de Governar, Lisboa, ISCSP, 1996. 12
MOSCA, Gaetano, The Ruling Class, Nova Iorque, McGraw-Hill, 1939.
PARETO, Vilfredo, Mind and Society, Nova Iorque, Dover Publications, 1963.
MICHELS, Robert, Political Parties: A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy, Nova Iorque, Free Press, 1962.